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Belo Horizonte,04/07/2026

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Como manter o controle emocional em situações difíceis

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Como manter o controle emocional em situações difíceis
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Em meio ao inesperado, não temos como prever as situações que vamos passar nem no dia de hoje. Imagina conseguir prever a nossa própria reação? 


É lógico que isso é impossível, em momentos de crise, pressão ou conflito, expressamos nossas emoções dá maneira que conseguimos, não necessariamente como gostaríamos. E a tentativa de lidar com elas, costuma dizer mais sobre o que foi acumulado do que sobre o que está acontecendo de fato.


Thaís Barbisan, psicóloga e neuropsicóloga, usa uma imagem simples para explicar o que ocorre quando as emoções são empurradas para dentro em vez de elaboradas.


“Imagine um cano de água. Quando você aperta o cano, a água continua existindo e a pressão vai aumentando. Em algum momento, ela encontra uma saída. Com as emoções acontece algo parecido: quando elas são reprimidas, tendem a aparecer de outra forma, muitas vezes de maneira mais intensa e prejudicial.”


O problema é que reprimir e regular parecem, de fora, a mesma coisa. Os dois podem resultar em silêncio, mas a diferença está no que acontece internamente e no que aparece depois.


Dar nome para sentir


Regular a emoção começa por reconhecê-la. Parece óbvio, mas não é. Muitas pessoas atravessam dias inteiros sem se perguntar o que estão sentindo de verdade e quando o sentimento aparece, aparece sem aviso, sem contexto, desproporcional.


Barbisan descreve a regulação emocional como um processo que começa antes de qualquer estratégia prática: “É perceber o que está sentindo, dar nome à emoção e conseguir comunicá-la no dia a dia, dizendo, por exemplo: ‘Hoje estou nervoso’, ‘Estou frustrado’ ou ‘Estou triste’. Também significa evitar agir por impulso, buscando usar a razão para decidir como responder à situação.”


O ato de nomear tem um efeito concreto sobre o sistema nervoso. Quando a emoção ganha linguagem, ela para de operar apenas como sinal de alarme e passa a ser algo que pode ser observado. Não eliminado, observado. E essa distinção é o que separa quem reage de quem responde.


A repressão funciona ao contrário. A pessoa não chora, não demonstra, não deixa transparecer. Parece equilibrada. Mas o corpo registra o que a consciência rejeita. Uma tensão crônica, uma dor de cabeça que aparece sempre no mesmo contexto, uma irritação que escala do nada numa conversa banal, são rastros de emoções que não encontraram caminho de saída.


“Na repressão, você tenta fingir que a emoção não existe ou a empurra para dentro, sem elaborá-la. A emoção continua presente e, mais cedo ou mais tarde, tende a aparecer de outra forma”, explica Barbisan.


Reações que vêm do acúmulo 


Há situações em que a emoção que uma circunstância provoca é claramente desproporcional ao que aconteceu. Uma resposta seca numa mensagem que vira discussão. Uma crítica pequena no trabalho que desencadeia uma tarde inteira de estresse. Lágrimas que escorrem em meio a uma situação comum.


Nesses momentos, o episódio em si costuma dizer muito pouco. O cansaço acumulado, um conflito que ficou em aberto, uma decepção que não foi elaborada, tudo isso forma uma espécie de carga que a pessoa carrega sem perceber.


A especialista é direta sobre o que esse padrão indica: “Se uma situação pequena provoca uma reação muito intensa, se isso acontece com frequência ou se a pessoa tem dificuldade para resolver conflitos sem partir para agressividade, impulsividade ou comportamentos que geram arrependimento, vale a pena refletir se existem questões anteriores interferindo naquele momento.”


O cansaço, especificamente, altera a percepção de ameaça. Um cérebro exausto interpreta o mundo com mais urgência e menos nuance. O que numa semana de sono bom seria uma discordância vira crise. Isso não é fraqueza de caráter, é funcionamento fisiológico. E reconhecer essa variável é já uma forma de lidar com ela.


A pergunta mais útil nessas horas é “essa reação me ajudou ou piorou as coisas?”. Mais do que julgar se a emoção foi certa ou errada, o que importa é se ela foi funcional, se ajudou a resolver o problema ou trouxe consequências negativas.


Uma das maneiras mais simples, e também a mais subestimada, para retomar o controle das emoções é a pausa. “Respirar profundamente, verbalizar que precisa de alguns minutos para pensar e, se possível, se afastar temporariamente do ambiente ajudam o cérebro a sair do modo de ameaça e permitem uma resposta mais consciente”, explica a psicóloga.


Sob pressão intensa, o cérebro ativa respostas automáticas de sobrevivência: luta, fuga ou congelamento. A pausa não resolve o problema, mas cria condições para que a pessoa volte a pensar antes de agir.


Outro movimento importante é separar o que aconteceu do que foi interpretado sobre o que aconteceu. Em estado de pressão, o cérebro tende a preencher lacunas com suposições, quase sempre com as mais negativas disponíveis. Perguntar “o que de fato aconteceu aqui?” ajuda a desfazer narrativas que amplificam o que já é difícil.


Barbisan aponta também algo que parece contraintuitivo: nem toda tensão precisa ser resolvida na hora.



“Nem toda situação exige uma resposta imediata. Em muitos casos, adiar a conversa até que as emoções estejam menos intensas favorece uma comunicação mais assertiva e evita atitudes impulsivas.”



A urgência emocional e a urgência real são coisas diferentes. A sensação de que tudo precisa ser resolvido agora, neste instante, muitas vezes é o estado alterado falando, não a situação em si.


Saúde emocional no cotidiano


Mas há um limite para o que as estratégias de momento conseguem fazer. Elas funcionam melhor quando existe uma estrutura emocional já construída por baixo. Quando a pessoa chega à crise já exausta, já desregulada, já sem recursos, fica mais complicado, porque o resultado vem do trabalho contínuo e diário.


Por isso, Barbisan defende que o cuidado emocional não pode ser tratado como resposta de emergência.



“A melhor forma de enfrentar uma crise é não esperar que ela aconteça para começar a cuidar da saúde emocional.”



Essa base tem componentes concretos, sono, movimento, relações de confiança, momentos de lazer reais. A psicóloga dá ênfase na metacognição, capacidade de observar os próprios pensamentos e emoções com um grau de distanciamento que permite percebê-los sem ser tomado por eles.


“Muitas pessoas vivem no ‘piloto automático’ e não costumam parar para observar como estão se sentindo ou por que reagem de determinada maneira. Esse exercício de autopercepção fortalece a autorregulação emocional.”


O autoconhecimento que Barbisan descreve não é o tipo vendido em livros de autoajuda. É um processo construído na observação das próprias reações ao longo do tempo.


“Quanto mais a pessoa se conhece, mais ela consegue perceber rapidamente o que está sentindo e fazer escolhas mais conscientes”, resume a psicóloga.


A autorregulação emocional não é uma característica inata de pessoas naturalmente equilibradas. É uma habilidade. E como toda habilidade, ela se desenvolve com prática, com atenção e, quando necessário, com ajuda.


A saúde emocional precisa deixar de ser um cuidado de emergência e se tornar um hábito de dedicação diária. Assim como cuidamos do corpo, precisamos aprender a cuidar da mente com a mesma constância e responsabilidade.”


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