Esse ‘monstro’ na sua cabeça talvez não seja tão grande assim
Ela chega de mansinho. Uma dúvida aqui, uma preocupação ali. Depois, ganha forma. Cresce. Ganha pernas, braços, presença. E, quando você menos espera, está paralisado diante de um “monstro” que, na verdade, não passa de uma sombra projetada pela sua própria mente.
Quantas vezes já aconteceu com você? Uma apresentação no trabalho que você ensaiou na cabeça centenas de vezes – e foi mais tranquila do que imaginava. Uma conversa difícil que você adiou por dias, semanas, meses – e que, quando finalmente aconteceu, durou minutos e resolveu um problema que você carregava sozinho. Um diagnóstico que você temeu por semanas – e que, afinal, tinha tratamento e solução.
Esse fenômeno tem nome e é mais comum do que se imagina. A psicóloga Rejane Sbrissa explica: “Nossa mente tende a ampliar algumas preocupações porque ela foi ‘programada’ para priorizar a sobrevivência. Ao longo da evolução, era mais seguro imaginar um perigo maior do que ele realmente era do que ignorar uma ameaça real.”
O psiquiatra Oswaldo Petermann Neto complementa: “O cérebro humano foi programado para detectar ameaças. Ao longo da evolução, era mais seguro exagerar um perigo do que ignorá-lo. O problema é que hoje nosso cérebro reage não apenas a ameaças reais, mas também a ameaças imaginadas.”
O alarme que dispara antes do fogo
Quando começamos a imaginar cenários negativos, algo muito concreto acontece dentro de nós. Não é “só pensamento”. O corpo entra em estado de alerta, como se o perigo já estivesse ali, na nossa frente.
Rejane descreve esse processo: “O nosso cérebro reage como se estivesse se preparando para uma ameaça real, ativando respostas de alerta no organismo. Como consequência, o corpo pode liberar hormônios do estresse, como o cortisol e a adrenalina.”
O resultado? Coração acelerado, tensão muscular, aperto no peito, inquietação, dificuldade de concentração e problemas para dormir.
Oswaldo acrescenta: “Quando antecipamos um cenário negativo, áreas cerebrais ligadas à sobrevivência, especialmente a amígdala cerebral, tornam-se mais ativas. O organismo passa a liberar hormônios do estresse. O curioso é que o corpo reage como se o perigo estivesse acontecendo naquele momento, mesmo que tudo exista apenas na imaginação.”
Quando a preocupação vira armadilha
Nem toda preocupação é prejudicial. Há uma diferença fundamental entre o cuidado saudável e o sofrimento antecipado. Rejane explica essa distinção.
“A preocupação saudável tem uma função prática. Ela alerta para um problema possível e leva à ação. A pessoa consegue pensar em soluções, avaliar riscos de forma realista e seguir com suas atividades. Já o pensamento catastrófico exagera a probabilidade ou a gravidade de um evento negativo. A mente passa a tratar uma possibilidade como se fosse uma certeza, gerando sofrimento antecipado e sensação de impotência.”
Oswaldo sintetiza: “A preocupação saudável ajuda a planejar soluções. Ela é objetiva e leva à ação. Já o pensamento catastrófico faz a pessoa acreditar que o pior cenário é o mais provável, mesmo sem evidências.”
A lente que distorce a realidade
A ansiedade, quando desregulada, funciona como uma lente que distorce a realidade. Ela amplia riscos e diminui a percepção da própria capacidade de enfrentá-los.
Rejane observa que “quando estamos ansiosos, o cérebro fica constantemente à procura de sinais de risco. Isso faz com que a atenção se volte para possíveis problemas ao invés de informações que indicam segurança”.
Ela lista exemplos cotidianos: uma mensagem sem resposta é interpretada como rejeição; uma crítica construtiva no trabalho é vista como sinal de demissão iminente; uma mudança no comportamento do parceiro é entendida como perda de interesse ou abandono; um sintoma físico passageiro é associado imediatamente a uma doença grave.
Oswaldo usa uma imagem precisa:
“A ansiedade funciona como um alarme muito sensível. É como um detector de fumaça que dispara mesmo quando alguém apenas queimou uma torrada.”
Os sinais de que a imaginação assumiu o controle
Como saber se estamos alimentando um medo mais pela imaginação do que pelos fatos? Os especialistas listam sinais claros:
Rejane aponta: a pessoa passa mais tempo imaginando cenários do que analisando evidências; trata possibilidades como certezas; busca repetidamente garantias; ignora informações que contradizem o medo; cria cenários cada vez mais extremos; sente reações físicas intensas mesmo sem ameaça real; mente fica constantemente antecipando o futuro; o medo não leva a uma ação produtiva, mas sim à paralisia.
Oswaldo acrescenta: “Um dos principais sinais é quando passamos mais tempo imaginando o que pode acontecer do que analisando o que realmente está acontecendo. Quando os pensamentos são dominados por hipóteses e não por fatos, geralmente a imaginação está assumindo o controle.”
Por que evitar só piora
Diante do medo, a tentação mais imediata é fugir. Evitar a situação que nos assusta. Mas, como alertam os especialistas, essa estratégia, embora traga alívio momentâneo, costuma fortalecer o monstro no longo prazo.
Rejane explica o mecanismo: “Quando evitamos algo que gera ansiedade, o cérebro recebe uma mensagem parecida com: ‘Ainda bem que me afastei, porque aquilo realmente era perigoso.’ Com isso, ele não tem a oportunidade de aprender que talvez a situação fosse desconfortável, mas não necessariamente ameaçadora.”
Para, “quando evitamos algo, sentimos um alívio momentâneo, mas o cérebro aprende que aquela situação realmente era perigosa. Isso impede que a pessoa descubra que conseguiria lidar com ela”.
O caminho, segundo eles, não é o enfrentamento radical, mas a aproximação gradual. “O mais eficaz costuma ser uma aproximação gradual e respeitosa, dando pequenos passos que permitam ao cérebro aprender uma nova mensagem: ‘Eu tive medo, mas consegui vencer a situação’”, destaca Rejane.
Estratégias para encolher o ‘monstro’
Se o monstro é fruto da imaginação, ele também pode ser desmontado por ferramentas da mente. Os especialistas sugerem práticas concretas.
Rejane lista algumas, baseadas na TCC (terapia cognitivo-comportamental):
- Separar fatos de interpretações: o que de fato aconteceu e o que eu estou imaginando sobre isso?;
- Procurar evidências a favor e contra: o que sustenta meu pensamento? O que o contradiz?;
- Imaginar uma amiga querida na mesma situação: que conselho eu daria a ela?;
- Avaliar a probabilidade real: muitas coisas são possíveis, mas poucas são realmente prováveis;
- Buscar explicações alternativas: em vez de aceitar automaticamente a pior hipótese, liste ao menos três outras explicações;
- A técnica do “daqui a um ano”: o quanto isso será importante daqui a um mês? E daqui a um ano?;
- Ancoragem no presente: quando a mente acelerar com cenários futuros, volte para o momento atual.
Oswaldo sugere perguntas simples: “Quais são as evidências de que isso realmente vai acontecer? Se acontecesse, eu teria recursos para lidar com isso?” E reforça a diferença entre possibilidade e probabilidade: “Muitas coisas são possíveis, mas poucas são realmente prováveis.”
Quando é hora de pedir ajuda
A preocupação e o medo fazem parte da vida. Mas há um limite entre o natural e o que pede atenção profissional.
Rejane sugere um critério: “Quando o medo e a preocupação deixam de ser respostas pontuais a situações específicas e passam a interferir no bem-estar, nos relacionamentos, no trabalho ou na qualidade de vida.”
Ela reforça que “não é preciso esperar uma crise grave. Muitas vezes, procurar um profissional precocemente permite compreender melhor os pensamentos, emoções e comportamentos antes que eles se tornem mais intensos.
Oswaldo é categórico: “Se a pessoa está perdendo sono, evitando atividades importantes, tendo dificuldades no trabalho, nos relacionamentos ou sofrendo diariamente por preocupações excessivas, vale procurar ajuda profissional.”
O monstro que habita a sua cabeça pode ser menos assustador do que parece. Nem todo pensamento merece ser acreditado apenas porque surgiu na mente. Pensamentos são eventos mentais, não fatos E, como destaca Rejane:
“Desenvolver o hábito de observá-los, questioná-los e testá-los pode reduzir muito o sofrimento causado por previsões negativas que, muitas vezes, nunca se concretizam.”
Na próxima vez que o “monstro” aparecer, respire fundo. Olhe para ele com atenção. Talvez, no clarão da consciência, você descubra que ele não passa de uma sombra.
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