Virar o jogo: o que o futebol ensina sobre as reviravoltas da vida
Aos 40 minutos do segundo tempo, o placar marcava 2 a 0 para o adversário. A torcida já se preparava para a derrota e os jogadores caminhavam cabisbaixos. E então, em três minutos, tudo mudou. Um gol de cabeça. Outro, num contra-ataque. Nos acréscimos, a virada. O time que parecia derrotado saiu de campo em festa. O que vemos em uma partida de Copa do Mundo também se aplica na nossa própria trajetória.
Fora dos gramados, a vida também tem dessas reviravoltas. Demissões que viram novas carreiras, términos que se transformam em autoconhecimento. Doenças que redefinem prioridades. A pergunta que fica é: o que é necessário para virar o jogo quando tudo parece perdido?
Quando o sofrimento aperta, é como se a vida inteira coubesse num placar desfavorável. A tendência é acreditar que aquela derrota é definitiva. Que o jogo acabou antes do apito final. Que não há mais tempo, energia ou razão para tentar.
Mas há uma verdade que tanto a psicologia quanto o futebol insistem em nos lembrar: o placar de um momento não define o resultado final da partida. E, muitas vezes, a virada começa antes mesmo de o problema desaparecer. Ela começa quando a pessoa muda sua posição diante dele.
“Na psicologia, observamos que as grandes transformações raramente surgem de um ato heroico”, reflete Veruska Vasconcelos, coordenadora de psicologia do Hospital Alvorada Moema.
“Elas costumam nascer de pequenas decisões repetidas: pedir ajuda, aceitar uma perda, desenvolver uma nova habilidade ou abandonar uma expectativa que já não faz sentido. A virada não acontece quando a vida muda primeiro. Muitas vezes a vida muda porque a pessoa mudou a forma de jogar.”
A armadilha do placar
Por que, então, é tão difícil acreditar que uma situação ruim pode melhorar, mesmo quando ainda existem possibilidades de mudança?
Veruska explica que o sofrimento altera a forma como interpretamos a realidade. “Quando alguém está emocionalmente sobrecarregado, tende a enxergar o presente como permanente e a dor como definitiva.”
Há ainda um viés de sobrevivência que nos faz dar mais atenção às ameaças do que às possibilidades. “Em momentos difíceis, a pessoa não vê apenas o problema atual, ela começa a imaginar um futuro inteiro baseado naquele momento de dor”, acrescenta.
A psicóloga Rejane Sbrissa complementa com uma imagem que nos ajuda a entender. “Usando a metáfora do futebol, é como um time que está perdendo por 2 a 0 e passa a acreditar que a derrota é inevitável. Quando isso acontece, os jogadores podem perder a confiança, diminuir a intensidade e deixar de perceber oportunidades de reação”, explica. No entanto, essa interpretação não é um destino.
“Muitas transformações acontecem quando conseguimos olhar além da dificuldade atual, reconhecer os recursos internos e compreender que situações difíceis são temporárias.”
O gol que veio do erro
Não há virada sem uma derrota anterior. E a forma como interpretamos essa derrota determina se ela será um fim ou um recomeço.
“Se alguém interpreta um fracasso como prova de incapacidade, tende a desistir”, observa Veruska. “Se interpreta como uma experiência que revela limites, erros e oportunidades de aprendizado, aumenta a probabilidade de tentar novamente de forma mais madura.”
Rejane ecoa o mesmo pensamento: “Quando compreendemos a derrota como parte do processo de aprendizagem, ela pode se transformar em uma fonte de crescimento. Isso não significa ignorar a dor ou minimizar a frustração, mas reconhecer que erros, perdas e contratempos podem trazer ensinamentos importantes para decisões futuras.”
As pessoas mais resilientes, conclui Veruska, “não são aquelas que fracassam menos. São aquelas que conseguem extrair informação da derrota sem transformar o resultado em definição da própria identidade.”
Resiliência não é aguentar calado
Há uma confusão comum sobre o que significa ser resiliente. Muitos acreditam que é simplesmente suportar o sofrimento sem reclamar. Mas não é bem assim.
“Resiliência não significa aguentar tudo calado”, esclarece Veruska.
“Suportar sofrimento indefinidamente pode levar ao esgotamento emocional. Resiliência envolve adaptação. É a capacidade de reconhecer uma dificuldade, aprender com ela e reorganizar recursos internos e externos para seguir em frente.”
Rejane usa a mesma metáfora futebolística: “No futebol, um time resiliente não apenas aceita estar perdendo. Ele analisa o que não está funcionando, faz substituições, ajusta a tática e busca alternativas para mudar o resultado.” Na vida, ela conclui, “a resiliência está menos relacionada a ‘aguentar firme’ e mais à capacidade de se adaptar, aprender e agir de forma construtiva diante dos desafios.”
Resistir sem ajustar a rota, como diz Veruska, “nem sempre é força. Às vezes é apenas permanência no sofrimento.”
O medo que trava o jogo
Se há algo que impede uma virada, é o medo de errar novamente. Rejane é direta: “Após uma experiência dolorosa, é natural que a pessoa queira se proteger para evitar outras decepções. O problema surge quando esse medo passa a comandar as decisões e impede qualquer tentativa de mudança.”
Ela compara a um time que, depois de sofrer um gol num contra-ataque, deixa de atacar pelo resto da partida com medo de ser surpreendido novamente.
“A tentativa de evitar o erro acaba reduzindo as chances de sucesso.”
Veruska acrescenta que o medo “tem uma função protetiva importante, mas quando assume o controle, ele reduz experiências, oportunidades e crescimento. A pessoa passa a trocar a possibilidade de uma nova conquista pela falsa sensação de segurança de não tentar.”
O problema é que evitar riscos também tem um custo. “Muitas vezes o arrependimento de não ter tentado é emocionalmente mais pesado do que lidar com um novo erro.”
Insistir ou mudar de direção?
Uma das decisões mais difíceis em qualquer virada é saber quando insistir no plano atual e quando mudar completamente de direção.
Veruska sugere uma pergunta que pode ajudar: “Estou insistindo porque ainda existem evidências de que esse caminho pode funcionar ou apenas porque investi muito tempo nele?” Persistência, diz ela, “é uma virtude quando há possibilidade real de progresso. Mas insistir em algo apenas por apego ao esforço já realizado pode gerar desgaste desnecessário.”
Rejane complementa: “Persistir é continuar avançando com aprendizado e adaptação. Teimar é ignorar os sinais da realidade e insistir no mesmo caminho apesar das evidências de que ele não está trazendo resultados.”
Ela sugere que vale a pena insistir “quando ainda há aprendizado, propósito e possibilidade de evolução”. Já a mudança de direção pode ser a melhor escolha “quando percebemos que o cenário mudou, que nossos valores mudaram ou que o custo emocional, físico ou psicológico de continuar é maior do que os benefícios esperados.”
Os hábitos que preparam o campo
A confiança para enfrentar desafios não nasce de pensamentos positivos. Nasce da experiência acumulada de enfrentar dificuldades e perceber que é possível sobreviver a elas.
Rejane lista hábitos que fazem a diferença: valorizar pequenas conquistas, desenvolver uma mentalidade de aprendizado, cuidar da saúde física e mental, praticar o diálogo interno saudável, ter pessoas de confiança com quem compartilhar dificuldades e sair gradualmente da zona de conforto.
Veruska resume: “Pessoas confiantes não acreditam que tudo dará certo. Elas acreditam que conseguirão lidar com o que acontecer.”
O jogo nunca acaba antes do apito
Quando tudo parece perdido, a tentação de abandonar o campo é forte. Mas Veruska lembra:
“Nem sempre o momento que parece uma derrota é realmente o fim da partida. Em muitos casos, é apenas um intervalo entre versões de si mesmo.”
Ela cita exemplos de pessoas que encontraram sua melhor carreira depois de uma demissão, reconstruíram relacionamentos após grandes perdas e descobriram forças que desconheciam em períodos de adoecimento ou fracasso.
“Quando estamos sofrendo, tendemos a avaliar a vida olhando apenas para o placar. Mas o placar mostra apenas o resultado daquele momento. Ele não revela a capacidade que ainda existe para aprender, adaptar-se e recomeçar.”
Rejane conclui com uma mensagem que parece ter saído de um vestiário antes do segundo tempo.
“As maiores viradas acontecem justamente quando alguém decide não abandonar o campo, mesmo sem ter certeza de como o jogo vai terminar. É a perseverança, somada à capacidade de se adaptar e recomeçar, que frequentemente transforma derrotas temporárias em histórias de superação.”
A vida não exige que estejamos vencendo o tempo todo. Ela exige que continuemos jogando. E, muitas vezes, a verdadeira virada começa exatamente quando a pessoa decide não abandonar o campo e, de dentro do jogo, encontra uma força que nem sabia que tinha.
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