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Belo Horizonte,03/04/2026

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O ritmo ideal entre o ‘pé no chão’ e o ‘passo maior que a perna’

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O ritmo ideal entre o ‘pé no chão’ e o ‘passo maior que a perna’
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Há um lugar desconfortável onde muitos de nós caminhamos em algum momento da vida. De um lado, o medo paralisante que nos mantém atolados na dúvida. Do outro, a pressão por dar “um passo maior que a perna” que promete glória, mas esconde o abismo. Vivemos sob a tirania dos extremos – a cultura do sucesso instantâneo de um lado, o fantasma do fracasso do outro – enquanto o verdadeiro movimento, aquele passo consciente e possível, parece uma heresia.


Como encontrar, então, o ritmo da caminhada que não é fuga, nem precipitação, mas presença em movimento?


A psicóloga Adriana Santiago explica que esse conflito tem raízes profundas em nosso funcionamento cerebral. “O cérebro humano detesta incerteza. Quando ela se prolonga, duas estratégias disfuncionais aparecem: congelar ou agir sem pensar. Ambas são tentativas de aliviar a tensão interna. Nenhuma delas é, de fato, uma escolha consciente”, afirma.


São as duas faces da mesma moeda: a dificuldade de tolerar a ambiguidade e a frustração inerentes a qualquer processo vivo de crescimento.


Medo que vira prisão


O primeiro passo para sair dessa armadilha é entender com quem estamos lidando. Nem todo medo é inimigo. Existe aquele que nos protege, e aquele que nos aprisiona.


“Do ponto de vista da neurociência, o medo que protege é regulatório; o que paralisa é inibidor”, destaca Adriana. O medo saudável ativa um alerta proporcional: avaliamos riscos, pensamos em alternativas. O córtex pré-frontal, sede do planejamento, está no comando.


Já o medo paralisante é um sequestro emocional. “A amígdala assume o controle, o corpo entra em modo de sobrevivência e a mente passa a trabalhar com catastrofizações”, descreve a psicóloga. A voz interna muda de tom: deixa de ser o “como faço com mais segurança?” e vira um “não faça” autoritário e definitivo.


Falsa segurança do controle


Muitas vezes, a paralisia se veste de prudência. Esperamos o momento ideal, a garantia total, a plena certeza de que não haverá tropeços. Esta, no entanto, é uma demanda impossível.


“Esperar certeza é exigir do futuro algo que ele não promete e não tem como entregar. A certeza absoluta só existe depois da experiência, nunca antes”, diz Adriana. Nessa espera infinita, perdemos muito mais do que oportunidades.



“Perdemos confiança em nós mesmos. Muitos sonhos morrem por excesso de prudência.”



Do outro lado, a impulsividade promete um atalho. É a tentação de dar um “passo maior que a perna” para acabar logo com a angústia da espera. Mas um salto no escuro, sem preparo, geralmente termina em queda. A verdadeira segurança, como aponta a psicóloga, não vem de garantias externas.


“Segurança interna não se constrói na ausência de risco, mas na percepção de recursos internos. Não é saber que vai dar certo, é saber que você não desmorona se der errado.”


A arte do passo possível


Se nem a imobilidade nem a precipitação são saídas, qual é o caminho? A resposta está no “passo possível”, um conceito que Adriana detalha com clareza.


“Pequenos passos são terapêuticos quando geram expansão; tornam-se adiamento quando apenas mantêm a pessoa ocupada, não em movimento real”, explica. O critério não é o tamanho, mas o efeito.



“Se o medo diminui e a vitalidade aumenta, estamos no caminho certo.”



Como, então, identificar se estamos dando um passo possível e não apenas confortável? A psicóloga lista alguns sinais:



  • Há ansiedade, mas também entusiasmo;

  • Existe medo, porém acompanhado de curiosidade;

  • O corpo reage, mas não entra em pânico;

  • E, principalmente, a pessoa sente que está sendo fiel a si, aos seus valores, e não apenas se protegendo.


“O passo confortável mantém tudo igual. O passo possível provoca crescimento interno — ainda que ninguém perceba de fora”, conclui.


Errar como parte do processo


Aceitar o passo possível é, por definição, aceitar a possibilidade do erro. O caminho nunca é uma linha reta. A frustração e a culpa são visitantes frequentes quando os resultados fogem da expectativa.


Adriana nos convida a ressignificar essa experiência. “Primeiro, lembrando que frustração não é falha moral; é parte do processo de viver. A culpa surge quando confundimos resultado com valor pessoal.”


A proposta da Psicologia Positiva, segundo ela, é uma mudança de lógica: sair do “deu certo ou deu errado” para o “o que aprendi, o que fortaleceu, o que ajusto agora?”.


“Na clínica, eu costumo dizer que errar não é o problema; o problema é exigir de si uma onipotência impossível”, reflete. É um lembrete poderoso de que nossa humanidade reside justamente na capacidade de tentar, falhar, aprender e seguir.


No final, a vida não é um salto único e espetacular, mas uma série infinita de passos possíveis. Alguns serão firmes, outros hesitantes; alguns nos levarão para frente, outros nos farão contornar obstáculos. O que importa não é a velocidade ou a grandiosidade do gesto, mas a coragem de manter-se em movimento.


Entre o pântano da paralisia e o abismo da impulsividade, há uma vereda. Ela não está no mapa porque é criada a cada pisada. É o caminho que se faz ao caminhar, com o coração batendo no ritmo da pergunta que substitui tanto o “não faça” quanto o “salte já”: “qual é o passo possível, agora?”.


E assim, com um passo após o outro, construímos uma trilha de confiança, independentemente do terreno, com a força continuar seguindo.


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