Um café com Dudu Bertholini: "O maximalismo é uma forma de resistência"

Para Dudu Bertholini, vestir, morar e ocupar a cidade fazem parte de uma mesma narrativa. São formas de expressão que atravessam sua trajetória desde a infância, quando já se encantava pela autenticidade e pela maneira como as pessoas comunicavam quem eram por meio da aparência, dos objetos e dos espaços que habitavam. “Desde que vim ao mundo, me fascino pela autenticidade, pela maneira como as pessoas se expressam através da moda, através do design”, afirma no novo episódio de Um Café Com, da Casa Vogue.
Ao longo da conversa, Dudu reflete sobre a relação íntima entre identidade e espaço doméstico. Para ele, a casa nunca foi apenas um lugar para morar, mas um reflexo direto de quem a habita. “Minha casa é uma extensão de mim, um reflexo total e absoluto de quem eu sou”, diz. “Sempre foi muito importante ter a casa como templo, como refúgio, como lugar de encontro comigo mesmo e com as pessoas que eu amo.”
Essa visão também ajuda a explicar por que decoração, design e moda aparecem tão conectados em seu universo criativo. Se a arquitetura e o design moldam o espaço, a moda veste o corpo. Em ambos os casos, trata-se de construir narrativas visuais capazes de traduzir identidades. A exuberância que marca seu estilo pessoal também se manifesta nos ambientes que cria e ocupa. “Essa exuberância cromática e artesanal sai do meu closet, sai do meu estilo pessoal e se estende para a vida”, resume.
Para Dudu, uma casa acolhedora não segue fórmulas prontas nem tendências universais. O que realmente importa é a verdade. “Um espaço acolhe quando é uma tradução legítima e verdadeira de quem nós somos, da nossa identidade e da nossa personalidade.”
Um café com Dudu Bertholini: “Minha casa é uma extensão de mim”
Enquanto algumas pessoas encontram conforto em ambientes minimalistas, outras se sentem representadas por espaços marcados por cor, memória afetiva e objetos carregados de significado. O importante, segundo ele, é que a casa seja capaz de expressar pertencimento.
Essa defesa da expressão individual aparece também quando o assunto é maximalismo. Dudu vê a valorização das cores, das texturas e das manualidades como uma forma de preservar identidades culturais, especialmente em países latino-americanos.
“Na nossa história, na nossa essência, a exuberância cromática, o maximalismo e a mistura de cores pautam a maioria dos países latinos”, afirma. “Falar de maximalismo como manutenção das nossas identidades é, sim, uma forma de resistência.”
Um café com Dudu Bertholini: "O maximalismo é uma forma de resistência"
Celso Tavares
A mesma lógica orienta seu olhar para a cidade. Morador apaixonado de São Paulo, ele encontra inspiração justamente na complexidade urbana. “O que mais me encanta no caos urbano é o caos. É a mistura de cores, texturas, verdades, sabores e realidades.”
Ao caminhar pelas ruas, observa fachadas, grafites, pichações e pessoas. Mais do que julgar esteticamente o que vê, busca compreender o que a cidade está tentando comunicar. “Estou sempre tentando entender o que as pessoas e a cidade estão querendo me dizer.”
Um café com Dudu Bertholini: "O maximalismo é uma forma de resistência"
Divulgação
Quando fala sobre liberdade, a resposta também passa pela possibilidade de expressar plenamente quem é. Sentado em sua sala azul-lápis-lazúli, cercado por objetos criados por ele mesmo, Dudu define esse sentimento de forma simples. “Poder estar aqui na minha casa, usando uma roupa que eu desenhei e bebendo numa xícara que eu também desenhei é um sinônimo de liberdade.” Mas ele faz uma ressalva importante: liberdade só existe de forma plena quando é compartilhada. “Não pode ser um sentimento individual, tem que vir de uma força coletiva.”
Talvez seja justamente essa ideia que atravesse toda a conversa. Seja através da casa, da cidade, do design ou da moda, Dudu Bertholini acredita que a expressão pessoal é uma das formas mais potentes de liberdade. E que os espaços que construímos ao nosso redor dizem muito sobre quem escolhemos ser.




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