Análise: Teste do acordo de Trump com o Irã depende do fim dos ataques
As lutas de UFC na festa de 80 anos do presidente Donald Trump demonstraram o poder da dominância e vitórias inequívocas.
O evento na Casa Branca, sob um céu tempestuoso, formou um cenário extraordinário para o anúncio de Trump de que ele havia garantido um memorando de entendimento para encerrar a guerra com o Irã.
Mas os paralelos que Trump traçava com seu próprio estilo político enérgico tinham seus limites, já que o impasse no Oriente Médio entre a superpotência americana e seu rival mais fraco não tem a mesma clareza dos golpes decisivos desferidos no octógono no gramado sul da Casa Branca.
O acordo suspenderia os ataques por 60 dias, liberaria o controle iraniano sobre as rotas de transporte de petróleo no Estreito de Ormuz e encerraria o bloqueio naval dos EUA. Ele deve entrar em vigor após uma cerimônia formal de assinatura na Suíça, na sexta-feira (19).
O vice-presidente JD Vance disse à Fox News que o acordo contém uma garantia de que o Irã jamais produzirá, adquirirá ou comprará uma arma nuclear. E afirmou à ABC News, na segunda-feira, que o memorando já havia sido assinado eletronicamente.
A notícia alimenta a esperança de que a crise energética causada pela guerra, que teve consequências econômicas globais devastadoras, possa se dissipar e aliviar a pressão sobre os consumidores.
Qualquer acordo para pôr fim a um conflito, especialmente um que abalou a economia global, matou 13 militares americanos, um número desconhecido de civis iranianos e reacendeu o triste destino do Líbano de estar envolvido em guerras de outros povos, é um desenvolvimento bem-vindo.
Mas a falta de detalhes e os termos conhecidos deixaram Trump diante de três questões imediatas que ditarão o futuro equilíbrio estratégico do Oriente Médio, o lugar da guerra na história, e como tudo isso afeta o legado presidencial de Trump:
- A abertura do estreito e o fim do bloqueio sinalizam apenas um retorno à situação de antes da guerra, já que a questão nuclear crítica ainda não foi decidida?
- Trump está mais perto de garantir um acordo nuclear superior ao acordo internacionalmente apoiado e monitorado negociado pelo governo Obama, com o qual o Irã estava cumprindo até Trump o romper em seu primeiro mandato?
- E, fundamentalmente, além da redução da capacidade militar convencional do Irã, uma guerra que a maioria dos americanos não queria e que desencadeou enormes dificuldades globais alcançou algum resultado que justifique seu custo?
Implicações de longo prazo também se apresentam, caso o memorando seja mantido, incluindo como o Irã usará sua influência demonstrada sobre o estreito no futuro e se buscará monetizar essa influência.
O fracasso dos EUA e de Israel, após o assassinato do então líder supremo do Irã, Ali Khamenei, em destruir o regime iraniano, que se define pela hostilidade aos EUA e deseja erradicar o Estado judeu, também parece prenunciar tensões futuras que poderiam reacender a guerra.
Dentro do Irã, se as condições de guerra melhorarem, a atenção se voltará para saber se o regime remanescente foi criticamente enfraquecido pela guerra e pelo bloqueio dos EUA ou se foi fortalecido por sua sobrevivência e está preparado para uma nova era de repressão.
De forma mais ampla, as consequências da guerra mostrarão se a tentativa de Trump de impor poderio militar foi eficaz ou se levou a mais uma humilhação dos EUA no Oriente Médio, alimentando a percepção, especialmente na China, de que o poder americano está em declínio.
Razões para otimismo em relação ao fim da guerra
Foi significativo que, após semanas de Trump alardeando acordos de paz aparentemente iminentes, o memorando de domingo (14) também tenha sido reconhecido pela República Islâmica.
“Muitos presidentes tentaram fazer a paz com o Irã, e todos fracassaram antes de mim”, declarou Trump nas redes sociais, numa aparente tentativa de criar uma narrativa de triunfo que se adequasse ao clima festivo do seu aniversário.
Vance acrescentou: “O que o presidente realmente nos incumbiu de fazer foi eliminar, sem dúvida, a ameaça nuclear do Irã. E isso já foi feito.”
Essa é uma afirmação ousada. Mas se o otimismo do presidente e do vice-presidente se confirmar nas negociações futuras e em um acordo final, Trump terá o mérito de resolver um impasse com o Irã que atormentou presidentes por quase 50 anos.
Essa validação histórica, no entanto, está distante por enquanto.
A questão mais crítica, aquela que levou à guerra, é o futuro do programa nuclear iraniano e seus estoques de urânio altamente enriquecido. Essa questão fica em aberto no memorando, que provavelmente conduzirá a negociações complexas e tensas.
O Irã já afirmou diversas vezes que não busca armas nucleares, portanto, uma nova garantia de que não o fará não representa muita coisa.
As declarações de Vance na segunda-feira deixam claro que a credibilidade do memorando depende de tais compromissos, pelo menos até o início das negociações.
O Irã parece determinado a usar seu programa nuclear para garantir concessões financeiras significativas dos EUA, que, em última análise, podem acabar fortalecendo o regime revolucionário.
Mas o vice-presidente descreveu esta mensagem dos EUA ao Irã: “Se vocês negociarem de boa fé e assumirem esse compromisso de longo prazo de não desenvolver armas nucleares, então vamos garantir que seu país seja bem-sucedido”, disse ele à CNBC.
Essa não é uma posição que provavelmente agradará a Israel, já que, enquanto o Irã for governado por um regime islâmico radical, Israel se considerará sob ameaça mortal.
Os Estados Unidos pouco mencionaram a possibilidade de restringir o apoio do Irã a grupos terroristas como o Hezbollah ou de limitar seus programas de mísseis e esforços para reabastecer um arsenal esgotado pela guerra.
Ambos são problemas cruciais para Israel e, se não forem resolvidos, podem comprometer o entendimento mútuo.
EUA e Irã já começam a divergir sobre o significado do memorando
Já estão surgindo diferentes interpretações sobre o significado do memorando. Os EUA insistem que qualquer liberação de ativos iranianos ou suspensão de sanções estará estritamente condicionada ao cumprimento das exigências por parte do Irã.
Teerã afirmou que o prazo de 60 dias só começará a contar se Washington iniciar a liberação de bilhões de dólares de seus fundos congelados. Tamanha é a desconfiança entre os EUA e o Irã, e tão elevadas são as tensões entre Israel e Teerã, que será uma grande conquista se o acordo se mantiver até a assinatura de um pacto.
“Isso é essencialmente uma pausa temporária no que tem sido uma guerra declarada entre os Estados Unidos e o Irã. E vamos voltar a estar em um estado de guerra fria com o Irã”, disse Karim Sadjadpour, analista de assuntos globais da CNN.
“Mas isso não resolve o conflito. As questões mais espinhosas foram adiadas para negociações futuras, e não estou muito otimista de que serão resolvidas em um prazo de 60 dias”, disse Sadjadpour, pesquisador sênior da Carnegie Endowment for International Peace, a Omar Jimenez, da CNN.
A desconfiança mútua que atrapalhou as negociações e pode ofuscar futuras conversas ficou evidente no domingo. O Irã adiou um anúncio até que o relógio passasse da meia-noite no horário de Teerã, disse uma autoridade dos EUA.
Essa sequência de acontecimentos permitiu ao Irã evitar que a divulgação ocorresse no aniversário de Trump, mas também permitiu que o presidente pudesse apresentar o momento como um “presente” oportuno.
As esperanças de alívio econômico podem reduzir a pressão política sobre Trump
O memorando aumentará o otimismo do mercado de que um período de intensa perturbação econômica irá diminuir, especialmente se dezenas de petroleiros presos no Golfo Pérsico há meses puderem começar a se mover.
O choque energético causado pela guerra fez com que os preços da gasolina disparassem em todo o mundo e contribuiu para o aumento da inflação, agravando a crise de acessibilidade que afeta milhões de americanos.
Mas analistas alertaram que, embora os preços do petróleo possam começar a cair, serão necessários meses para reparar os danos às rotas de abastecimento e as consequências econômicas.
A promessa do Irã de impor pedágios às embarcações que transitam pelo estreito também é um fator.
“Pode-se dizer que o Irã fechou o Estreito de Ormuz ou que foi o bloqueio dos EUA, mas na verdade foram as seguradoras”, disse Tom Kloza, analista-chefe de energia da Gulf Oil, à CNN.
“Até que tenham muita certeza de que as mercadorias vão transitar e sair daquele estreito, elas podem optar por não segurar alguns desses navios incrivelmente grandes.”
Politicamente, Trump precisa que as coisas aconteçam rapidamente. Se os preços do petróleo caírem, os preços da gasolina também podem cair, aliviando um pouco a pressão da inflação.
O fato de o presidente não ter cumprido sua promessa de campanha de 2024 de reduzir os altos preços dos alimentos e da habitação prejudicou sua popularidade junto a setores cruciais do eleitorado.
Os líderes republicanos, que há muito temiam perder o controle da Câmara nas eleições de meio de mandato de novembro, agora enfrentam também uma batalha potencialmente difícil pelo controle do Senado.
Os republicanos alegaram que as palavras de Trump foram tiradas de contexto na semana passada quando ele disse: “Eu adoro a inflação”, mas o comentário foi politicamente imprudente, independentemente da intenção, e consolidou a impressão de um presidente indiferente às dificuldades financeiras dos americanos.
Mas é discutível se Trump conseguirá um benefício político significativo ao encerrar uma guerra à qual as pesquisas mostram que a maioria dos americanos se opôs e que ele teve dificuldade em explicar.
Isso torna o sucesso das negociações sobre o programa nuclear iraniano e a eficácia do memorando acordado no domingo ainda mais cruciais para sua capacidade de demonstrar que os americanos receberam algo em troca de seu sofrimento.
Mas Teerã demonstrou que entende a pressão política que Trump enfrenta internamente ao longo do conflito — que começou em fevereiro — e tem um longo histórico de conduzir negociações de forma arrastada.
Os democratas tentarão associar a comunicação pública frequentemente errática de Trump sobre o Irã, e o seu descumprimento da promessa de não iniciar novas guerras no exterior, à ansiedade econômica que oprime muitas famílias americanas.
O deputado Adam Smith, principal democrata na Comissão de Serviços Armados da Câmara, disse à CNN que o fim de uma guerra que teve um impacto tão devastador no mundo foi um “ponto extremamente positivo”.
Mas argumentou que a guerra “não trouxe nenhum benefício para os EUA… Voltamos exatamente à situação de 27 de fevereiro, e só que pior, porque estamos brigando pela abertura do Estreito de Ormuz. Isso realmente demonstra a insensatez de termos começado essa guerra.”
O fato de Trump estar comemorando um acordo que, em suas primeiras estipulações, apenas reabriria o Estreito de Ormuz — que já estava aberto antes da guerra — minou as tentativas da Casa Branca de criar uma grande vitória para Trump.
E a subestimação, por parte da administração, da disposição do Irã em fechar o estreito, algo que todos os especialistas e ex-funcionários de política externa em Washington sabiam ser praticamente certo, levanta questões sobre uma cultura de governo na qual os palpites arriscados de Trump raramente são contestados.
A história pode chegar a uma conclusão diferente se as próximas semanas de negociações com o Irã resultarem em um fim verificável de suas ambições nucleares. Mas o acordo de domingo, por si só, ainda não encerra a busca de Trump por uma vitória inequívoca e por uma saída para sua guerra.




COMENTÁRIOS