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Belo Horizonte,12/06/2026

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Por que parece que está cada vez mais difícil ler um livro?

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Por que parece que está cada vez mais difícil ler um livro?

Um dia tem as mesmas 24 horas desde que o mundo é mundo, então por que hoje falta tempo para tudo? É um assunto recorrente falarmos sobre a aceleração presente no nosso cotidiano e a maneira como isso interfere na nossa vida em todos os âmbitos, em como aproveitamos e vivemos nossas experiências e em como também deixamos de fazer atividades com prazer.


Hoje, em média, o brasileiro passa pouco mais que 5 horas por dia no celular – mais de 3 apenas em redes sociais. É claro que o celular entrou na vida de muitas pessoas como ferramenta essencial de trabalho, além de vivermos conectados com a pressão de estar disponível à qualquer momento. Mas exatamente por isso pode ser interessante se distanciar dele nos poucos momentos de lazer que nos restam.


Para recuperar esse tempo que vemos escapar das nossas mãos enquanto scrollamos um feed durante 1 hora sem perceber, a leitura é uma das melhores oportunidades, e a Vida Simples é um convite para esse momento. Nem que seja sentar a beira de uma mesa e ler uma coluna de alguém que você gosta sobre um tema que você não conhece muito, esse movimento pode te ajudar a se manter no presente por alguns instantes.


Ler algumas páginas exige esforço. Assistir a dezenas de vídeos curtos não exige nada. Concentrar-se em um único assunto durante vinte minutos pode gerar inquietação. Passar o mesmo período alternando entre diferentes conteúdos parece natural. Não por acaso, muitas pessoas afirmam sentir saudade de ler mais, mesmo sem conseguir transformar esse desejo em hábito.


Essa dificuldade tem relação direta com a forma como o ambiente digital foi construído.


Segundo Edson Carli, fundador e idealizador da Academia Brasileira de Inteligência Comportamental, compreender esse fenômeno exige olhar para o funcionamento da atenção.


“A resposta passa por algo que podemos chamar de conforto cognitivo. Quando estamos diante de algo novo, que exige nossa atenção, precisamos, de fato, dedicar energia àquilo. Em inglês, usa-se a expressão pay attention, ou seja, ‘pagar atenção’. E é exatamente isso. Estamos pagando com a nossa atenção por uma experiência, uma informação ou um aprendizado.


A palavra pagar ajuda a compreender o que acontece quando nos sentamos para ler um livro. Existe um investimento. É preciso permanecer na mesma atividade, acompanhar ideias, interpretar significados e construir imagens mentais. 


Grande parte das plataformas digitais opera por outra lógica. “O problema é que algoritmos, aplicativos, jogos e redes sociais são desenhados para capturar essa atenção sem que a pessoa precise fazer esforço. Eles são criados para serem agradáveis, rápidos, intuitivos e confortáveis ao olhar. Com isso, nossa capacidade de sustentar a atenção vai definhando, como acontece com os músculos de alguém que deixa de se exercitar.”


Da mesma forma que o corpo perde condicionamento quando deixa de ser estimulado, a capacidade de concentração também enfraquece quando deixa de ser exercitada.


Por isso, muitas pessoas acreditam ter perdido o interesse pela leitura quando, na verdade, estão enfrentando dificuldades para permanecer por mais tempo em uma única experiência.


O valor do que leva tempo


Outro aspecto importante dessa discussão envolve a maneira como adquirimos conhecimento.


Hoje é possível aprender quase qualquer assunto por meio de vídeos, podcasts, resumos, newsletters ou publicações de poucos segundos. A oferta de informação cresceu de maneira extraordinária.


“Todo comportamento tende a persistir quando é recompensado. O que acontece hoje é que, como sociedade, estamos deixando de reconhecer o prêmio da leitura. Cada vez mais, consumimos informação de forma passiva, rápida e pronta para uso.”


Edson utiliza a expressão KR4U, sigla para Knowledge Ready For Use, ou conhecimento pronto para uso, para descrever essa busca crescente por conteúdos imediatamente aplicáveis.


“Muitas pessoas preferem audiobooks, vídeos curtos ou conteúdos resumidos justamente porque eles oferecem acesso imediato à informação. A leitura exige outro tipo de relação com o tempo e com a atenção. Ela pede presença, interpretação e envolvimento. Mas, em um cenário em que buscamos respostas rápidas e descartáveis, poucas pessoas ainda recorrem à leitura como forma de distração, aprofundamento ou construção de conhecimento.”


Isso interfere até no nosso próprio processo de aprendizagem, com respostas rápidas e rasas à dúvidas complexas, é passada a sensação de que com os vídeos de 30 segundos aprendemos muitas coisas em pouco tempo. Quando na verdade, conhecer a superfície de vários assuntos pode ser muito mais fácil que se aprofundar em só um, o que um livro costuma proporcionar.


Um convite para desacelerar


Existe algo valioso em dedicar alguns minutos do dia a uma atividade que não produz notificações, não exige respostas rápidas e não oferece recompensas instantâneas. A leitura nos devolve uma relação diferente com o tempo.


Hoje consumir um único conteúdo parece mais difícil do que consumir 50. Por isso Edson observa que a leitura faz parte de um conjunto maior de práticas que ajudam a recuperar experiências de presença.


“Não acredito que seja apenas a leitura, isoladamente, que produza esse efeito. O ponto principal é a consciência de que precisamos recuperar momentos de tempo de qualidade. A leitura é uma das formas possíveis de usar esse tempo de maneira mais presente. Vale pensar. Quando foi a última vez que você parou para ouvir uma música inteira, sentado, sem fazer outra coisa ao mesmo tempo, apenas focado naquela experiência?


Além de consumirmos conteúdos mais rápidos, consumimos simultaneamente. A leitura resiste a essa dinâmica porque depende de envolvimento contínuo.


“Ler, respirar, orar, comer com calma, caminhar e ouvir uma música com atenção são hábitos simples, mas que temos perdido. Todos eles ajudam a desacelerar porque exigem presença. Em uma rotina marcada pela urgência, a leitura pode funcionar como um convite para sair do modo automático e se reconectar com uma experiência mais profunda e menos imediatista.”


Como criar espaço para a leitura


Começar um novo hábito ou retomá-lo é sempre um processo de construção.


“Como todo hábito, a leitura precisa começar de forma pequena e possível. Ler um livro inteiro pode parecer um grande desafio para quem está sem prática. Então, por que não começar com contos, textos curtos ou capítulos de duas ou três páginas?”


Nesse contexto pode se enquadrar a Vida Simples. Aproveite a revista física e deixe o celular em outro cômodo, e escolha o texto que mais te interessa no momento. Não precisa ler a revista inteira de uma vez, leia o quanto for possível e prazeroso.



Começar pequeno permite que o hábito encontre espaço na rotina real.



“O importante é reduzir a barreira de entrada e tornar produzir mais resultados do que longas sessões esporádicas. Dez minutos diários criam uma relação mais consistente com os livros do que algumas horas concentradas apenas uma vez por mês.


Edson também compartilha sua estratégia pessoal do dia a dia.


“Quando vou a um lugar onde sei que precisarei esperar para ser atendido, em vez de levar apenas o celular, levo algo para ler. Às vezes, me sinto um E.T. por fazer isso, até ser abordado por pessoas que elogiam o fato de eu estar com um livro. Mas é uma forma simples de me manter conectado com meu intelecto e preservar esse espaço de atenção.”


O tempo para ler nem sempre precisa ser encontrado. Em muitos casos, ele já existe. Está espalhado pelos intervalos do dia, escondido entre compromissos, filas, deslocamentos e momentos de espera que acabaram sendo ocupados automaticamente pelas telas.


Cada página lida representa alguns minutos fora da lógica da urgência. Alguns minutos dedicados a acompanhar uma ideia, imaginar uma história ou simplesmente permanecer presente.



Para muita gente, esse pode ser um dos usos mais valiosos do tempo.



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