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Belo Horizonte,03/06/2026

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Dia do Sommelier, entre garrafas, confidências e serviço

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Dia do Sommelier, entre garrafas, confidências e serviço

No Dia do Sommelier, celebrado em 3 de junho, vale brindar uma profissão que há muito deixou de ser associada apenas à adega ou à carta de vinhos. Hoje, os grandes sommeliers são personagens centrais da gastronomia. São eles que conectam produtores e clientes, cozinhas e vinhedos, memórias e descobertas. Funcionam como tradutores de um universo que pode parecer intimidador, mas que, nas mãos certas, se transforma em prazer puro.


Se o chef cria o prato, o sommelier ajuda a construir a lembrança. O sucesso de seu trabalho costuma ser quase invisível. Quando tudo funciona, ninguém percebe. A conversa flui, a refeição ganha ritmo, a garrafa desaparece naturalmente da mesa e a noite parece simplesmente ter dado certo. Mas há alguém nos bastidores conduzindo essa engrenagem.


São Paulo, uma das maiores capitais gastronômicas do planeta, abriga uma geração de profissionais que ajudou a mudar a forma como os brasileiros se relacionam com o vinho. Aos poucos, aquela figura excessivamente formal deu lugar a personagens mais próximos, curiosos e interessados em compartilhar conhecimento sem transformar a experiência em uma aula.


No Ristorantino, Ju Carani tornou-se uma das referências mais respeitadas da cidade. Sua trajetória acompanha uma mudança importante do mercado brasileiro. Durante muito tempo, o vinho foi tratado como território exclusivo dos iniciados, cercado por códigos capazes de afastar consumidores. Ju ajudou a desmontar essa barreira. Seu trabalho mostra que conhecimento e acolhimento podem ocupar a mesma mesa. Em vez de transformar a escolha do vinho em um teste de conhecimentos, ela a transforma em conversa.


Humberto Lisboa / Foto: instagram

No Le Lui Bar & Cozinha, Humberto Lisboa Leite representa uma geração que entende que hospitalidade vale tanto quanto técnica. Em um momento em que as cartas se tornaram mais amplas e democráticas, o papel do sommelier deixou de ser apenas o de indicar rótulos raros ou caros. A verdadeira habilidade passou a ser interpretar desejos. Nem sempre a melhor garrafa é a mais famosa. Muitas vezes é aquela que faz mais sentido para a ocasião.


No balcão do Satori Omakase, Pedro Valente atua em um dos territórios mais desafiadores da gastronomia contemporânea. A cozinha japonesa de alto nível exige precisão absoluta nas harmonizações. Cada peixe, cada textura e cada temperatura criam possibilidades distintas. Seu trabalho se aproxima da curadoria artística, conduzindo uma experiência em que vinho, saquê e gastronomia dialogam em equilíbrio.


Na Piccini Cucina, Luciano mantém viva uma tradição profundamente italiana. A do sommelier que não apresenta apenas vinhos, mas histórias. Porque toda grande garrafa carrega consigo muito mais do que líquido. Carrega famílias, imigrações, colheitas difíceis, safras históricas e gerações inteiras dedicadas ao mesmo pedaço de terra. Um bom sommelier não serve apenas um Barolo ou um Brunello. Ele apresenta os personagens que vivem dentro da garrafa.


Uma das barracas mais disputadas é a da Júlia Rezende, sommelière e diretora de vinhos do hotel. Foto: Horst Kissmann

No Rosewood São Paulo, Júlia Rezende representa a face contemporânea da profissão. Em um dos endereços mais vibrantes da cidade, seu trabalho ultrapassa os limites da adega e acompanha uma transformação importante do mercado mundial. O vinho deixou de ser apenas um símbolo de prestígio para se tornar ferramenta de conexão, descoberta e prazer. Com repertório amplo e olhar atento às tendências globais, Júlia ajuda a construir experiências que dialogam com públicos diversos, refletindo uma nova geração de profissionais que enxerga o vinho como parte de uma conversa maior sobre gastronomia, cultura e hospitalidade.


A profissão atravessa um momento especialmente interessante. O Brasil nunca teve tantos consumidores curiosos por vinho. O acesso à informação ampliou horizontes, surgiram novas regiões produtoras, novas importadoras, novos estilos e uma geração menos preocupada com regras e mais interessada em descobrir.


Isso transformou também o trabalho dos sommeliers. Hoje, eles precisam dominar muito mais do que castas, safras e regiões. Precisam compreender pessoas.


E talvez seja justamente aí que mora a parte mais divertida da profissão.


São eles que ouvem pedidos por vinhos produzidos “na Toscana francesa”. Que precisam explicar delicadamente que Chardonnay é uma uva e não uma vinícola. Que recebem perguntas sobre qual é “o vinho mais gostoso do mundo”. Que tentam identificar uma garrafa descrita apenas como “aquele vinho maravilhoso que tomei numa viagem há alguns anos”.


Também são eles que testemunham pedidos de casamento, acordos de negócios, aniversários marcantes, reencontros familiares e primeiros encontros destinados ao fracasso antes mesmo da chegada da entrada.


Poucas profissões acompanham tão de perto os momentos importantes da vida das pessoas.


Talvez por isso os grandes sommeliers sejam muito mais do que especialistas em vinho. São observadores da natureza humana. Sabem reconhecer quando uma mesa procura celebração, descoberta, conforto ou simplesmente uma boa companhia líquida para acompanhar a conversa.


No fim das contas, o vinho sempre foi uma desculpa elegante para reunir pessoas ao redor da mesa.


E os sommeliers são os mestres de cerimônia dessa celebração diária.


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