As emoções precisam fluir
Somos, antes de tudo, seres relacionais, mamíferos de sangue quente que só se reconhecem na presença do outro. Num período de 24 horas, muitas emoções podem tomar conta do nosso corpo. É possível que ele trema de raiva e indignação por um instante ou bambeie as pernas após um elogio ou um toque sutil. Assim como as curvas de um rio que deságua na imensidão do mar, nossas emoções também seguem seu curso livre, imprevisível e, por vezes, ficam à deriva. Podemos até tentar adivinhar, mas não sabemos o que nos espera no instante seguinte.
No entanto, há palavras que ganham popularidade e, muitas vezes, se banalizam e perdem a densidade. Por exemplo: “equilíbrio emocional”. Como malabaristas, seguimos uma cartilha: tentamos sustentar nossas emoções diante dos desafios e das belezas da vida, como se nada pudesse cair. Mas, e se cair? Qual é, afinal, o problema da queda? Idealiza-se uma existência sem oscilações, como se fosse possível sintonizar perfeitamente uma rádio interna, sem ruídos, sem desvios. Mas são justamente as nuances que tornam a vida menos tediosa – e muito mais humana.
Em vez de tanto equilíbrio, que tal sermos um pouco mais coerentes com nossos sentimentos e relações, sem uma camada de moralismo? Lembra da infância, quando andávamos no meio-fio se equilibrando para não cair de jeito nenhum? Na vida adulta, a travessia emocional é outra. E muito mais complexa.
Nos trilhos da vida, existem entraves nos relacionamentos, felicidades nos encontros e mágoas nas despedidas. Às vezes, tudo em apenas um dia. No caminho de volta para casa, uma brisa nos puxa para a direita. O tal equilíbrio retoma o controle, mas, em questão de segundos, um passo sai da linha reta e as pernas apontam para a esquerda. A reação é natural: voltamos ao eixo com o olhar focado no horizonte.
Porém, negar esse desequilíbrio natural é evitar o que a alma clama e que o cérebro precisa elaborar, mesmo que doa. Enfrentar os tropeços, chorar e, adiante, se levantar pode ser mais saudável do que chegar em casa, enxugar as lágrimas às pressas e vestir, no dia seguinte, a máscara de um equilíbrio forçado.
Como escreveu Clarice Lispector na crônica Quando chorar: “Nem sempre é necessário tornar-se forte. Temos que respeitar a nossa fraqueza. Então, são lágrimas suaves, de uma tristeza legítima à qual temos direito. Elas correm devagar e, quando passam pelos lábios, sente-se aquele gosto salgado, límpido, produto de nossa dor mais profunda.”
Nossas águas internas
O psicólogo Alexandre Coimbra Amaral, autor do recém-lançado Cuidar da solidão até virar encontro (Vestígio), entre outros títulos, reforça que as emoções são como um rio: “Precisam fluir e correr. Quando as reprimimos, elas se transformam em sintomas. Quando podemos falar, reconhecer e assumi-las, abrimos espaço para a experiência real”, sintetiza.
“Por isso, em vez de nos sentirmos culpados – e, justamente por isso, nos calarmos –, é preciso compreender que a régua moralista silencia e envergonha. E onde há ausência de palavra, há sintoma”, complementa.
Uma das pioneiras da Gestalt-terapia no Brasil, a psicóloga clínica Lilian Frazão é enfática: “Equilíbrio emocional é desumanizar o ser humano.” Ela utiliza uma definição física de equilíbrio para mostrar como ele é inadequado para a vida humana: um estado em que as forças se anulam e resultam em repouso ou velocidade constante. Buscar isso no campo emocional seria como desejar “não existir”. Em vez de uma busca idealizada por equilíbrio, ela propõe o “autossuporte”, que é se apossar dos próprios recursos, dificuldades e incapacidades para administrar qualquer situação de forma realista.
“Por isso, saber o que você não sabe, o que você não gosta e o que você não quer é fundamental. E um dos elementos que ajudam a fechar esse processo é justamente as emoções. No fim, é essa consciência – racional e emocional – que sustenta nossas escolhas. Sofrimentos não são para serem ultrapassados, são para serem atravessados, porque eles nos ensinam muito, isto é, se soubermos dar-nos conta deles”, define.
“Quando reprimimos as emoções, elas se transformam em sintomas. Quando podemos falar, reconhecer e assumi-las, abrimos espaço para a experiência real”
Validar o que pulsa
Médico estudioso do fenômeno humano com ampliação pela antroposofia, Derblai Rogério Sebben busca compreender a saúde não apenas como ausência de doença, mas como expressão de um processo interior de desenvolvimento. Seu trabalho integra a antroposofia ao estudo da neurociência e das ciências cognitivas, procurando articular experiência subjetiva e fundamentação científica na compreensão do adoecer e do cuidar.
Na visão da antroposofia, o pensar se relaciona ao campo mental e espiritual, responsável por analisar dados e buscar objetividade. Já o sentir é aquilo que confere valor e sentido à vida; sem ele, o ser humano se torna quase automático, como um “robô”. A conexão entre essas dimensões acontece quando há coerência emocional: é o momento em que o “eu”, enquanto individualidade cognitiva, assume e se relaciona de forma viva com as próprias emoções, reconhecendo-as em vez de apenas reagir de maneira instintiva.
Assim como Amaral e Lilian, Sebben reforça que tentar reprimir emoções em nome de um suposto equilíbrio é prejudicial. “Na perspectiva antroposófica, quando a ‘alma reprimida’ não encontra espaço para se expressar no encontro com o outro, ela acaba se manifestando no corpo por meio de sintomas psicossomáticos, como hipertensão, gastrite e outras dores”, diz. “Nesse sentido, a repressão emocional é compreendida como uma tentativa da mente de dominar o coração, que, por sua natureza, precisa pulsar, circular e fluir”, complementa o especialista.
O psicoterapeuta Thiago Guimarães explica que uma resposta emocional coerente “é aquela compatível com a intensidade da experiência vivida”. “Diante de uma perda, a tristeza é coerência emocional. Diante de uma injustiça, a indignação pode ser coerência emocional. Diante de mudanças importantes, a insegurança pode ser coerência emocional”, ressalta.
No entanto, coerência emocional não significa reagir sem limites. Significa reconhecer que existe uma lógica interna entre o que acontece fora e o que acontece dentro. “Quando a emoção é reconhecida como parte natural da experiência, ela deixa de ser tratada como erro”, opina.
Solidão e encontro
Há ainda uma camada fundamental nessa conversa. Amaral critica como o neoliberalismo transforma o sofrimento psíquico em um problema individual, ignorando as pressões estruturais e transformando o bem-estar em um produto de mercado. Ele defende o conceito de coerência emocional em oposição à performance de estar sempre bem, sugerindo que a autenticidade fortalece os vínculos humanos.
“Essa ideia do equilíbrio emocional é uma ideia que constrói solidão. O que constrói en encontro é a abertura coerente dos sentimentos entre as pessoas”, enfatiza. “Quando você é coerente com o que sente, o outro se abre colaborativamente e se constrói um espaço na relação de muita intimidade. A racionalização pode ser uma excelente estratégia de defesa para não sentir. O ideal é que o pensamento não seja um bloqueio à emoção, mas um aliado que ande junto.”
No entanto, há dimensões sociais e históricas que atravessam essa densa discussão sobre as emoções, como expectativas culturais, normas de comportamento e ideais de
desempenho que moldam, silenciam e, muitas vezes, distorcem a forma como sentimos e expressamos o que nos toca.
“O problema é que, no nosso tempo, essa máscara social está colando na pele, porque a gente está sendo obrigado a performar o equilíbrio o tempo inteiro. O que regenera o corpo e a alma é você poder viver um pedaço da sua vida sem meta, sem métrica, sem ter que mostrar resultado, simplesmente podendo fruir o tempo”, defende.
Lilian concorda: “Eu chamo isso de ‘universo do parecer’, onde nós não podemos ser nós mesmos. Ser e parecer são coisas muito diferentes. Afinal, poder ficar em silêncio com alguém é poder ser sem ter que fazer nada.”
“Uma resposta emocional coerente é aquela compatível com a intensidade da experiência vivida. Diante de uma perda, a tristeza é coerência emocional”
Para Sebben, a atividade artística – pintura, escrita, dança – é a ferramenta que permite expressar e reconhecer o sentimento de forma autêntica, equilibrando a mente lógica. Ele critica a desvalorização do conhecimento artístico na sociedade atual, afirmando que esse tipo de sensibilidade é fundamental para reconhecer o valor dos laços que temos.
“O alimento do sentir está na arte e no encontro humano: na troca que nos torna sensíveis e nos ajuda a reconhecer os próprios sentimentos e a expressá-los. Porque quem respira melhor, quem dança, quem pratica arte, o coração e a respiração fluem melhor”, afirma Sebben, que completa: “A arte nos torna coerentes. Ela é tão necessária quanto a ciência.” Afinal, acorda a sensibilidade para libertar o que pede vazão.
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