Trinta anos e um vazio cheio de vida
Já tive muito medo na vida. Já me encolhi tanto que fiquei invisível diante do mundo. Não falo do planeta Terra. Falo do meu mundo, do sol que queima dentro de mim e reluz naqueles que compartilham a existência comigo. Já tive muito medo na vida. Mas também aprendi, aos poucos, que sentir medo é natural. Talvez tenha me escondido tanto para que nem o medo pudesse me encontrar. Se fala muito na crise dos 30 anos, que completei recentemente. Três décadas de vida é muita coisa. Coisa. Tá aí uma palavra que cai bem. Porque “coisa” representa o que não há nomeação naquele instante, aquilo que até tem nome, mas num breve espaço de tempo, num sopro de vida, talvez num sopro de 30 anos, a explicação escapa. É muita coisa. É muita vida.
No entanto, sigo firme e atento aos detalhes. Ora, já tive muito medo da vida para chegar até aqui. Já fugi demais, talvez por medo. Completar 30 anos não é apenas esperar o ponteiro do relógio passar lentamente de 23h59 para 0h. Ao meu ver, é tudo que aconteceu no últimos anos. Um ciclo específico. E, para mim, esse processo foi como um renascimento. Não percebo mais o medo machucar. Aquela tensão latente. Aquela angústia que aperta o peito e não aponta qualquer direção. Há mais calma. Mais calma no meu andar, no meu falar, no meu imaginar o mundo, na minha forma de se relacionar com a vida e as pessoas. Na minha existência.
Palavras
Já tive muitas palavras na vida. E cada palavra dessa que sai da minha cabeça e forma esse texto possui um sentido. Ou vários. Carrega um significado e uma vida inteira. E talvez seja por isso eu ame escrever. Enquanto eu escrevo, também me descrevo. Hoje, a palavra “medo” da primeira frase deste texto mudou seu lugar no meu mundo. Mudou seu significado. Ah… Essa palavra medo. Medo. Medo. Medo. Medo. Medo. Tenho pra mim que repetir uma palavra por muitas vezes faz ela perder o sentido. Como se as letras se dissolvessem no ar. Eu repeti tanto medo na minha vida que ele se esvaziou. Esvaziou… Vazio. Cheguei na palavra que talvez eu tenha procurado enquanto devaneava e elaborava escrevendo esse texto.
Escrevo esta coluna a convite do meu grande amigo e editor-chefe da Vida Simples, Wilson Dell’Isola, que conheço há quase dez anos. Talvez ele tenha percebido o quanto fazer 30 anos tenha me afetado de diversas formas e, diante disso, propôs que eu escrevesse aqui. Que compartilhasse as dores as e as belezas de ser o que sou com vocês. As dores e as belezas de chegar aos 30 anos. As dores e as belezas de envelhecer. Recentemente, também completei um ano como repórter da Vida Simples. Essa passagem dos 29 para os 30 está totalmente entrelaçada ao fato de escrever sobre saúde mental e bem-estar emocional quase que diariamente. Nada é por acaso. Mistérios sempre pintam por aí.
Escrita
Ano passado entrevistei a psicanalista Vera Iaconelli. Ela disse algo que me marcou: “A escrita e a oralidade são transcrições distintas, formas diferentes. Há coisas que elaborei na escrita e que não tinha elaborado deitada no divã durante décadas. Eu falava, repetia sempre as mesmas coisas e, depois, ao escutar, parecia tudo certo. Mas, quando fui escrever, percebi que o papel tem outra concatenação lógica . ”
Cito este trecho porque dialoga muito com o que sinto neste momento. Não tenho décadas de divã como Vera, mas faço análise há um bom tempo. Palavras sempre escapam pela brecha do inconsciente enquanto falamos. Ah… O ato falho. Outras palavras, não. Essas teimam em só tomar forma por meio da tinta da caneta no papel ou, então, pelo barulho das teclas de um notebook.
Então continuemos escrevendo… Depois de tanto falar de medo, cheguei ao vazio. Penso, agora, que todo o medo que me angustiava era o de enfrentar o meu próprio vazio. Buscava inconscientemente uma completude para preenchê-lo a qualquer custo. Mas não funcionou. Nunca vai funcionar. Eu precisava encará-lo. Nomear minhas emoções, desejos e compreender que esse vazio particular sempre existirá. Consigo conviver sem algo. Consigo lidar com a falta. A falta que impulsiona.
Também já errei muito. Mas quem não erra? Somos imperfeitamente humanos. Por exemplo, Diego Maradona é considerado um “Deus” na Argentina, mas nunca escondeu sua vida conturbada e cheia de contradições. O escritor uruguaio Eduardo Galeano classificou o jogador como “o mais humano nos deuses”. Esse Diego que vos escreve, cujo sobrenome não é Armando Maradona, mas sim Borges Brito, também já errou muito. No entanto, sempre refletiu para aprender. Somos um eterno aprendiz. Seja aos 20, aos 30, aos 50 ou aos 60 anos. Cada dia é um dia novo.
Entre erros e acertos, revisitei minha história diversas vezes por meio da escrita e na análise. Como versou a escritora espanhola Rosa Montero, “para viver, temos de nos narrar. Nossa memória é, na verdade, um invento, uma história que reescrevemos a cada dia (…) Sem essa imaginação que completa e reconstrói nosso passado e que outorga ao caos da vida uma aparência de sentido, a existência seria enlouquecedora e insuportável, puro ruído e fúria”.
Mergulhei até o fundo do oceano. É doloroso. Há sofrimento. No entanto, a sensação de conseguir respirar mesmo submerso é libertadora. Esse movimento me tirou de um certo piloto automático, de uma vida em que o tempo passava sempre em fogo baixo, aquele que não queima, mas que também não dá pulsão. Aquele fogo que um leve sopro faz apagar. Já tive muito medo. Mas agora estou de coração aberto para a vida. Para os encontros. Para as mudanças. Para os erros e acertos. Para construir uma vida coletiva com quem amo. Não tenho medo de envelhecer. Talvez a melhor parte esteja neste novo ciclo que se inicia. Quem sabe? Há muita vida pela frente.
Esse é só o começo. Seguimos! Sempre escrevendo. Abaixo, duas citações que marcaram minha relação com o processo de escrita e gostaria de compartilhar com vocês:
“Isto não é um lamento, é um grito de ave de rapina. Irisada e intranquila. O beijo no rosto morto. Eu escrevo como se fosse para salvar a vida de alguém. Provavelmente a minha própria vida. Viver é uma espécie de loucura que a morte faz. Vivam os mortos porque neles vivemos”, por Clarice Lispector.
“Gosto de escrever; na maioria das vezes dói, mas depois de o texto escrito é possível apaziguar um pouco a dor. Eu digo um pouco… Escrever pode ser uma espécie de vingança, às vezes fico pensando sobre isso. Não sei se vingança, talvez desafio, um modo de ferir o silêncio imposto, ou, ainda, executar um gesto de teimosa esperança. Gosto de dizer ainda que a escrita é para mim o movimento de dança-canto que o meu corpo não executa, é a senha pela qual eu acesso o mundo”, por Conceição Evaristo.
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