Casa de família: a morada de Wes Gordon, diretor criativo da Carolina Herrera, em Nova York

“Nenhum cômodo é proibido”, diz Paul Arnhold, recostado num sofá revestido de tafetá de seda xadrez caramelo, ao falar sobre o apartamento no Upper East Side, em Nova York, que divide com o marido, o designer de moda Wes Gordon, e os dois filhos. “As crianças sabem que há coisas bonitas aqui, mas também sabem que foi tudo feito por pessoas com muito amor. E tratamos com amor as coisas que foram feitas com amor.”
Sentados lado a lado na sala de estar, Wes, diretor criativo da Carolina Herrera, e Paul, fundador de uma aclamada empresa de cristais, compartilham a história de como encontraram e decoraram a casa em meio à alegre algazarra de um lar com crianças pequenas. Em outro canto do apartamento, o filho deles, Henry, de 4 anos, tem aula de xadrez enquanto a filha, Georgia, de 2, brinca com o pai de Paul, John. O adorado cachorro da família, Bird, de 13 anos, reina absoluto sob uma tela de Aaron Garber-Maikovska na galeria.
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Henry e Georgia brincam na biblioteca
Miguel Flores-Vianna
Considerando a quantidade de arte e decoração de nível de museu que preenche a residência, projetada pelo casal em parceria com o designer de interiores Stephen Sills, declarações sobre utilidade cotidiana e reverências humildes podem soar vazias. No entanto, depois de algum tempo na companhia de Wes e Paul, fica claro que o principal objetivo era criar um verdadeiro lar de família. Após mais de uma década morando em diferentes bairros, eles procuraram uma nova moradia na área nobre da cidade, onde Paul cresceu. Na busca, exaustiva, se apaixonaram por este apartamento em um edifício clássico da década de 1920. Para celebrar a compra do imóvel, adquiriram um par de biombos holandeses do séc. 17 que deram o tom do décor, onde há equilíbrio entre charme, intimidade e suntuosidade.
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Na biblioteca, sofá de Stephen Sills, revestido de veludo da Brunschwig & Fils, refletido em um dos dois espelhos venezianos do séc. 19
Miguel Flores-Vianna
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“Acho que uma palavra importante é respeito”, observa Wes sobre o processo de renovação e decoração da residência. “Chegamos a esta casa apaixonados por ela e tentamos ser muito respeitosos em cada decisão.” Felizmente, o imóvel exigiu relativamente pouca intervenção estrutural. Para instalar janelas maiores, ar-condicionado central, um banheiro na suíte principal, iluminação e marcenaria, Paul e Wes contrataram a arquiteta Charlotte Worthy, que já havia ajudado a restaurar seu refúgio do final do séc. 18 em Roxbury, Connecticut. “Eu já sabia o quão bem eles trabalham em equipe, apesar de terem duas estéticas distintas”, pondera Charlotte, referindo-se ao gosto de Paul por um design mais contemporâneo, em contraste com o estilo tradicional preferido por Wes. “O respeito e a admiração mútuos pelo gosto um do outro são claramente o segredo do sucesso deles.”
A moda é meu trabalho e eu a amo, mas, de muitas formas, o design de interiores é um tipo de escapismo para mim
Pais e filhos brincam no quarto de Henry ao redor de mesa e cadeiras da Crate & Barrel, entre as paredes revestidas de papel de parede Cubism, da Helene Blanche Fabrics & Wallpapers, com fotos de Bird, o cão da família, feitas por William Wegman – a luminária de teto é de Poul Henningsen
Miguel Flores-Vianna
De fato, o casal admite que se envolveu a fundo no projeto. “A moda é meu trabalho e eu a amo – é minha paixão –, mas, de muitas formas, o design de interiores é uma espécie de escapismo para mim”, confessa Wes. “É uma maneira divertida de ser criativo sem as responsabilidades.” Stephen, por sua vez, contou com clientes participativos para entregar seu melhor trabalho. “Eles observam, eu observo, e simplesmente acontece. Gosto muito de editar e não tenho problema em dizer: ‘Não, isso não vai funcionar – não, não, não’”, explica o designer.
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Na sala de jantar, peças da coleção de porcelana Meissen, do séc. 18, herdada da família de Paul, mesa de Stephen Sills e lustre italiano vintage
Miguel Flores-Vianna
A personalidade viva e pulsante da família é evidente em todo o apartamento, onde quase tudo tem história e os hóspedes logo ficam à vontade. “Wes e Paul sabem como fazer você se sentir em casa. No momento em que você entra, não é necessariamente algo que eles fazem ou dizem, é simplesmente a vibe que transmitem imediatamente”, explica a princesa MariaOlympia, da Grécia e Dinamarca, grande amiga e hóspede frequente do casal. “Com os filhos brincando por perto e o aconchego e a elegância da decoração, há uma energia acolhedora e genuína no espaço.” Lauren Santo Domingo, cofundadora da Moda Operandi e outra amiga de longa data, compartilha a mesma opinião. Eles “personificam a elegância discreta”, descreve. “Suas casas são uma extensão dessa graça: lindamente decoradas, aconchegantes e refinadas, e sempre um reflexo de bom gosto.”
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Este ângulo da biblioteca exibe quatro poltronas de Stephen Sills, revestidas de tecido Pemberley, da Watts 1874, mesa de centro de T.H. Robsjohn-Gibbings, e espelho veneziano pendurado acima de armário de Jean-Michel Frank – o tapete é da Codimat Collection
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A capacidade de receber convidados tanto em ocasiões íntimas quanto em grandes eventos foi uma consideração fundamental. “Podemos ficar confortavelmente sentados nesta sala, ou poderíamos ter 100 pessoas aqui”, conta Paul, olhando ao redor da sala de estar arejada, que Stephen sabia que “tinha de ser épica, tinha de ter grandes ideias”. A biblioteca adjacente, nas palavras de Paul, “é um pouco mais acolhedora, mais sensual e tem uma atmosfera noturna”. Ali, no cômodo favorito do casal, Stephen insistiu que mantivessem as paredes marchetadas originais, misturando esmaltes sobre elas até alcançar um tom fascinante de marrom – a combinação perfeita para a lareira de pinho inglês do séc. 18 recém-instalada. Paul e Wes, ambos altos, temiam não conseguir passar por baixo de um lustre que estava planejado para o espaço. Stephen, então, com a ajuda habilidosa de Charlotte, inventou uma cúpula de 25 cm no teto. Acima da lareira está pendurada uma obra do artista favorito de Paul, Salman Toor, que ele descobriu no Whitney Museum, do qual é membro do conselho. Mas ele e Wes estão mais entusiasmados em mostrar um autorretrato feito pelo filho, exibido ali perto.
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A sala de café da manhã tem mesa e cadeiras Méribel, de Charlotte Perriand, com almofadas revestidas de tecido Alma Check, da Chelsea Textiles, tudo coroado pela luminária da Wiener Werkstätte – as paredes receberam tecido Banon, de Robert Kime
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A planta baixa do imóvel funciona mais como um círculo do que como uma linha reta, e outro ponto de encontro natural é a sala de jantar, revestida de tecido cinza da Watts 1874, acentuada por peças de porcelana Meissen do séc. 18 herdadas do falecido avô de Paul. Um dos elementos mais marcantes aqui é a integração de muitas relíquias da antiga casa da família de Paul em Dresden, Alemanha – incluindo uma mesa de jogos na sala de estar, uma cômoda na suíte principal e uma escrivaninha no escritório de Paul. “Queríamos que fossem vistas”, diz ele. “Elas não ficam dentro de redomas de vidro.”
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Na suíte principal, cama com dossel de tecido da Claremont, poltronas e tapete, tudo desenhado por Stephen Sills, e cômoda vinda da casa da família de Paul em Dresden, na qual repousa coleção de urnas e objetos Blue John, dos sécs. 18 e 19
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Vista do closet do casal
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A admiração compartilhada por Paul e Wes pelo bom gosto é, sem dúvida, mais evidente nos cantos mais privados da residência. É na suíte principal, com suas paredes caiadas e serenas, sua cama com dossel e sua combinação de cores quentes e frias, que a assinatura de Stephen talvez seja mais perceptível. Ao lado, os respectivos quartos de Henry e Georgia são tão calmos, luminosos e espaçosos quanto o dos pais.
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No hall do elevador, tela de Willi Baumeister, mesa italiana vintage e espelho George II, de William Kent e John Boson (da esq. para a dir.)
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No living, sofá de Stephen Sills, revestido de cetim de lã da Brunschwig & Fils, e daybed com tecido de crina de cavalo – ao fundo, um par de biombos holandeses do séc. 17 ladeia um espelho rococó com moldura que fez parte da The Royal Collection, do Palácio de Buckingham
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Na maioria das noites, às 18h, a família se reúne na sala de café da manhã – que também serve de estar –, adjacente à cozinha, onde uma estampa floral vermelha de Robert Kime colore as paredes e cortinas, trazendo um toque do campo inglês para o Upper East Side. Ali, em cadeiras Méribel, de Charlotte Perriand, as crianças jantam enquanto todos compartilham as coisas boas, ruins e mais ou menos do dia. “Dá para ouvir o caos – então, mais do que qualquer outra coisa, é a nossa casa”, diz Wes, sorrindo. “E era isso que queríamos criar.”
Tradução: Adriana Mori
*Matéria originalmente publicada na edição de maio/2026 da Casa Vogue (CV 483), disponível em versão impressa, na nossa loja virtual e para assinantes no app Globo Mais.
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