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Belo Horizonte,30/05/2026

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Ler o outro para encontrar o que existe em você

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Ler o outro para encontrar o que existe em você

A partir do instante em que você abre um livro, uma espécie particular de encontro se inicia. Letra por letra, palavra por palavra, capítulo após capítulo, algo começa a se mover por dentro e por fora. Independentemente do gênero, o que habita aquelas páginas sempre encontra uma forma de tocar. A literatura amplia o mundo ao seu redor, mas, também, aprofunda o que existe dentro de você.


Esse fenômeno ganha contornos ainda mais nítidos quando o leitor se reconhece em um personagem, uma situação, um diálogo. Catharina Mattavelli, leitora assídua, psicóloga por formação e criadora de conteúdo sobre literatura nas redes sociais, explica o que acontece nesse momento: 


“Sinto que se reconhecer em um personagem muda a forma como nosso cérebro processa determinada história. Uma conexão emocional com os personagens, de forma que a gente esquece por um tempo que tudo aquilo é uma mentira, porque no fim a ficção é uma grande mentira, mas a gente leva aquilo como uma história tão real quanto a nossa.”


De acordo com Catharina, essa imersão “estimula o encontro de sentimentos ou descobertas inéditas sobre nós mesmos”. Ela também faz uma observação delicada: “As pessoas falam muito do quanto a literatura provoca empatia, mas gosto mais ainda do quanto estimula esse encontro consigo também.”


No entanto, nem toda leitura nos abraça. Algumas nos provocam. Outras nos repulsam. Para Catharina, esses afetos incômodos também dizem muito sobre quem somos – e sobre a sociedade em que vivemos.


“É muito fácil se atrair por uma literatura floreada e utópica, com frases de efeito e cenas do que gostaríamos de encontrar no mundo. Mas é poderoso demais a literatura que não é feita para agradar, escrita por alguém sem medo de gerar incômodo ou rejeição”, diz.



“Entrar em contato com certos aspectos do mundo e da gente mesmo é um tanto asqueroso de vez em quando. O lado sujo, grotesco, violento, visceral, melancólico e raivoso é muito do que somos e encontramos diariamente ao nosso redor. A literatura não precisa ter esse papel – nenhuma arte precisa nada –, mas é realmente muito poderoso quando consegue extrair todos esses elementos supostamente escondidos que a gente finge não enxergar.”



(Foto: Acervo pessoal) Catharina e sua companhia preferida: um livro


O livro que chega na hora certa


Catharina acredita que certas obras nos encontram quando estamos psiquicamente prontos para elas – e que reler é uma boa estratégia de autopercepção.


“Inclusive, tento ao máximo reler livros, principalmente aqueles que penso ter lido cedo demais para captar determinados elementos. ‘Dom Casmurro’, ‘A redoma de vidro’, ‘O estrangeiro’ e ‘A metamorfose’ foram só alguns dos que decidi reler nos últimos anos e que parecia a primeira vez”, destaca.


“A Catharina de hoje é muito diferente e possui uma bagagem muito maior do que a Catharina de oito anos atrás. Essa bagagem de hoje me permite acessar as entrelinhas que antes me passaram despercebidas, gerando um efeito mais profundo na minha experiência como leitora.”


Essa ideia ressoa com a experiência de Valdi Ercolani, escritor de 87 anos que publicou seu primeiro livro aos 60, após uma vida dedicada à publicidade e ao cinema. Para ele, a prontidão interna é tudo. “Certos livros nos encontram não por imposição externa ou acaso, mas no momento certo da maturidade interna do indivíduo – quando ele já desenvolveu receptividade, humildade e abertura mental para absorvê-los.” Ercolani viveu isso intensamente como leitor:



“A frase ‘quando o aluno está pronto, o mestre aparece’ adquire pleno sentido.”



Leitura que distrai e leitura que mobiliza


No cotidiano acelerado, nem todo livro precisa ser uma experiência transformadora. Mas Catharina nos oferece um norte sobre dois tipos de leitura: a que distrai e a que mobiliza.


“Uma leitura que apenas distrai pode funcionar como fluxo contínuo, mas não permanece. É aquele livro ótimo e muito necessário em dias que a gente não quer pensar em grandes coisas. É uma leitura que avança com facilidade, sem resistência, e no final há uma sensação de passagem. Gera gratificação imediata. É ótima, não exige elaboração, mas está mais próxima da lógica do entretenimento puro”, explica.


“Já a leitura que mobiliza faz a gente parar em uma frase, uma imagem, um gesto. A gente se atenta ao que está escrito, à linguagem escolhida. Ela não se deixa consumir rapidamente. Continua reverberando depois que fechamos o livro, provoca inquietações e incômodos. O tempo da leitura desacelera e, de certa forma, cria condições para que algo em você se torne visível.”


Dois movimentos da mesma jornada


Ercolani, que além de leitor é autor de cinco livros voltados ao desenvolvimento humano, reflete sobre a relação entre ler e escrever, o que ele classifica como “dois movimentos da mesma jornada interior”. 



“Na leitura, eu me encontro por espelhamento – reconheço nas palavras dos autores sentimentos latentes em mim, que anseiam por ganhar forma e experiência própria. Na escrita, dou forma àquilo que vivi e aprendi, para que sirva de bússola ao buscador da verdade que inicia sua jornada.”



Ele também distingue o que cada ato revela sobre si mesmo. “A leitura reflete minhas curiosidades. Ela indica o que me atrai ou preenche, e atua como um espelho, mostrando desejos internos e aspirações por meio das escolhas de livros. Por outro lado, a escrita é um ato de criação, revelando o conhecimento absorvido. Ela mostra quem eu sou – minha verdade, a forma como percebo o mundo.”


Quando um leitor se reconhece em seus textos, o autor enxerga algo maior:



“Todo escritor foi, de algum modo, um leitor contaminado por outros escritores. Quando alguém se reconhece em um texto, vejo nisso um eco de algo maior – uma corrente invisível que atravessa experiências humanas semelhantes. Como leitor, já vivi a sensação de que ‘alguém me compreendeu antes mesmo de eu me compreender’.”


(Foto: Divulgação) O escritor Valdi Ercolani


O que se perde no consumo acelerado


Catharina, que trabalha com literatura nas redes, admite que esse tema causa até uma certa tristeza. “Ouço elogios infinitos sobre ‘ler rápido’ ou ‘conseguir ler tantos livros em pouco tempo’, quando o efeito é justamente esse reflexo do consumo rápido nas redes sociais, que naturalmente ricocheteia em tudo que a gente faz fora delas.”


Ela acrescenta que ler profundamente exige uma espécie de “duração interna”, um “estado em que o sujeito não apenas passa pelo texto, mas é atravessado por ele, de forma que aquela história ou aquela escolha narrativa do escritor fique com a gente e seja lembrada, causando um efeito duradouro”.



“Ler é e precisa ser um gesto lento de reconhecimento de si. Há uma perda da construção de uma interioridade, desse espaço onde o sujeito pode experimentar vozes, conflitos e desejos que não são seus, mas acabam por expandir sua própria consciência. Em um regime de estímulos rápidos, essa interioridade tende a diminuir porque não encontra tempo adequado para se elaborar.”



Ercolani corrobora, com a sabedoria de quem já viveu oito décadas: “Perde-se o tempo – e sem tempo não há profundidade. A leitura apressada tende a capturar apenas a superfície do texto. Perdemos a capacidade de imersão reflexiva, que permite à literatura funcionar – tanto para leitores quanto escritores – como espelho de si mesmo. Isso limita o ‘encontro consigo’ no processo criativo, enfraquecendo o potencial transformador da obra.”


A literatura que fala sem traduzir


Há livros que nos afetam mesmo quando não conseguimos explicar exatamente o quê – ou por quê. Catharina cita Clarice Lispector como exemplo máximo dessa potência. “Em ‘A Paixão Segundo G.H.’, por exemplo, não é necessário ‘entender’ tudo para se sentir afetado. Há um incômodo, uma epifania, uma sensação de deslocamento que não cabe exatamente em palavras. É uma experiência e ponto”, afirma.


Ela explica esse mecanismo: “Certos conteúdos psíquicos não se apresentam de forma direta. A literatura constrói uma espécie de linguagem indireta da subjetividade. Mesmo não dizendo ‘o que é’, ela encena e sugere algo. Por isso, muitas vezes o leitor reconhece algo sem saber exatamente o quê.” 


A criadora de conteúdo também lembra de vários livros que lhe provocaram essa “sensação esquisita de estar amando sem saber explicar exatamente o que estava lendo”: “Orlando”, “Mrs. Dalloway”, “Morangos Mofados” e “Lolita”.


Como se preparar para ser atravessado pela leitura


Para quem quer começar a se perceber mais por meio da leitura, Catharina dá dicas práticas e generosas.



“A primeira delas: tirar o objeto livro daquele pedestal intocável. Lembrar que se trata de um papel que pode ser dobrado e riscado. Isso com certeza te aproxima mais da experiência da leitura e de si.”



Ela também sugere: “Em vez de sublinhar apenas frases ‘importantes’, vale marcar aquilo que ecoa, mesmo que você não saiba bem por quê. Eu mesma cansei de marcar um parágrafo inteiro em que se narra uma caminhada aleatória, ou uma palavra bonita, ou uma descrição que eu mesma gostaria de ter escrito ou pensado.”


Outra prática que ela acredita ser transformadora é anotar uma impressão solta, uma palavra ou uma sensação que a leitura te proporcionou sem qualquer obrigação de coerência. Isso ajuda a perceber certos padrões que o indivíduo gosta, admira ou acredita. “A experiência não termina quando o livro fecha”, destaca.


Catharina finaliza com uma imagem que resume o encanto da leitura como autoconhecimento:



“Nada melhor e nada mais transformador do que pegar um livro que eu li três anos atrás só para consultar algumas das minhas marcações. Em várias eu me reconheço e me lembro do que estava passando pela minha cabeça. Já em tantas outras, não faço a mínima ideia. Eu me torno um mistério para mim mesma. Mas sigo admirando aquelas palavras todas juntas e feliz de conhecer essa parte de mim que foi – ou ainda é.”



Ercolani, que também pratica a releitura como ferramenta de crescimento, complementa:



“Reler é, na verdade, ler com outra versão de si mesmo. O texto permanece o mesmo – quem muda é o leitor. Com o tempo, novas vivências, perdas, aprendizados e maturidade ampliam a capacidade de leitura, tornando essa experiência uma ferramenta de crescimento contínuo. Aquilo que antes parecia simples torna-se profundo. E o que antes não fazia sentido, de repente, encontra lugar dentro de mim.”



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