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Belo Horizonte,30/05/2026

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O tapete é dela: Demi Moore domina Cannes 2026 e desperta um debate que não deveria ter fim

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O tapete é dela: Demi Moore domina Cannes 2026 e desperta um debate que não deveria ter fim

Foto: Reprodução/Instagram @matieresfecales


A Riviera Francesa não precisou esperar pela Palma de Ouro para ter uma protagonista. Desde o momento em que Demi Moore pisou na avenida Croisette como membro do júri oficial do Festival de Cannes 2026, a conversa se virou totalmente para ela (e não necessariamente só pelos looks).


A atriz voltou a Cannes em uma posição que poucas estrelas de sua geração ocupariam: como figura central da competição principal, ao lado do diretor sul-coreano Park Chan-wook (o presidente do júri). Na prática, isso significa que ela cruzará o tapete vermelho do Palais des Festivals quase todos os dias até 23 de maio. Suas aparições tem mostrado uma sequência de produções que já entrou para o radar fashion do evento. 


Para a noite de gala “Women in Cinema” 2026, da Red Sea Foundation, Demi usa um vestido lilás de paetês da Ashi Studio, cujo colarinho alto se transforma em uma cascata de aplicações florais brilhantes com as costas completamente aberta. (Foto: Reprodução/Instagram @ashistudio)


O dia um e o fenômeno Jacquemus


A cerimônia de abertura, na terça-feira (12), apresentou o gostinho do que viria: um vestido longo tomara que caia inteiramente coberto de paetês prateados, com espartilho e uma cauda discreta. A peça era uma criação sob medida de Jacquemus — com Simon Porte Jacquemus adaptando silhuetas de sua coleção de passarela e alongando proporções mais compactas para construir algo que funcionasse na escala majestosa de um red carpet. As joias Chopard finalizavam o visual.


Foto: Getty Images


Mais cedo naquele mesmo dia, durante o photocall do júri, ela já havia aparecido com um vestido tomara que caia da coleção Outono 2026, também Jacquemus, com estampa de poá colorido. A saia se abriu em um efeito tulipa, e os detalhes tridimensionais das bolinhas criavam uma ilusão de confete em movimento. 


Foto: Getty Images


Uma curiosidade legal é que Simon Porte Jacquemus disse ao lançar essa coleção na semana de moda de Paris em janeiro, que queria “fazer algo divertido” e que sua obsessão do momento era que ninguém se levasse tão a sério. O que é uma ironia, considerando o quanto a presença de Demi Moore em Cannes acabou sendo levada (muito!) a sério por razões que vão além da roupa.


O Gucci vermelho, a arquitetura de Demna e a referência a Tom Ford


Na quinta-feira (14), para a première de Fatherland, Demi trocou a leveza do Jacquemus por algo mais dramático: um vestido Gucci vermelho sob medida, criado por Demna Gvasalia, diretor criativo que assumiu a marca em 2024. O colarinho estruturado criava uma espécie de moldura em torno do rosto, e o tecido com um leve aspecto de amassado (propositalmente, é claro) é uma das marcas registradas do trabalho de Demna — que, agora, traz para a Gucci a mesma energia que desenvolveu durante seus anos na Balenciaga.


Foto: Getty Images


No dia anterior, ela já havia vestido um Gucci lilás sob medida para a première de La Vie d’Une Femme — um modelo esvoaçante com decote ombro a ombro, mangas transparentes e fenda profunda. A produção carregava memória afetiva: o vestido teve como inspiração o look que a própria Demi usou na première de Matrix Reloaded, em 2003.


Foto: Getty Images


Naquela ocasião, a atriz personificou o glamour sexy e utilitário da era Tom Ford na marca ao cruzar o tapete vermelho combinando uma blusa de mangas longas, que trazia exatamente o mesmo decote ombro a ombro reaproveitado em 2026, com uma calça jeans flare.


Demi Moore na premiere de Matrix Reloaded, 2003 (Foto: Getty Images)


 


Matières Fécales com muito volume


Se havia alguma dúvida de que seu stylist Brad Goreski estava guardando algo mais impactante para o final de semana, o sábado (16) respondeu. Para a première de Paper Tiger — o novo thriller de James Gray com Scarlett Johansson, Adam Driver e Miles Teller —, Demi Moore surgiu de rosa-choque em um vestido da Matières Fécales, grife canadense fundada por Hannah Rose Dalton e Steven Raj Bhaskaran.


Foto: Reprodução/Instagram @matieresfecales


O Look 25 da coleção Outono 2026 da marca conta com um laço gigante atravessando o peito, com tecido balonando sobre um dos braços e se elevando sobre o outro ombro. Abaixo da cintura apertada, a saia cai volumosa, com pences diagonais sobre tule mais escuro. As barras, propositalmente desfiadas, tiram o vestido da zona “princesa” apesar do volume e da cor. Os sapatos, também da marca, eram de bico fino e rosa com laço frontal.


Do outro lado do holofote


Seria impossível escrever sobre Demi Moore em Cannes 2026 sem falar do elefante na sala.


Desde que ela apareceu na cerimônia de abertura, a cobertura se dividiu em dois grupos completamente diferentes. Parte da mídia celebrou os braços “ultradefinidos” da atriz, transformando sua imagem em uma espécie de meta fitness. Outra parte reagiu com preocupação. Nas redes sociais, o debate foi aceso e, às vezes, cruel: usuários descreveram sua silhueta como “esquelética” e “frágil”, alguns levantaram a hipótese de uso de medicamentos injetáveis para perda de peso como o Ozempic, e o paralelo com a estética heroin chic dos anos 90 foi puxado por mais de um crítico cultural.


Não é a primeira vez que essa discussão aparece em torno dela neste ano. No tapete do SAG Awards, em março, os comentários já seguiam essa mesma linha. 


O que torna tudo isso mais intenso é o contexto do próprio trabalho de Demi Moore. Em “A Substância” (2024), ela interpreta uma celebridade em declínio que recorre a uma droga do mercado clandestino para gerar uma versão mais jovem e “perfeita” de si mesma (uma crítica visceral, às vezes literalmente sangrenta, às pressões que a indústria do entretenimento impõe sobre os corpos femininos, especialmente os que envelhecem). O filme foi ovacionado. Ela foi indicada ao Oscar. E agora, na mesma avenida Croisette onde o filme estreou em 2024, sua presença acende exatamente o debate que a ficção dissecou.


Demi Moore não falou publicamente sobre sua forma física. Ela tem 63 anos, é adulta e soberana sobre seu próprio corpo. E ao mesmo tempo, a repetição do padrão — Hollywood celebrando magreza extrema como conquista, a mídia alternando entre “inspiração fitness” e “alerta de saúde” sem nunca questionar a estrutura que produz os dois — é real e merece ser debatida.


O que ainda está por vir


O festival vai até 23 de maio, com a entrega da Palma de Ouro Honorária para Barbra Streisand. Demi Moore ainda tem dias pela frente como jurada, e a semana que passou é um indicativo de que Brad Goreski não está nem perto de ter esgotado seu arsenal.


Os degraus do Palais des Festivals continuam sendo dela como passarela de alta-costura e como palco de um debate que a indústria ainda não aprendeu a ter de forma honesta.





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