Negócio familiar de bala de banana fatura R$ 5 milhões e aposta em collabs para crescer até 10% em 2026

No dia 24 de dezembro de 1979, em Antonina, litoral do Paraná, nascia uma operação que, 47 anos depois, se tornaria o símbolo de uma cidade. Sob o comando de Rafaela Takasaki Correa, 40 anos, e de seu irmão João Soter Corrêa, a Balas Antonina encerrou 2025 com um faturamento de R$ 5 milhões e a meta de crescer 10% em 2026.
A empresa, que produz uma tonelada de balas diariamente, é o epicentro do reconhecimento do município como a Capital Nacional da Bala de Banana, título chancelado pela Lei 15.237.
A história da marca, no entanto, começou com uma frustração de mercado. A família migrou de Santa Catarina para abrir uma fábrica de palmito, projeto inviabilizado por questões regulatórias. A percepção da abundância de matéria-prima local e a demanda dos turistas por um doce típico mudaram a rota. "Meu avô trouxe um mestre baleiro de Santa Catarina, o Seu Zezo, para desenvolver a receita que preservamos até hoje", conta Correa.
A dor da sucessão e a virada de gestão
A transição para a terceira geração foi marcada por atritos e pressões. Bióloga de formação com experiência internacional, Correa enfrentou a resistência do pai, que mantinha um modelo de gestão centralizador. "Ele não queria sucessão familiar; me demitia toda semana porque não via estabilidade no negócio para os filhos", relembra. Com o falecimento repentino do patriarca há 14 anos, os irmãos assumiram o CNPJ em apenas dois meses.
A profissionalização veio com a paciência. Durante os dois primeiros anos, a operação seguiu o molde antigo para garantir estabilidade. Aos poucos, Correa descentralizou as decisões. "Saímos da centralização para uma gestão onde delegamos camadas. Nossa gerente, que era operária comigo no chão de fábrica, hoje lidera a equipe", explica a diretora. Hoje, a liderança é composta por cinco pessoas, além dos irmãos, com o apoio consultivo da mãe, já aposentada.
A operação da Balas Antonina sustenta uma cadeia produtiva complexa no litoral paranaense. São entre 50 e 100 pequenos produtores integrados, muitos localizados em Guaraqueçaba, região de acesso difícil por estradas de terra. "Temos motoristas e caminhões próprios que buscam a banana nessas comunidades isoladas. Se não fôssemos até lá, eles não teriam como escoar a produção", revela Correa. A empresa prioriza a banana local, recorrendo a fornecedores externos apenas em períodos de entressafra extrema.
Um dos maiores gargalos para a expansão é a ausência de tecnologia de prateleira. Como a receita é tradicional e a bala é envolta em papel — característica única no Brasil —, não existem linhas de produção industriais prontas. "Fábrica de bala é investimento constante, mas não achamos tecnologia. Ou a indústria trabalha com secos ou com líquidos; o pastoso da bala exige máquinas que não existem no mercado", diz Correa.
A solução é o que ela chama de "guardiã da receita": réplicas de tachos antigos e máquinas de corte que operam há 45 anos, adaptadas por consultores de engenharia para atender normas de segurança sem alterar o ponto artesanal do doce. Embora tenham automatizado o empacotamento para ganhar volume, o cozimento permanece sob o olhar humano.
O reposicionamento da marca transformou o doce em objeto de desejo. Através de parcerias estratégicas, a Balas Antonina emprestou sua identidade para cervejas artesanais, panetones e ovos de Páscoa. "As marcas nos procuram para unir duas potências paranaenses. O ganho em valor de marca e marketing é imenso, muito além do faturamento direto desses produtos", avalia a CEO.
Essa estratégia também se reflete no digital. Com mais de dez anos de presença nas redes sociais, a empresa evita ser “refém de trends”, mas colhe resultados orgânicos ao mostrar o cotidiano. Um vídeo publicado em 6 de abril no Instagram, mostrando há quanto tempo os colaboradores estão na empresa, viralizou e alcançou mais de 1,3 milhão de visualizações. “Paro a fábrica para ler as mensagens dos clientes para os funcionários. Eles precisam sentir que não estão apenas fazendo bala, estão entregando afeto”, afirma.
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Com um tíquete médio de R$ 60 na loja da fábrica e R$ 120 no e-commerce, a empresa opera hoje no limite da capacidade. "Temos um problema bom: tudo o que produzimos já está vendido antes de sair do tacho", diz Correa. Para resolver a fila de espera, a empresa projeta uma nova unidade fabril e uma loja conceito até 2027.
O objetivo da nova estrutura é permitir o desenvolvimento de um mix próprio que vá além das tradicionais balas. Nos planos estão doces de banana cremosos, uma linha zero açúcar e a expansão de itens de licenciamento, como a linha de cosméticos com a identidade visual da marca.
"O conselho que dou para quem herda um negócio é: profissionalize, estude e nunca esqueça o propósito. Se fôssemos apenas seguir tendências de mercado, teríamos abandonado o papel de bala há décadas", conclui Correa.
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