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Belo Horizonte,23/04/2026

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Há dores que não começam em você

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Há dores que não começam em você

Você já sentiu um medo que não sabia explicar? Uma tristeza que parecia vir de antes de você nascer? Ou repetiu, sem querer, um comportamento que sempre criticou nos seus pais? A ciência tem uma resposta – e ela mora no corpo.


A psicanalista Ana Lisboa, fundadora do Movimento Feminino Moderno, uma das principais vozes da saúde mental no país e colunista da Vida Simples, acaba de lançar “O direito de ser eu” (Editora Gente). A obra apresenta 12 leis para ajudar o leitor a retomar a própria história e se reconectar com quem realmente é


O livro nasce a partir da Integração Sistêmica, método criado por Ana que combina psicanálise, terapia sistêmica, neurociência e estudo do trauma. A proposta é mostrar como o corpo guarda memórias. E como dores emocionais podem atravessar gerações.


O trauma que vem de longe


Não herdamos apenas a cor dos olhos ou o formato do rosto. Herdamos também, gravadas no DNA, marcas de experiências vividas por nossos antepassados. Ana explica que isso já foi amplamente comprovado pela epigenética.


Ela cita estudos emblemáticos, como o da doutora Rachel Yehuda com vítimas do Holocausto. “Descendentes – netos e bisnetos de pessoas que viveram o Holocausto e que nem sequer conheceram os avós – possuíam maior probabilidade de ansiedade e já nasciam com o cortisol elevado.”


Pesquisas semelhantes foram feitas na Holanda com gestantes que sofreram com a fome. “Os filhos, netos e bisnetos tinham comportamentos de distúrbios alimentares, diabetes e já nasciam com essas questões.”


Ou seja: toda vez que nossos ancestrais foram submetidos a traumas ou forte impacto emocional, isso provocou uma desmetilação do gene – uma marca química que pode ser passada adiante. “O gene fica marcado com aquilo e é passado para a próxima geração.”


O trauma como um movimento interrompido


Mas, afinal, o que é o trauma? Ana propõe uma definição que foge do lugar-comum. “Todo trauma mora no ‘não poder’. A pessoa não se traumatiza pelo evento em si, mas pelo que não conseguiu fazer.”



“Não é trauma de dinheiro – é de não ter podido ajudar os pais. Não é trauma do acidente – é de não ter podido salvar alguém. O trauma é um movimento interrompido, um congelamento da psique.”



E esse congelamento não fica só na mente. Ele se instala no corpo. Para ela, o trauma é sempre somatizado no corpo, em um órgão, em um sintoma. É como se o corpo guardasse a memória mais profunda do que não pôde ser vivido.


O perigo de só pensar, sem sentir


Quantas vezes a gente tenta entender racionalmente o que sente, elabora explicações perfeitas, mas continua com o mesmo incômodo no peito, a mesma tensão nos ombros, o mesmo nó na garganta?


Ana alerta para um desvio comum no caminho do autoconhecimento: a intelectualização. “Muitas pessoas entram na intelectualização – querem entender tudo racionalmente –, mas isso pode ser apenas uma fuga da dor.”


Ela é categórica: “Não existe alma leve em corpo inflamado. Se a pessoa não olha para o corpo, não vive o processo terapêutico e fica só na racionalização, ela não está se autoconhecendo.”


Na terapia de integração sistêmica, o caminho é inverso: acessar o trauma no corpo, em nível químico, e liberar novos hormônios, ressignificando aquele movimento. 



“Através de um movimento catártico, fazer o corpo se sentir seguro.”


Capa do livro da psicanalista Ana Lisboa


O direito de habitar a si mesmo


Para quem está começando esse processo, Ana tem uma orientação simples e profunda: acesse o corpo. “Antes de buscar diagnósticos e explicações racionais, é importante entender que o trauma é individual. Duas pessoas podem viver a mesma experiência e interpretá-la de formas completamente diferentes.”


Ela compara o corpo a um palácio:



“Com várias salas, algumas iluminadas, outras fechadas, outras cheias de memórias. Só conseguimos acessar esse lugar quando realmente passamos a morar dentro de nós.”



O método da Integração Sistêmica, que está na base do livro, não surgiu apenas da teoria. “Ele é a expressão da minha trajetória pessoal”, revela Ana. 


“Tudo o que agrego no meu atendimento hoje veio da minha própria experiência. A cada paciente, evento ou experimento, fui testando e validando essa integração de abordagens.”


As 12 leis para reconquistar a própria vida


Cada uma das 12 leis apresentadas no livro é um convite para destrancar medos, soltar culpas e limpar os excessos que impedem o equilíbrio emocional. A escrita de Ana une sensibilidade e técnica para conduzir o leitor em um processo de reconciliação consigo mesmo.



“O livro é um retorno para casa. Um lembrete de que a liberdade emocional começa quando paramos de tentar caber em moldes que não foram feitos por nós.”



Em “O direito de ser eu”, Ana compartilha aprendizados de mais de uma década de prática clínica e formação em psicanálise, neurociência e terapia sistêmica. A leitura oferece caminhos para compreender as leis familiares invisíveis que influenciam comportamentos, reconhecer padrões herdados e transformar dor em consciência.


“Mulheres são feitas de multidões, mas precisam ter cuidado para não se perderem dentro delas”, escreve.


O direito de ser eu, no fundo, pode ser é isso: o direito de habitar o próprio corpo. De sentir o que se sente, sem precisar explicar tudo. De concluir movimentos que ficaram suspensos no tempo. De parar de repetir histórias que não eram suas para repetir.


Como Ana Lisboa nos aponta um caminho, a cura não está em esquecer o passado. Está em integrá-lo – no corpo, na memória, na vida – e, finalmente, seguir em frente. Com leveza. E com a verdade de quem se reconhece.


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