Da raiz indígena à moda, a trajetória de Sioduhi Waíkhun

Foto: Michael Paz
Sioduhi Waíkhun constrói um caminho próprio na moda. Seu trabalho nasce de saberes ancestrais, atravessa o presente e propõe outras formas de olhar para a roupa e para o Brasil.
À frente da Sioduhi Studio, criada em 2020, o designer transforma vivência em linguagem e reposiciona narrativas que por muito tempo ficaram à margem. Nesta conversa com a HARPER’S BAZAAR BRASIL, ele fala sobre identidade, pertencimento e os limites entre troca cultural e apropriação.

Foto: Michael Paz
HARPER’S BAZAAR BRASIL – Você cresceu em comunidade indígena e depois entrou no circuito urbano da moda. Em que momento você entendeu que queria contar sua própria história através da roupa?
Sioduhi Waíkhun – Dois momentos foram cruciais. O primeiro ocorreu durante uma aula de história da moda, no curso de modelagem e vestuário, quando percebi que a contribuição dos povos indígenas foi abordada em menos de 20 minutos. Aquilo me marcou profundamente.
O segundo foi em 2020, quando entendi que a pandemia da COVID-19 estava levando muitos dos nossos anciões. Percebi que, por meio do que eu sabia fazer e estava estudando, poderia contribuir de alguma forma com o meu povo. Foi então que, em abril de 2020, decidi sair da empresa onde trabalhava e fundar a Sioduhi Studio.
HBB – Quando você olha para a moda brasileira hoje, você se sente parte dela ou ainda existe uma distância real?
SW – Ainda sinto uma distância. Nossos conhecimentos são milenares, profundos e complexos, raramente compreendidos. Técnicas e tecnologias indígenas seguem sendo ignoradas. Os materiais que utilizamos carregam cosmologias, têm origem e são seres tão importantes quanto nós, humanos.
Talvez hoje eu esteja contribuindo para um letramento, abrindo novas possibilidades de compreender a brasilidade a partir da sua origem, uma origem que conecta mais de 15 mil anos de história com os 526 anos do Brasil.
HBB – O que você acha que ainda não foi entendido sobre a presença indígena dentro da moda contemporânea?
SW – Ainda não se compreende a diversidade das narrativas indígenas, nem o fato de que acompanhamos o espírito do nosso tempo.
Além disso, o preconceito e o racismo atravessam nossos corpos de forma silenciosa e, muitas vezes, fatal, em diferentes espaços, e na moda não é diferente.
HBB – Sua criação parte de referências muito pessoais. Como você protege essa identidade quando o trabalho começa a ganhar visibilidade e mercado?
SW – Sou uma pessoa muito discreta, apesar da visibilidade que tenho conquistado nos últimos tempos. Essa discrição, somada ao cuidado com o meu espírito e à proximidade com meus parentes, é o que me mantém seguro no sentido espiritual e de pertencimento.
No campo legal, hoje também conto com o apoio de parentes advogados, que me auxiliam na proteção do meu trabalho.

Foto: Michael Paz
HBB – Existe uma linha clara entre troca cultural e apropriação. Você acha que a moda brasileira sabe respeitar esse limite?
SW – Nem sempre. É preciso entender que o fato de algo ser brasileiro não significa que tudo pode ser apropriado. É necessário diálogo e relações que vão além do que está escrito em contrato.
Também é fundamental compreender os limites entre o direito coletivo e o individual, entre o sagrado e aquilo que pode ser compartilhado.
HBB – O sistema de moda ainda é concentrado, urbano e restrito. Você acredita na transformação desse modelo ou prefere construir caminhos paralelos?
SW – Eu acredito na construção de caminhos paralelos, e é isso que tenho feito.
Minha trajetória conecta a comunidade indígena, a aldeia, à cidade, com forte atuação na Amazônia. Antes mesmo do vestuário, penso no impacto cultural e socioeconômico. A moda, para mim, é uma ferramenta potente.
Nós, indígenas, estamos presentes em diversos espaços, inclusive nos centros urbanos.
HBB – Dentro da sua cultura, qual é o papel da roupa no dia a dia e o que muda quando ela passa a circular como produto?
SW – No passado, a roupa ou indumentária está ligada à proteção e à celebração, especialmente nas saias de tucum utilizadas nos Dabucurí, cerimônias de reciprocidade no Alto Rio Negro, Amazonas.
Quando essas peças passam a circular como produto, elas começam a gerar novos significados para uma sociedade que ainda desconhece o nosso mundo. Isso pode causar estranhamento, mas também abre caminhos para o reconhecimento do território que habitamos.
É importante lembrar que os materiais e processos têm seu próprio tempo, não seguem a lógica acelerada do fast fashion.
HBB – O que ainda te incomoda na forma como o Brasil fala e consome essa pauta hoje?
SW – A ignorância e a falta de escuta ainda são muito presentes. O preconceito e o racismo continuam falando mais alto.
Sinto que essa pauta ainda não encontrou um ponto de equilíbrio: ou é excessivamente romantizada, ou é tratada com rejeição.
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