Angela Brito e a estética da entropia: O Rio de Janeiro em camadas sensoriais

Fotos: Divulgação
Há mais de trinta anos, Ângela Brito atravessou o Atlântico, trazendo de Cabo Verde a memória do tear e a precisão do trabalho feito à mão. Hoje, consolidada como uma das vozes mais potentes e necessárias do design moderno brasileiro, a estilista se prepara para um retorno que é, acima de tudo, um reencontro afetivo. Nas passarelas da Rio Fashion Week, com sua marca homônima, Ângela apresenta um diálogo entre sua essência nômade e a cidade que escolheu para ver sua marca nascer e florescer.
Após encerrar um ciclo profundo de investigação sobre suas raízes com a coleção “Pangeia”, a designer volta seu olhar para o Rio de Janeiro. Mas esqueça os clichês turísticos. O Rio de Ângela é feito de texturas: o asfalto quente, a aspereza da areia, a umidade da mata e a energia caótica e bela da entropia urbana. É uma coleção que nasce de um tempo mais curto, movida pelo instinto e pelo desejo de abraçar uma faceta mais leve e sensorial.

Foto: Marcelo Soubhia/ @agfotosite
Em conversa com a BAZAAR, Ângela reflete sobre o amadurecimento de sua identidade — que recusa rótulos simplistas e celebra a multiplicidade—, e detalha como transformou as vivências da Sapucaí e o calor carioca em uma alfaiataria que, pela primeira vez, se permite estar mais próxima da pele.
Harper’s Bazaar Brasil – Como é para a marca participar desta nova edição do Rio Fashion Week e fazer parte desse momento de retomada da moda carioca?
Ângela Brito – No final do ano passado, depois de concluir a coleção “Pangeia”, entendi que precisava encerrar um ciclo importante dentro da marca, um período em que olhei profundamente para as minhas raízes. O convite para o Rio Fashion Week chegou como uma pausa necessária para reflexão, e entendi que esse era o momento de deslocar o olhar para onde decidi criar esse projeto, o lugar onde a marca nasceu e continua a crescer. Foi aqui no Rio onde tudo começou. Decidi falar do Rio não como um tema, porque ele é vasto demais para caber em uma narrativa única, mas como um campo de sensações, elementos que me atravessam e, por vezes, me tiram o ar. Existe também algo simbólico em estar em casa nesse momento de retomada que o Rio Fashion Week representa.
HBB – Sua trajetória é marcada por deslocamentos e múltiplas referências culturais. Como isso aparece na coleção que será apresentada no Rio?
AB – A minha trajetória é inevitavelmente atravessada por deslocamentos, Cabo Verde, Portugal e, há mais de três décadas, o Brasil. Mas, mais do que uma soma de lugares, o que me interessa é o que eu construo entre eles. É mais sobre assumir a liberdade de existir entre eles. Durante muito tempo, houve uma tentativa de fixar a minha identidade e, assim, de enquadrar a marca como cabo-verdiana, africana ou mesmo exclusivamente brasileira, como se fosse necessário reduzir esse percurso a uma única origem. Esse tipo de leitura sempre me causou algum incômodo, porque simplifica uma construção que é, por natureza, múltipla. A marca nasce no Rio de Janeiro, se desenvolve aqui, mas também é atravessada pelas minhas experiências, pelos deslocamentos e, sobretudo, pelas escolhas que fiz ao longo da minha vida e carreira. Existe uma multiplicidade que é estrutural no meu trabalho, e que não pode ser simplificada. Nesta coleção, isso aparece de forma mais sutil. São looks que funcionam como fragmentos de um território afetivo, o meu Rio de Janeiro, atravessados por essa construção múltipla, que não se afirma de maneira literal, mas que está presente em camadas.





HBB – Quais foram os principais pontos de partida criativos para esta temporada?
AB – Diferente do meu processo habitual, que costuma levar cerca de um ano, essa coleção nasceu em um tempo mais curto e, talvez por isso, mais intuitivo. Parti de um lugar profundamente sensorial e pessoal. O gesto foi o de retirar camadas até encontrar um núcleo, aquilo que, de fato, me toca na cidade, para além das expectativas projetadas sobre o olhar estrangeiro. As texturas da cidade tiveram um papel central, a pele, a areia, o asfalto, a umidade, o vento, a mata, as pedras, o concreto e a cartela de cores que aparece junto com essas texturas. E, claro, o carnaval atravessa esse imaginário, ainda que de forma sutil. Existe uma memória afetiva muito forte nas idas à Sapucaí. Amo ir aos desfiles com a minha família, o brilho, a magnitude , a energia coletiva que faz acontecer me inspiram. Meu olhar para o Rio não é o do clichê, mas também não deixa de ser o de quem, mesmo depois de tantos anos, ainda se surpreende com o que salta aos olhos à primeira vista.
HBB – A alfaiataria é um dos pilares da marca. Como ela foi reinterpretada nesta coleção?
AB – Existe, nessa coleção, uma tentativa minha de abraçar uma Angela mais leve, mais exposta, mais sensorial. Talvez mais próxima de uma ideia de sensualidade e subversão mas em outro registro, que não o punk, rock, europeu. É um subversivo que vem do corpo, da pele, da luz, do calor que é vivido pelas pessoas aqui no Rio de Janeiro. Há um encontro entre uma alfaiataria mais sóbria, que faz parte da minha trajetória de formação, com esse meu desejo de abertura.
HBB – Existe algum símbolo ou elemento que represente o conceito central do desfile?
AB – Mais do que um símbolo único, penso em um estado. A ideia de entropia atravessa a coleção como esse movimento constante dentro do caos. Tem muito a ver com o Rio, o calor, o excesso, essa energia que não para, que se transforma o tempo todo. É desse lugar que a coleção nasce. O corpo talvez seja o elemento central. É nele que a cidade se inscreve, que as camadas se aparecem, que a experiência de viver a cidade ganha forma.
HBB – Como suas origens em Cabo Verde continuam influenciando seu processo criativo?
AB – As minhas origens seguem presentes, mas nesta coleção elas deixam de ocupar o centro. Uma amiga me disse, certa vez, que para viver o Rio é preciso se jogar, dançar com o caos, e isso ficou comigo. “Entropia” nasce de aceitar o imprevisível, de construir a partir da experiência direta com a cidade em que vivo há mais de trinta anos.
HBB – Como você enxerga a evolução da discussão sobre diversidade na moda desde sua estreia histórica no SPFW até hoje?
AB – Quando estreei na São Paulo Fashion Week, como a primeira mulher negra a desfilar, existia uma sensação muito forte de não pertencimento. Hoje possuo uma trajetória forte e validada por um trabalho construído com rigor. Além disse, hoje existem outras marcas de pessoas racializadas ocupando a passarela também. Esse espaço expandiu e ficou mais diverso. Mas ainda existe uma tendência do mercado da moda de tentar encaixar, de reduzir tudo a uma origem única, como se isso desse conta de explicar o trabalho. E o que me interessa é justamente o contrário, essa construção múltipla, que não cabe em uma definição só. Vejo avanços, sim, mas para mim é sobre continuidade. Diversidade precisa ser estrutural, não mais uma forma de classificação.
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