A leitura por trás do Michelin no Brasil
Tudo tem dois lados – isso é fato. E a premiação que aconteceu na noite de ontem (13), no Copacabana Palace, revelando os estrelados do ano para o Guia Michelin, também. Pois, vejamos: se você for daqueles que olham sempre para a taça (de espumante, por favor, porque somos brasileiros!) vazia, vai reclamar da ainda pequena quantidade de estrelados. Já, se você for daqueles que enxergam a taça cheia, estará comemorando as três estrelas conquistadas por Evvai e Tuju, em São Paulo.
Os dois lados têm seus argumentos e razões. Pelo lado da taça vazia, por que o Nelita, de Tássia Magalhães, em São Paulo, ainda não levou sua primeira estrela – e fez muita gente que apostou nesse bolão perder dinheiro? Ou o Lilia, de Lucio Vieira, e o Umai, de Menandro Rodrigues, ambos no Rio? “Vou inaugurar uma nova sala para o omakase do Umai no meio do ano e achei que já ia abrir com uma estrela”, contou o chef executivo. “Mas seguiremos tentando até o ano que vem.”
E a Casa 201, de João Paulo Frankenfeld, cujo sommelier, Raphael Zanon, foi condecorado como Melhor Serviço (sim, meus caros, existe bom serviço no Rio de Janeiro!) – ainda não está pronta para as duas estrelas? Aliás, falando nela, a segunda estrela, o que pensaram os inspetores do Michelin para que Alberto Landgraf, do Oteque, também no Rio, não a recuperasse na noite de ontem? O mesmo vale para o Ryo Gastronomia, de Edson Yamashita, em São Paulo.
Qualidade dos produtos, domínio do sabor e técnicas culinárias, a personalidade do chef na sua cozinha, relação entre qualidade e preço, e consistência entre visitas – os cinco critérios de avaliação dos inspetores Michelin são claros. Não falta, porém, quem brade o quão pouco esses inspetores conhecem das cenas gastronômicas em São Paulo e mais ainda no Rio de Janeiro – ontem, ao anunciar o prêmio para o Madame Olympe, no Rio, o diretor do Michelin chegou a dizer que a novata no time de uma estrela era uma casa de culinária japonesa, quando, na verdade, se trata de um restaurante de base francesa cujo último menu tem pegada asiática. Sobre outras capitais, como Salvador, então, melhor nem falar, já que o Guia não chega a elas e casas como o Origem, de Fabrício Lemos e Lisiane Arouca, seguem injustiçadas.
Mas vamos tentar olhar para a taça cheia. O recado que esses mesmos inspetores deram na noite de 13 de abril foi de que o Brasil está em um nível mais alto que seus irmãos latino-americanos. Mais alto também que alguns europeus, como Portugal, que nunca teve as três estrelas. Da plateia, o chefão espanhol Albert Adrià, cujo Enigma só conquistou a segunda estrela em novembro do ano passado, acompanhou a premiação dos três estrelas Evvai e Tuju.
As lágrimas de Luiz Filipe Souza, do Evvai – que, por alguns instantes, chegou a pensar que tinha perdido as duas estrelas –, ao subir ao palco para receber o prêmio têm muito a nos dizer: hoje, o Brasil acordou – de fato – como um destino gastronômico a ser considerado em todo o mundo. “Já estou vendo tudo, não falta nada para começarem a me perguntar quando vai vir a terceira estrela”, disse Rafa Costa e Silva, do premiadíssimo Lasai, no Rio, ao final do evento. A gente torce para que seja logo, Rafa. Por enquanto, vamos brindar às seis estrelas brasileiras! Seja com a taça cheia ou vazia.
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