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Belo Horizonte,13/04/2026

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Morre o arquiteto Eduardo de Almeida

casavogue.globo.com
Morre o arquiteto Eduardo de Almeida
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Eduardo de Almeida
Divulgação
A arquitetura brasileira se despede de Eduardo de Almeida, que morreu neste domingo (12), aos 92 anos, em São Paulo. Referência incontornável para gerações de profissionais e estudantes, construiu uma trajetória de mais de seis décadas entre o exercício do projeto e a formação acadêmica na FAU-USP. Trilhando caminho próprio, livre dos ditames do movimento moderno e da Escola Paulista, o arquiteto se consagrou ao projetar escolas públicas, indústrias, hospitais e edifícios, em mais de 50 anos de atuação profissional. Grande parte de sua obra, porém, concentra-se nas residências, algumas delas notáveis, pioneiras pelo uso de estrutura metálica.
Nascido em 1933 na cidade de São Paulo e formado pela FAU-USP em 1960, Eduardo Luiz Paulo Riesenkampf de Almeida manifestou muito cedo o gosto pelas as artes e o pendor para a arquitetura. Se, na faculdade, identificou-se com a influência de Frank Lloyd Wright – em oposição à orientação corbusiana, abraçada por outros colegas –, já havia percebido a força do legado familiar no percurso que estava prestes a trilhar (seu tio era o poeta Guilherme de Almeida, um dos organizadores da Semana de Arte Moderna de 1922 e fundador da revista Klaxon). Da herança paterna também levou os relatos feitos por Tácito de Almeida sobre a convivência com Oswald de Andrade, Mário de Andrade e outros integrantes do grupo vanguardista.
Ainda no antigo palacete que sediava a FAU-USP, Eduardo de Almeida conheceu Ludovico Martino, com quem abriu em 1958 o escritório Horizonte Arquitetura, integrado ainda por Arthur Fajardo Netto, Dácio Ottoni e Henrique Pait.
Pouco depois de se graduar, em 1962, obteve uma bolsa de estudos e partiu para cursar design e história da arte em Florença, na Itália. Embora esse não fosse o mote inicial, a experiência lhe proporcionou contato com outra visão de mundo e de cidade (as discussões eram acaloradas na época, animadas pela inauguração de Brasília e pelo projeto de Kenzo Tange para a baía de Tóquio), o que o ajudou a compreender o projeto do ponto de vista urbano. Na volta, em 1967, Almeida recebeu o convite para dar aulas na mesma instituição pela qual se formou, tornando-se professor da disciplina de desenho industrial. Em 1972, voltou-se ao ensino de projeto de edificações. Posteriormente, fez seu próprio mestrado, doutorado, passando os 25 anos seguintes na pós-graduação, chegando a orientar dezenas de dissertações e teses. Desde 2000, estava aposentado na carreira acadêmica, restringindo-se a palestras ocasionais proferidas em universidades brasileiras.
Tempos depois de regressar da Itália, foi chamado para organizar e acompanhar os projetos de Sergio Bernardes – muito atarefado na ocasião – a partir de seu escritório em São Paulo. Aprendeu com o carioca a respeito de construção, do detalhamento do projeto e do emprego de materiais pouco utilizados no período, sobretudo a madeira e o metal (predominava o concreto). Ato contínuo, tornou-se um dos primeiros arquitetos brasileiros a empregar, com beleza e rigor, a estrutura metálica em residências – traço definidor de sua obra, claramente perceptível em seu legado.
Nos anos 1980, as rampas do novo edifício da FAU viram surgir o contato com Vilanova Artigas – a quem admirava, assim como à Escola Paulista de arquitetura, apesar de preferir um posicionamento mais moderado ideologicamente. Credita-se à troca de ideias com o artífice do brutalismo, por exemplo, o fato de Eduardo de Almeida seguir empregando o concreto, a despeito do sucesso com o aço. Outra referência importante foi Carlos Millan, cujas casas descritas como “exemplares” por Almeida. Entre estrangeiros e conterrâneos, despontavam ainda Paulo Mendes da Rocha, Oscar Niemeyer e Mies Mies van der Rohe – os dois últimos apreciados pela relação estreita entre arquitetura e construção e o foco no detalhamento.
A sociedade no escritório com Arnaldo Martino durou de 1977 a 1986 e desenhou na capital paulista uma série de projetos ousados, feitos com estruturas metálicas. Com o fim da parceria, Eduardo de Almeida prosseguiu individualmente, juntando-se ocasionalmente a arquitetos proeminentes de gerações mais jovens para trabalhos pontuais. Dessa lavra, saíram nomes como César Shundi Iwamizu e Rodrigo Mindlin Loeb.
Ainda que as residências tenham sido o segmento mais relevante na produção de Eduardo de Almeida, edificações de outros tipos também apresentam importância. É o caso dos edifícios Gemini, de 1970, pensados como um modelo racional e modular, fácil de ser replicado. Entre as indústrias, figura a sede da SAP Labs Brazil, em São Leopoldo, RS. Seguiram-se a esses feitos a vitória do concurso para o novo campus da Fundação Getúlio Vargas (FGV) e o conjunto de bibliotecas da Brasiliana USP, que compreende a Biblioteca Mindlin e o IEB, também no campus da Universidade de São Paulo.
Estimado pelos seus pares e dono de uma produção prolífica, Eduardo de Almeida recebeu prêmios e homenagens pelo conjunto de sua obra – destaque para as residências –, conferidas pelo Instituto de Arquitetos do Brasil (IAB) e pela Bienal Internacional de arquitetura (BIA), além de outros oferecidos por empresas e marcas do setor construtivo.
Principais projetos
Residência Jose L. Niemeyer dos Santos (1970)

Júlio Abe Wakahara
A proposta para a casa em São Paula previa organizá-la em blocos para as diferentes funções – justapostos de modo a assegurar a continuidade entre os espaços. Feita com estrutura de concreto, blocos do mesmo material e lajes pré-fabricadas, sempre aparentes, remete à austeridade encontrada nos trabalhos de Carlos Millan, de quem Almeida era um admirador.
Edifício Gemini (1970)

Andre Scarpa
A construtora propôs ao arquiteto, na época também professor de desenho industrial, o projeto de uma habitação multifamiliar de baixo custo e rápida construção – e que pudesse ser replicado em outros lotes. Surgia então o Gemini, um edifício modular com estrutura de concreto moldada in loco e elementos industrializados.
Casa Oppenheim (1983)

Divulgação
Seguindo a investigação do uso de estrutura metálica associada a planos de alvenaria de tijolo à vista, a casa projetada junto com Arnaldo Martino dispôs de pátio central e pé-direito elevado no living. Pouco usual na época, a área de serviços fica sobre a garagem, no andar superior, o mesmo dos quartos. Outras boas inovações são os perfis metálicos delicados e painéis wall na fachada e nos demais fechamentos.
Casa de Dois Blocos (1993)

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Dois volumes interligados no centro pela escada metálica definem a residência, dotada de piscina em forma de raia. Vale notar o tratamento diferente das coberturas, uma plana e a outra com duas águas.
Restaurante Madelleine (2004)

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O terreno estreito abriga o edifício com garagem, restaurante com mezanino e escritório para locação, dispostos em quatro pavimentos. Incomum na obra de Eduardo de Almeida, o volume curvo avermelhado – que organiza os acessos e acomoda ambientes de apoio – marca presença na fachada de concreto armado e quebra o rigor dominante. O aço comparece na estrutura do corpo principal, com pilares redondos e vigas I.
Casa no Butantã (2002)

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A fachada dos fundos revela a implantação elevada e as grandes aberturas que marcam a residência, quase um pavilhão, feita para um dos filhos do arquiteto. A fim de contemplar o programa de necessidades no terreno, adotou-se a solução em um único bloco, no qual ressalta a simetria, erguido com aço e fechado com alvenaria de tijolo aparente, vidro em caixilhos e venezianas móveis.
Sede da fazenda em Água Comprida (1997)

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Localizada em Minas Gerais, a propriedade de mil hectares ganhou sede, casa do administrador, habitações dos funcionários, escritório e galpões. O maior desafio foi criar uma escala intermediária entre os amplos espaços da fazenda e as construções. Daí os pátios internos da sede, as grandes varandas e as vastas áreas ajardinadas em contraponto ao entorno distante. ‎
SAP Labs Brazil (2011)

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Localizada no Parque Tecnológico Tecnosinos, em São Leopoldo (RS), o centro de pesquisas em tecnologia de informação (voltado para o desenvolvimento de softwares empresariais) ganhou este edifício cujo projeto foi escolhido em concorrência fechada, assinado por Eduardo de Almeida e César Shundi Iwamizu. A dupla teve de viabilizar os cerca de 10 mil m² de área (concebido originalmente com armação metálica) com concreto armado, mas manteve a premissa: dois blocos paralelos mediados por um pátio ajardinado. As lajes da edificação antiga, à qual esta se somou, conectam-se às novas por passarelas de aço, evidenciando as fases distintas da construção (certificada com o selo Leed Gold).
Biblioteca Brasiliana (2006-2013)

Nelson Kon
Eduardo de Almeida e Rodrigo Mindlin Loeb assinam o projeto da Biblioteca Brasiliana, edifício, com mais de 20 mil m² que abrig o acervo de 17 mil títulos e 40 mil volumes doado pelo bibliófilo José Mindlin à Universidade de São Paulo. O complexo (que também abriga o acervo do Instituto de Estudos Brasileiros (IEB) e inclui com livraria, cafeteria, sala de exposições e auditório para 300 pessoas) apresenta vários recursos sustentáveis, compatíveis com a preservação dos livros. A luz natural entra pela cobertura com lanternim, a chapa perfurada nas fachadas protege o papel dos raios UV. Foi prevista a geração de energia fotovoltaica a partir do topo do edifício.




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