Buhr mantém acesa a brasa criativa no fluxo urbano do álbum 'Feixe de fogo'

Buhr lança o sétimo álbum solo de estúdio, 'Feixe de fogo', o primeiro disco da artista sem o prenome Karina
Priscilla Buhr / Divulgação
♫ CRÍTICA DE ÁLBUM
Título: Feixe de fogo
Artista: Buhr
Cotação: ★ ★ ★ ★
♬ “Eu corro em cima da brasa acesa / No medo onde ninguém mergulha”, se situa Buhr nos versos iniciais de “Feixe de fogo”, música que batiza o quinto álbum solo de estúdio desta cantora, compositora e instrumentista baiana nascida em Salvador (BA), criada no Recife (PE) e residente em São Paulo (SP).
As guitarras incandescentes de Arto Lindsay, Fernando Catatau e Rami Freitas constroem o clima fervente dessa faixa que sobressai de imediato no disco gravado ao longo de dois anos – entre dez estúdios diferentes de cidades como Recife (PE), São Paulo (SP), Salvador (BA), Fortaleza (CE) e Sobral (CE) – com produção musical orquestrada por Buhr com o multi-instrumentista Rami Freitas.
No mundo desde a última sexta-feira, 10 de abril, em edição do selo paulistano Sound Department, o álbum “Feixe de fogo” tem o mesmo pulso quente de discos antecessores como “Selvática” (2015) e “Desmanche” (2019), reforçando a assinatura singular de Buhr como compositora.
Com onze músicas autorais, sendo dez compostas solitariamente pela artista, “Feixe de fogo” é o primeiro álbum em que Buhr se apresenta sem o prenome Karina, em sintonia com a nova identidade de pessoa não-binária.
Trata-se de álbum urbano que expõe questões existenciais de uma artista em trânsito na selva das cidades. “Busco motivos nas ruas entupidas de carro / Esvaziadas de gente / Como quem procura raízes”, canta Buhr nos versos confessionais de “Voaria”, música pontuada pelo sopro dos metais orquestrados pelo maestro Ubiratan Marques.
Se “Vale brinde” se insinua como canção de suavidade diluída pela ambiência sonora crua criada pela atmosfera do arranjo tocado pelos músicos Briar Aguarrás (baixo, synth, violão e guitarra) e Rami Freitas (bateria, synth e guitarra), “Anzol” fisga de imediato uma energia roqueira que se afina com a poética altiva de Buhr em versos como “Não me diga o que fazer com meu espaço / Ele se cria pela minha mão”.
Buhr assina a produção musical do álbum 'Feixe de fogo' em parceria com o multi-instrumentista Rami Freitas
Priscilla Buhr / Divulgação
Contudo, o cancioneiro do álbum “Feixe de fogo” extrapola rótulos e gêneros. A homogeneidade reside mais na potência dos timbres e da poética e do canto de Buhr, traços de união entre canção que esboça DR – “70 cigarros”, gravada por Buhr com a cantora trans Moon Kenzo, voz de Sobral (CE) – e um xote como “Oxê”, faixa que evoca elo com o passado de Buhr nos grupos de maracatu Estrela Brilhante e Piaba de Ouro, nos quais a artista debutou em cena como percussionista, tocando o tambor que ainda hoje lhe dá norte na hora de compor. Buhr toca triângulo em “Oxê”, música cantada pela artista com Josyara (também no violão personalíssimo) e Negadeza (voz, pandeiro, zabumba, xequerê e bongô).
Entre uma faixa e outra, há “Chão frio” (música pavimentada pelo toques rascantes das guitarras de Edgard Scandurra e Régis Damasceno), “Ânsia” (faixa que anunciou oficialmente o álbum em single editado em 25 de março) e “Seilasse” (canção na qual reaparece a guitarra climática de Arto Lindsay), cuja letra versa sobre amor em adiantado estado de decomposição.
“O amor feito um morto no meio da sala / Velamos o que fomos um dia / O amor implorando, calando tua fala / O amor esperando nada / O amor indo embora”, relata Buhr em “Seilasse”, reiterando o tom afiado de escrita que solta faíscas a cada verso. “Meu coração é um motor em agonia”, sintetiza a artista em verso de “Motor de agonia”, faixa de paradoxal leveza sonora em que Buhr toca congas.
No pujante arremate do álbum “Feixe de fogo”, Buhr reflete sem culpa ou arrependimentos sobre erros do passado (“Podia ter feito, mas não fiz / Nem agora, que é tarde demais, sei se quero / Talvez ainda possa ser cedo pra viver, mas / Nunca é tarde pra desistir de você”) na música marotamente intitulada “Desmotivacional”, composta e gravada por Buhr com o conterrâneo baiano Russo Passapusso, cujo pulso também quente faz arder a faixa (da qual é coprodutor) que encerra álbum afinado com a identidade artística da autora.
Buhr mantém acesa a brasa criativa no fluxo urbano de “Feixe de fogo”.
Capa do álbum 'Feixe de fogo', de Buhr
Priscilla Buhr com design de Guile Farias





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