Casa Vogue de abril mergulha nos prazeres da arte de colecionar

Uma das visões mais cativantes que se pode tirar da leitura dos escritos de Bruno Munari (1907-1998) é a forma profundamente humanista, quase animista, com que ele enxergava os objetos que nos cercam. Para o italiano, é como se fossem entidades dotadas de personalidade, com quem somos capazes de estabelecer relações utilitárias, claro, mas também afetivas. Multidisciplinar até dizer chega – designer, artista, arquiteto, escritor, educador e filósofo (não necessariamente nessa mesma ordem) –, ele defendia que os objetos têm uma espécie de linguagem própria, formada a partir do uso que fazemos deles. Segundo Munari, quem vive rodeado de objetos bem pensados desenvolve, ao longo dessa convivência, uma sensibilidade diferente para o mundo. Essa noção é chave para entender aquilo a que chamamos de colecionismo contemporâneo, tema da edição de abril da Casa Vogue. No nosso caso, falamos especificamente de coleções de arte e design, lógico.
Na edição, o pensamento de Munari ganha eco especialmente no apartamento do designer Lucas Recchia. Autor de mesas, luminárias e espelhos únicos, cujas edições limitadas aproximam seu trabalho do universo da arte, Lucas ocupa os 50 m² do lar com itens de gente como irmãos Campana, Tunga e Harry Bertoia. E sabe exatamente por que o faz: “Essa é a minha forma de conviver com as obras e respeitar esses artistas, assim como espero que minhas peças sejam vistas e respeitadas no futuro”.
A irreverência criativa do designer Ramdane Touhami marca sua residência na Itália
Stefan Giftthaler
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Essa mesma relação metonímica de “convivência entre pares” ocorre nas demais residências visitadas neste mês de SP-Arte (a feira de arte e design onde mais uma vez a Casa Vogue está presente): na joia projetada por Luiz Volpato para um casal italiano em Curitiba, fãs incondicionais de artistas brasileiros, móveis da Edra e dos... irmãos Campana!; na galeria particular de colecionadores paulistanos convertida em refúgio por Marina Linhares; na morada que Decio Tozzi e Isay Weinfeld conceberam para Claudio Tozzi expor os trabalhos de toda a carreira; e no apartamento renascentista romano do diretor criativo Ramdane Touhami, classificado por ele como “um lar que parece um museu”.
As coleções do designer Lucas Recchia preenchem seu apartamento paulistano
Ruy Teixeira
Antes de tudo isso, há ainda a entrevista de alto nível que o multiartista Nuno Ramos concedeu à repórter Gabriela Longman e as andanças do editor Rafael Belém pelo mais novo espaço brasileiro de arte a céu aberto, no Paraná, e por um edifício paulistano onde uma cena artística está nascendo, além dos destaques da nossa cobertura da temporada de design de São Paulo, com DW! e Expo Revestir.
Enfim, uma edição repleta de caminhos que levam à arte e ao design como modo de vida. O colecionismo que nos interessa, afinal, não é o que trata das cifras, mas o mesmo de Munari. Aquele que se revela acessível, se não pelo preço, pela maneira com que transforma o cotidiano de quem vive circundado por coisas que se comunicam conosco. Boa leitura!





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