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Belo Horizonte,10/04/2026

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Machiya centenária em Kyoto ganha reforma assinada por arquiteta Pritzker

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Machiya centenária em Kyoto ganha reforma assinada por arquiteta Pritzker
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Não se pode chegar de carro a esta machiya, escondida em uma rua exclusiva para pedestres no bairro de Nishijin, em Kyoto, no Japão. Ao se aproximar da residência a pé, em uma noite fria do início de janeiro, é impossível não sentir seu encanto. Ela irradia um brilho acolhedor. A fachada de madeira revela um vislumbre de seus moradores através das ripas. Eles preparam o jantar.
“Estamos tentando tornar a machiya habitável na era moderna”, reflete Sam Brustad, consultor de comunicação neozelandês que se mudou para o Japão há mais de uma década. Ele acaba de tirar um frango assado de seu forno Miele – na época em que a casa foi construída, mais de 100 anos atrás, a comida era feita em uma fogueira. É enquanto Sam e sua parceira, Yuki Shirato, advogada que se tornou empreendedora de tecnologia, aprontam uma refeição requintada em sua elegante ilha de aço inoxidável, que o casal exemplifica como a vida contemporânea pode se desenrolar dentro desse invólucro ancestral.
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Detalhe da sala de jantar exibe louça do período Heian, restaurada com a técnica kintsugi, e espadas dos períodos Kamakura e Edo, tudo sobre aparador da Ritzwell – a tela é de Akiko Kondo
Yoshihiro Makino/Trunk Archive
Machiya, casas de cidade, em tradução livre – ou kyomachiya, neste caso, já que estamos em Kyoto –, são residências tradicionais japonesas caracterizadas por vigas de madeira, paredes de barro e telhas do mesmo material. Por séculos, essas estruturas abrigavam pessoas comuns – frequentemente uma família com cinco ou seis integrantes em uma área não muito diferente desta (aproximadamente 50 m²). Nesse bairro, historicamente conhecido pela produção têxtil, a maioria dos habitantes passava os dias tecendo seda ou outras tramas para quimonos. “Infelizmente, é uma prática em extinção”, conta Shirato, lamentando que muitos moradores considerem as machiya inconvenientes, antiquadas ou caras de manter. Restam menos de 40 mil na província, e centenas são demolidas todos os anos.
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Yoshihiro Makino/Trunk Archive
A casa deles precisava de ajustes, claro. Para revitalizar a morada, recorreram à arquiteta vencedora do Prêmio Pritzker Kazuyo Sejima, cofundadora do escritório Sanaa. Sejima, que não trabalhava em um projeto residencial havia muitos anos, ficou intrigada com a história do edifício e com a perspectiva de uma reforma – a primeira de sua carreira. “Em vez de modernizar a machiya para se adequar à vida contemporânea, estou interessada em como a vida contemporânea pode acontecer dentro da estrutura da antiga machiya”, pontua.
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Isso significava honrar a essência do local – suas paredes de tsuchikabe, feitas de bambu, palha e barro; as vigas de pinho do teto, montadas sem conectores metálicos; a parede da cozinha manchada pela fumaça – ao mesmo tempo em que lhe conferia aquela qualidade etérea e transparente pela qual Sejima é conhecida.
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Na cozinha, destaque para a ilha produzida pela Konbu Brothers
Yoshihiro Makino/Trunk Archive
“Historicamente, a casa teria sido muito escura”, explica Brustad, lembrando-se da forma como o escritor Jun’ichirō Tanizaki descreveu os interiores japoneses em seu ensaio de 1933, Em Louvor às Sombras, escrito quando as luzes elétricas foram acesas em todo o Japão. Tanizaki fez ali um elogio à luz de velas, aos quartos escuros e banheiros externos de madeira, relatando que “somente na penumbra é que a verdadeira beleza dos objetos de laca se revela”.
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Aqui, ao entardecer, é possível ter um gostinho daqueles tempos antigos: o biombo do séc. 19, pintado à mão por Sessa Tsukioka, e as xícaras de estanho do período Edo, usadas para servir saquê, brilham sob a luz baixa. No andar de cima, o quimono com fios de seda tecidos ali perto reluz. Essas relíquias, muitas adquiridas por Shirato em leilão, se misturam a peças modernas, como mesa e cadeiras de Hans J. Wegner, assentos com orelhas de coelho do Sanaa e uma luminária Akari, de Isamu Noguchi, que ilumina a entrada.
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Luminária pendente Akari (ao fundo), de Isamu Noguchi, posicionada conforme orientação da designer de interiores Miya Yoo Faßbender
Yoshihiro Makino/Trunk Archive
No projeto minimalista, porém meticuloso, de Sejima, os moradores são o foco central. “As primeiras reuniões foram todas baseadas em perguntas”, explica Shirato sobre a estreita colaboração entre eles. Teriam animais de estimação? Filhos? O que gostariam de fazer no tempo livre? Brustad é um cozinheiro dedicado, então um espaço para receber visitas era fundamental. Já a prioridade dela era mais pessoal: um banheiro luxuoso nos fundos, acessível por um jardim interno a céu aberto idealizado pela floricultura Mitate.
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O quarto, no andar de cima, tem cama com roupas da Città e um pedaço de seda Nishijin, da Kimono Hojo – na parede, tecido do séc. 20 tingido com caquis
Yoshihiro Makino/Trunk Archive
“Quando estávamos reformando, muitos vizinhos perguntaram se seria um restaurante”, lembra Shirato. A ilha da cozinha, de 4 m de comprimento, é a maior peça já feita para uma residência particular pela metalúrgica local Konbu Brothers, um dos muitos fornecedores artesanais rigorosamente selecionados. Outros foram os carpinteiros, no sudoeste de Kyoto, que construíram uma cama, gaveteiros e escadas de cipreste-japonês, e os artesãos que substituíram as tradicionais telhas kawara. “É muito difícil manter esses ofícios vivos”, pondera a proprietária, explicando que até mesmo o conhecimento vernacular necessário para erguer uma machiya está desaparecendo aos poucos.
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À noite, a casa, com ripas de madeira na fachada, emana uma luz quente e suave
Yoshihiro Makino/Trunk Archive
“Ouviram isso?”, pergunta Brustad, perto do fim do jantar. Há um som de batidas lá fora. “É o hinoyoujin, ou vigília do fogo. Todas as noites as pessoas caminham pelo bairro batendo varas de bambu para lembrar a todos de apagar o fogo.” Poucas famílias ainda acendem fogueiras à noite, mas esse ritual secular persiste. O casal, dois dos membros mais jovens da associação de moradores do bairro, espera, aos poucos, encontrar seu lugar na comunidade.
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Na sala, um biombo do séc. 19, de Sessai Tsukioka, é pano de fundo para a mesa e as cadeiras de Hans J. Wegner e as luminárias pendentes Glo-Ball, design Jasper Morrison para a Flos – na lateral, figuram duas cadeiras do Sanaa para a Maruni, e, no topo da escada, vaso de Ryuta Fukumura
Yoshihiro Makino/Trunk Archive
Para Sejima, era fundamental que a casa – e seus moradores – existisse em harmonia com o contexto. Logo no início, apresentou cinco propostas de projeto, em maquetes de papel. Elas representavam não só a residência em si, mas todas as edificações dos quarteirões vizinhos. Ao estudar os modelos, a arquiteta e seus clientes puderam perceber como a morada se relacionava com a vizinhança. “Ela quer que a construção seja independente”, conta Shirato, “mas que ainda faça parte da comunidade.”
Tradução: Adriana Mori
*Matéria originalmente publicada na edição de março/2026 da Casa Vogue (CV 481), disponível em versão impressa, na nossa loja virtual, e para assinantes no app Globo Mais.
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