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Belo Horizonte,03/04/2026

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A vida em fogo baixo

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A vida em fogo baixo
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Os dias se confundem. O que eu fiz ontem mesmo? Deixa pra lá. Não importa. Situações que antes encantavam ou entristeceram viraram cenas opacas. A sensação é a de que o sopro feliz de uma brisa não nos alcança mais, assim como a melancolia que costumava nublar a paisagem. O que aconteceu com a pele que antes sentia os matizes do viver?


 


Esse sentimento, quando prolongado, tem nome: anestesia emocional. Fogo baixo, sabe? Não tão alto a ponto de queimar o alho enquanto refoga, mas ainda aceso – apenas ali, sustentando o calor enquanto a comida espera, já pronta, e a mesa vai sendo posta, numa operação mecânica.


 


Psicólogo clínico, Marcos Torati explica que a pessoa que se sente assim “perde a dimensão profunda dos erros e acertos, então se torna apenas funcional”. É um estado que não congela o viver, mas suga o sentido da vida. Não por acaso, muitas pessoas se veem presas em uma rotina que “dá certo”, mas não satisfaz. O relacionamento está ok; o trabalho, estável; a família, bem. Mas algo por dentro está amortecido. “Não há tanta alegria, mas também não há grande tristeza a ponto de incapacitar a vida, como na depressão”, esclarece Torati.


 


Importante saber diferenciar uma coisa da outra. “Na depressão, a pessoa ainda sente algo. Nem que seja tristeza, mas sente. Na anestesia emocional, não há necessidade de vínculos. Não há desejo, libido, pulsão de vida. Existe uma grande dificuldade de estar presente no aqui e agora”, afirma a psicanalista Ana Lisboa. 


 


Também há uma diferença sutil, mas importante, entre uma apatia passageira e a anestesia emocional. A primeira costuma estar associada a um evento reconhecível, como o fim de um relacionamento, uma demissão no trabalho ou o estresse da rotina. Situações que ainda não foram processadas ou elaboradas. A segunda, por sua vez, é mais traiçoeira. Parece surgir “do nada”.


 


Psicanalista e idealizadora do Instituto Kleiniano de Psicanálise (IKP), Tássia Borges ressalta que, no fundo, a anestesia emocional é construída como um escudo formado para que nada mais atinja algo que já está fragilizado. “É uma forma de evitar frustração ou desprazer.” Esse sentimento tem relação com contextos individuais, mas também coletivos – como as guerras, cujas bombas explodem longe de nós, enquanto seus “estilhaços” atravessam a tela do celular e perfuram o nosso emocional. “Desde a pandemia, vivemos grandes choques duros e traumáticos. Nesse sentido, a anestesia emocional também é uma forma de resposta”, observa Tássia.


 


Evitar sentir os dissabores como forma de proteção, no entanto, pode ser justamente o que nos leva a um quadro depressivo. Evita-se o sofrimento e, também, a vida em suas potencialidades


 


Uma hora transborda


 


Veja que paradoxal. A proteção que erguemos para nos blindar dos dissabores é a mesma que nos impede de estabelecer um contato mais “ardente” com os acontecimentos. “A pessoa entra nesse estado emocional para se defender contra a possibilidade de se frustrar. Porém, é justamente essa defesa contra a dor que pode levar para uma depressão”, afirma Torati. “É como colocar a vida no modo econômico para evitar o sofrimento, mas isso impede de viver com intensidade.”


 


Levar a vida em “fogo baixo” é um sintoma que pode ser causado por diversos motivos, inclusive traumas de infância que em algum momento transbordam. “Se uma criança enfrentou mudanças constantes, bullying, violência, perdas – qualquer experiência que abalou profundamente sua estrutura emocional e não teve suporte suficiente – o cérebro cria um mecanismo de sobrevivência que permanece”, explica Ana.


 


A vida se desenrola na superfície dos dias, porém, no subsolo, esses registros dolorosos continuam se movendo feito magma debaixo da terra. Até que um dia são reativados e eclodem, seja por causa de uma rotina exaustiva, de estímulos em excesso ou situações que exigem defesa. “O cérebro entende que precisa se proteger novamente. Não por escolha, mas para não colapsar”, ressalta a psicanalista.


 


Se olharmos com mais atenção para essa dinâmica, vamos perceber que, em nossa sociedade hiperconectada e baseada em produtividade, essa sensação é cada vez mais comum. “Antes acontecia diante de traumas intensos ou fortes impactos emocionais. Hoje, porém, é quase corriqueiro. Resultado do excesso de estímulos, de informação e da constante sensação de ameaça que o nosso sistema neurológico interpreta como se estivéssemos o tempo todo cercados por predadores dos quais precisamos fugir ou lutar”, ela acrescenta.


 


Reaprender a sentir


 


Entre se conformar com a mornidão e achar que a zona neutra é o seu território “natural”, há uma terceira opção: interpretá-la como um pedido silencioso de ajuda. De acordo com os especialistas, o caminho de volta para uma vida acesa – ou seja, com propósito e bem-estar emocional – costuma passar por três áreas: expressão, relação e ação.


 


A expressão pode ser recuperada pela arte: desenhar, escrever, cantar, dançar ou tocar um instrumento abrem pequenas brechas na couraça emocional. “É fundamental conseguir se conectar com alguma dimensão artística de forma profunda e, ao mesmo tempo, com sua própria profundidade”, ressalta Torati.


 


No consultório da psicóloga e arteterapeuta Anna Paula Rodrigues Mariano, os pacientes se deparam com tintas, lápis de cor, giz de cera, canetinhas, argila e papéis coloridos. Não são obrigados de forma alguma a interagir com esses materiais, mas, se quiserem, podem passar pela experiência de driblar o racional e deixar os sentidos responderem livremente ao contato com o universo lúdico.


 


Deixe o julgamento de fora. A gente não vai pensar, analisar, criticar. A gente vai sentir”, ela orienta. Mas, antes, a profissional conduz um breve exercício de respiração, alongamento ou visualização para que o corpo tome a frente do processo. “A arte acolhe tudo: o feio, o belo, o organizado, o confuso, o familiar. E o que a pessoa está sentindo ganha materialidade, sem que ela precise explicar ou buscar coerência”. Uma coisa é falar sobre algo; outra é ver surgir uma escultura, uma colagem, um desenho e se reconhecer naquela criação, que não tem relação alguma com técnica ou estética. Nesse momento – ou dias depois –, insights podem brotar. “Não necessariamente eles são racionais. Vêm de outro lugar. Justamente porque as sensações foram reativadas. A arte ativa nossos órgãos do sentido antes do discurso”, ela frisa


 


O caminho de volta para uma rotina acesa pode estar na prática de uma expressão artística, no cultivo das relações genuínas e nas nossas ações que convocam o novo. Eis a chama pulsante do viver


 


Na visão de Anna Paula, pessoas que estão vivendo em temperatura morna, em geral, perderam a perspectiva de autoria em relação à própria história. A arte, nesse contexto terapêutico, reacende uma faísca e nos põe para nos relacionar com o mundo sensível. “Na Medicina Tradicional Chinesa, o calor é o que faz a energia circular. Então, esse fogo interno que se reacendeu simboliza o retorno das emoções em movimento, a capacidade de se afetar pelas coisas, de estar no mundo de um jeito mais inteiro, com todos os seus matizes”. 


 


A psicóloga se lembra de uma paciente que, no início, percebia a vida como “indo bem”, mas insossa. Combinaram que começaram cada sessão com uma atividade: ela pintaria uma parte de uma folha grande e só depois conversariam – sem ter que se explicar sobre o que tinha feito. No começo, ela sempre escolhia tons de bege e cinza. “Tranquilizadores”, dizia. “À medida que ela foi preenchendo o restante do papel ao longo das sessões, passou a se incomodar, achando aquilo sem graça”, lembra Anna Paula. Em seguida, a paciente convidou um azul forte, depois riscou um traço amarelo no canto da folha. Achou bonito. “A partir dali o processo dela passou a se transformar. Ela começou a trazer um encantamento por coisas simples. O cheiro do café, a música que a filha escutava. Foi se sentindo mais viva”.


 


A segunda chave para a mudança de temperatura emocional está nas relações – no entanto, apenas naquelas que são genuínas. Amizades que acolhem verdades e alimentam conversas caudalosas. Nesses momentos, é interessante procurar conexões sociais autênticas, em que a outra pessoa também consiga abordar assuntos profundos, para além da superficialidade do cotidiano. Esses vínculos precisam ter uma dimensão mais íntima para que a pessoa sinta que seus laços sociais acessam o que está desconectado. 


 


“É preciso rever as amizades, os afetos e as modalidades de relação. As trocas podem ser felizes e eufóricas em alguns momentos, mas também precisam ter uma camada mais complexa e profunda, em que seja possível discutir, conversar e mapear outros tipos de interações e formas de socialização que envolvam alguma esfera existencial”, orienta o psicólogo.


 


E, por fim, a ação: fazer algo novo, quebrar a repetição da rotina, se doar. Às vezes, uma mudança pequena pode abrir espaço para uma nova maneira de ver e experimentar a vida. “É necessário se alimentar de novos horizontes”, indica Torati. Dentro desse espectro, há diversas opções, como adotar um animal de estimação, mudar a decoração de casa, alterar o caminho até o trabalho ou começar a estudar algo que sempre sonhou. Certas faíscas reacendem a intensidade da vida. Confiemos nelas.


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