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Belo Horizonte,12/07/2026

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Ângela Barbosa Dias

Os Desdobramentos da Maternidade - Cap 09

Arquivo Pessoal
Os Desdobramentos da Maternidade - Cap 09 Lorenzo - Arquivo Pessoal

Virando a página  de 2020, iniciamos o novo ano renovando nossas esperanças  e ansiosos  com a resposta do tratamento  da Radioterapia, nesse processo depositamos nossas  expectativas em  dias  melhores na nossa família.


Atravessar  todas essas esperas, me fez potencializar minha fé, principalmente pela presença amorosa de Nossa Senhora,  que sempre foi meu refúgio quando  o fardo estava pesado e eu não conseguia carregar sozinha, minha arte de maternar estava  pautada no amor mais sublime e puro desse exemplo de  mãe.

Enfim,  chegou o dia da consulta  com o Radio Oncologista, levamos a Ressonância  Magnética  realizada em dezembro, aqueles momentos em  que o médico examina  e não fala nada, o coração ficou amedrontado pela incerteza, eu elevava minha  oração a Deus,  pedindo que tudo tivesse dado certo. Depois de algum tempo  o médico disse que ocorreu a regressão  do tumor com o  tratamento  da Radioterapia.

Meu Deus, ouvir aquela  notícia  tão  aguardada deixou nossos corações  aliviados, ficamos gratos por todos  que rezaram pelo nosso  pequeno, ali iniciávamos o novo capítulo de esperança  e gratidão.

Aquele resultado  nos trouxe sobrevida e força para continuar, embora sabíamos que Lolô precisaria  de cuidados , aquele momento fortaleceu toda nossa fé e confiança  que nosso pequeno seria curado.

Nesse período, resolvemos  levar nosso pequeno para passear então ele pediu para ir à praia , a mamãe  encheu de protetor, chapéu, camisa,  tudo para proteger  do sol por causa dos efeitos  da Radioterapia.  Foi um dia incrível  de brincadeiras  na areia, interação ao ar livre, catar conchinha com o irmão.... compartilhamos momentos encantadores em família.

Desfrutando de dias mais leves, o papai do Lolô teve uma grande ideia nesse período  de férias, tirar uns dias para viajarmos, com muita cautela e cuidado reservamos uma casa,  com muitas sombras  para colocar uma piscina para  o Lolô e o Henzo brincarem com segurança, protegidos do sol . Curtimos momentos mágicos, com ganhos emocionais inestimáveis, criando memórias  duradouras e significativas dessas riquezas que chamamos de FILHOS.

Permitindo-nos viver momentos prazerosos, cumprimos a promessa de fazermos um delicioso piquenique, pois quando o Lolô estava internado, a janela do seu quarto dava para a Quinta da Boa Vista e lá ele via  o colorido da infância, crianças correndo, brincando, andando de bicicleta e seus olhos fixavam naquelas imagens, então resolvemos levá-lo para fazer  esse passeio,  preparei todas suas guloseimas  preferidas e  foi um  dia notável, ficamos ali bem juntinhos, mamãe, papai e filhinhos, aproveitando, rindo, saboreando as delícias, como qualquer família comum... essas pequenas pausas enriqueceram o repertório  de amor , união e  felicidade.

Impulsionados pelo resultado  da Radioterapia  e respirando com  mais confiança,  que tudo  voltaria aos poucos, renovamos a matrícula  do Lolô na escola e compramos seu material escolar  para ele iniciar o pré 2, pois a eu, sua mamãe, o estava alfabetizando em casa, aquele  canhotinho era muito inteligente e esperto.


Seguindo  o  tratamento  com os especialistas, a Oncologista  pediu   para irmos  ao  endocrinologista  para iniciar o processo de desmame do Corticoide, por ser uma medicação  controlada tinha todo um protocolo para diminuição e retirada do remédio.

Fomos então na consulta com esse médico que fez todo um planejamento  para iniciar esse procedimento, ficamos muito aliviados com essa nova fase, pois  essa medicação  causava um inchaço  extremo, principalmente  no rosto, no abdômen e nas pernas, pela retenção  de líquidos.

Lolô foi muito afetado pelo aumento de peso, trazendo mudanças bruscas da sua personalidade e  aparência .

Fortalecidos com o processo de cura, ao iniciar a diminuição do Corticoide , percebemos que Lolô voltou apresentar uma dificuldade do lado direito,  uma fraqueza motora (braços e pernas) afetando sua mobilidade, logo entramos em contato com a Oncologista  que precisou retomar a quantidade anterior do Corticoide  e encaminhou o Lolô para Fisioterapia para melhorar seus movimentos de pernas e braços. Logo conseguimos um espaço de fisioterapia.

Assumindo todo desafio de cada etapa, estávamos atentos  e cuidadosos com a saúde do Lolô. Apesar de demonstrar algumas limitações, nosso pequenino era uma alegria pela casa, sempre envolvido nas aventuras com o irmão, fazendo muitas estrepolias e bagunças, aquele cenário  enchia nossos corações  de esperança.

Mas em 16 de fevereiro de 2021, senti que a vida se perdeu dos trilhos, Lolô  sempre que acordava chamava a mamãe e logo descia  da cama, nesse dia senti que algo estranho estava acontecendo. 

Quando cheguei no quarto, que fui pegar ele no colo senti seu corpinho diferente, perguntei se ele queria mingau, mas ele não conseguia falar, levei para sala no colo, quando fui colocar sentado percebi que ele caia, peguei o mingau  mas ele não conseguiu comer, o mingau escorria pela sua boca.

Naquele instante estava sozinha, o papai tinha ido ao mercado .

Eu com ele nos meus braços não entendia  o que estava acontecendo, uma angústia invadiu todo meu ser, eu só fiquei abraçada com ele e pedindo  que Nossa Senhora cuidasse dele.

A minha paz foi novamente roubada, vê-lo tão debilitado  era duro e desumano demais

Tentando entender aquela situação, assim que o papai do Lolô  retornou, entramos em contato com a oncologista,  que  pediu para levarmos ele   para emergência. Ela não estava  de plantão, mas ia entrar em contato  com o médico  responsável e passar o caso do  Lolô, já que ele era paciente daquela Unidade Hospitalar. 

Quando chegamos, ele realizou  uma tomografia para saber se o problema era da Válvula, fez outros exames, mas ainda não tinha uma resposta exata sobre aquele quadro em que ele se encontrava.

Lolô foi liberado pelo profissional  da emergência  para irmos ao consultório  do Neurocirurgião  para fazer a verificação  da  Válvula.

Desalentados pela falta de uma resposta, aguardávamos a ida ao Neurocirurgião,  depositando toda nossa esperança  que pudesse ser alguma intercorrência  da Válvula, seguíamos cuidando do Lolô do meu jeito maternal, voltou  a usar fraldas, adaptamos uma cadeira para o banho, providenciamos um  prato que mantivesse a comida quentinha, porque ele levava mais de uma hora para comer, tinha que ser bem devagar, porque ele não conseguia deglutir  e para beber também era com um copinho de poucos furinhos para ele não se engasgar. Era uma nova realidade, mas não faltava amor e paciência  para nosso pequeno.

Naquele novo contexto, fizemos alguns ajustes para cuidar do nosso pequeno, o papai além de cuidar das suas responsabilidades  começou também  a cozinhar e cuidar de todo serviço de  casa, a mamãe  cuidava exclusivamente  das novas demandas  do Lolô e o irmão estava sempre por perto auxiliando no que  fosse preciso.

No meio  daquele caos criamos uma rede de apoio  mútuo, onde partilhávamos os sentimentos  mais profundos  da essência  do amor, aprendendo a valorizar o significado  da vida.

Redescobrindo  o novo jeito de seguir, fomos à consulta com o Neurocirurgião  que fez toda a verificação  e disse que não tinha nenhum problema  com a Válvula,  ela estava em funcionamento. 

O médico  solicitou uma nova Ressonância  Magnética  para verificar  o Tumor.

Retornamos para casa, angustiados, ainda sem respostas. No dia seguinte Lolô tinha consulta com a Oncologista.

Fragilizados, sem uma resposta  clara do que estava acontecendo  e vendo nosso pequeno daquele jeito muito mais afetado do que  no  inicio dos sintomas, fomos à consulta com a Oncologista que disse que havia uma possibilidade  de ter ocorrido uma progressão da doença, que é quando o tumor volta a se desenvolver no local ou nas áreas próximas,  que era necessário  a Ressonância  Magnética  para fazer  a verificação.

Naquele instante, aquelas  palavras  surtiram como punhal no meu peito, eu vi minha maternidade  passar diante aos meus olhos, como uma interrupção dos meus sonhos, dos meus planos e a projeção do futuro, ali segurando Lolô  no meu colo, foi uma dor  sucumbida no meu  coração, senti uma miséria  emocional e um desamparo da minha própria coragem. Respirei e reformulando toda minha esperança, não ia desistir do meu filho, mesmo que aos olhos da medicina a possibilidade de cura fosse menor.

Mesmo ao ouvir todas aquelas informações dolorosas, minha grande preocupação  era cuidar dele, principalmente alimentá-lo, já que ele não conseguia deglutir  nada inteiro. A Oncologista  sugeriu colocar uma sonda gástrica  para ele se alimentar, era o procedimento de praxe.  (Sonda gástrica  é um dispositivo  médico inserido no estômago  para fornecer a nutrição). 

Eu recusei, era agressivo demais, eu iria  continuar alimentando bem devagar e com muito cuidado. Ela pediu que eu procurasse uma fonoaudióloga que me ajudaria nessa questão alimentar e exercícios  para deglutição, e um fisioterapeuta para reabilitação  da mobilidade  e um fisioterapeuta pulmonar,  por ele ficar mais deitado.

Nossa família  estava muita comprometida e resiliente a todas orientações  médicas  para atender as necessidades  do nosso pequeno...

Assim, buscamos esses profissionais  e demos  início a essa nova fase com atendimento  a domicílio, com muito cuidado ainda com a Covid, nosso pequeno necessitava desses serviços.

A alimentação  era o que mais me preocupava, foi necessário  fazer algumas mudanças para atender as exigências  nutricionais do nosso pequeno. Tínhamos uma programação bem rígida  com sua dieta, era preciso acordar  de madrugada para dar seu mingau que ele amava, mamãe colocava para ele ver seus desenhos  preferidos, esse processo era bem demorado, mas era tanto amor envolvido que não nos dávamos  conta do tempo, vê-lo sorrir  e se alimentar era meu presente diário. 

Chegou  o dia da Ressonância  Magnética, ele fez o exame, agora 

era necessário  aguardar o resultado.

Reunindo forças , para continuar, tentávamos manter a infância  do nosso pequeno  Lolô viva,  ele não conseguia pegar mais nenhum brinquedo, ele sempre brincava no quarto com o irmão, então  colocávamos ele  sentadinho, apoiado e o Henzo na sua pureza de alma, interagia com ele e arrumava um jeito do irmão participar da brincadeira, era  apaixonante a interação deles através do olhar e das gargalhadas, aquela imagem era memorável para minha maternidade .

Após  dias de espera, fica pronto o laudo da Ressonância  Magnética, o papai do Lolô foi buscar o resultado  e de lá  ele levaria ao Neurocirurgião. 

Ao retornar, as notícias  foram aterrorizantes e cruéis  demais para nossa família, o tumor havia voltado a crescer,  numa área  bem próxima onde havia iniciado anteriormente.

Devido a essa realidade, foi que desencadeou o quadro atual do Lorenzo e que ele não poderia realizar mais sessões da Radioterapia,  até pelo seu estado  de saúde .

Tomar  ciência  dessas circunstâncias tão penosas foi avassalador, eu  precisei colocar tudo que passava no meu coração  nas mãos de Deus, eu e o Lolô rezávamos toda noite, eu o ensinei a pedir  a Nossa senhora : "Mãezinha  do Céu me cura', por mais que naquele momento parecia estarmos desamparados  e abandonados, eu tinha certeza que Deus estava caminhando conosco e  por amor àquele menininho eu continuaria firme na minha maternidade com fé e esperança.

Tempos difíceis demais, começamos  a ver o corpinho do nosso pequeno perder as forças, em alguns momentos não conseguia fazer suas necessidades, eu ligava a tv e percebia que ele não assistia mais com aquela alegria,  eu como mãe estava vendo a vida do Lolô escapar pelos meus dedos e nada eu poderia fazer, era um sofrimento que não cabia em mim, por outro lado precisei enfrentar a revolta  do papai do Lolô, que dizia que não era justo tudo que estava acontecendo com o nosso filho.

Por que Deus estava fazendo isso com uma mulher de fé? Eu buscava compreender  e acolher sua dor, porque sabia que como pai, se sentia impotente naquela situação, porque quando recebemos o não de Deus  é preciso muita maturidade  para entender e aceitar, não era fácil  para mamãe também, mas eu tinha certeza que no silêncio  do meu coração, minhas preces chegavam ao céu  e que Deus estava cuidando de tudo onde eu não poderia  mais cuidar.

Gerenciando toda aquela situação, nossa dedicação  era toda voltada para nosso pequeno, resolvemos levá-lo para ver o mar, um lugar que ele tanto amava e recordar nossos passeios em família.

Mas em  23 de abril de 2021, parecia um dia normal, à tarde  Lolô dormiu e quando eu o acordei para dar sua janta, o papai mostrou para ele a sua  sobremesa preferida, e como ficou tão feliz, a mamãe antecipou, quando estava  comendo, Lolô deu um grito muito forte , que me deixou  muito assustada, pensei que tivesse se engasgado, mas não era, foi um desespero , eu e o pai colocamos ele no carro fomos para emergência  mais próxima. 

Ao chegar entramos com ele correndo pela emergência  Pediátrica, imediatamente ele foi atendido. Meu Deus  o que estava acontecendo?  Eram muitas perguntas rodeadas de medo, angústia e desespero.

Ali naquele hospital  percebi  a insignificância  da minha maternidade,  quando não pude evitar aquele sofrimento  que ele estava passando, de coração  esmagado  só pedia Nossa Senhora que cuidasse dele por mim.

Termino esse capítulo com o coração  dilacerado por uma dor insuportável, minha maternidade parecia ser arrancada do meu peito à força, apesar de tudo que estava passando, pedia que Nossa Senhora permanecesse comigo, me dando coragem  para continuar cuidando do meu  pequeno naquele hospital, que não me faltasse  confiança  no amor de Deus sobre minha família  e sobre o que estava por vir.









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