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Belo Horizonte,22/09/2026

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Conheça a Manchita, oncinha que já cruza fronteiras entre Brasil e Argentina

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Conheça a Manchita, oncinha que já cruza fronteiras entre Brasil e Argentina


Manchita é uma onça-pintada jovem que já cruza fronteiras entre Brasil e Argentina
Uma nova onça-pintada começa a ganhar espaço no monitoramento realizado na região do Parque Nacional do Iguaçu. Manchita, uma jovem de cerca de um ano e meio e filha de Kunumi, uma fêmea que circula entre Brasil e Argentina, foi registrada pela primeira vez em território brasileiro e já protagonizou uma cena curiosa diante das câmeras.
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No vídeo, a jovem se aproxima de uma árvore e cheira atentamente o local. Depois, ergue a cabeça, mantém a boca ligeiramente aberta e faz uma expressão que pode parecer estranha para quem observa. O comportamento, no entanto, tem uma explicação bastante precisa.
Manchita estava fazendo o chamado reflexo de Flehmen, uma estratégia utilizada por diversos mamíferos para investigar sinais químicos presentes no ambiente. Naquele ponto, havia passado no dia anterior outra fêmea, a Uayara.
Segundo Yara Barros, bióloga, doutora em Zoologia e coordenadora executiva do Projeto Onças do Iguaçu, o comportamento ajuda o animal a direcionar as moléculas presentes no odor para o órgão vomeronasal, estrutura especializada na percepção de sinais químicos.
“Essas marcas funcionam como uma espécie de ‘recado químico’.”
Por meio desses sinais, uma onça pode obter informações sobre o sexo, a identidade e a condição reprodutiva de outro indivíduo. Os odores também podem indicar se determinada onça passou recentemente pelo local e se aquele ponto costuma ser utilizado com frequência.
“Como são animais predominantemente solitários, essa comunicação permite que troquem informações sem precisar estar no mesmo lugar ao mesmo tempo”, explica Yara.
Machita é uma onça-pintada jovem que já cruzou a fronteira entre Brasil e Argentina.
Projeto Onças do Iguaçu
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Um cheiro que conta uma história
A duração desses sinais no ambiente não é exata. Ela depende de fatores como o tipo de marcação, que pode envolver urina, fezes ou secreções glandulares, além da superfície onde o odor foi deixado e das condições do tempo.
Chuva, sol, temperatura, umidade e circulação do ar podem acelerar o desaparecimento do cheiro. Em locais mais protegidos, algumas substâncias podem continuar detectáveis por vários dias e possivelmente até semanas. Ainda assim, existe um limite para o que a ciência consegue decifrar a partir dessas pistas.
“Sabemos que os odores carregam diferentes informações, mas ainda não conseguimos determinar com precisão tudo o que uma onça é capaz de ‘ler’ em cada marca”, ressalta a pesquisadora.
Manchita estava fazendo o chamado reflexo de Flehmen
Projeto Onças do Iguaçu
O reflexo de Flehmen também não é exclusividade das onças-pintadas. O comportamento aparece em diferentes mamíferos, principalmente entre felinos, como pumas, tigres e até gatos domésticos. Também pode ser observado em cavalos, bovinos, cabras, cervos e antílopes.
Nos cavalos, o movimento costuma ser bastante evidente, com o animal levantando o lábio superior. Nas onças, a reação é mais discreta e envolve a boca ligeiramente aberta, o focinho franzido e a cabeça erguida.
Uma fronteira que não existe para a onça
O registro de Manchita também chama atenção por outro motivo. A jovem não está apenas seguindo os rastros químicos de outra onça. Ela também está utilizando uma paisagem que ultrapassa a fronteira entre Brasil e Argentina.
De acordo com Yara, pelo menos 11 onças já são conhecidas por terem utilizado áreas dos dois países na região. O Rio Iguaçu, que poderia parecer uma barreira natural, não impede o deslocamento desses animais.
“As onças nadam muito bem e atravessam o rio quando se deslocam pela paisagem”, explica.
Manchita, uma jovem de cerca de um ano e meio e filha de Kunumi, uma fêmea que circula entre Brasil e Argentina
Projeto Onças do Iguaçu
Por enquanto, um único registro não permite determinar toda a área de vida de Manchita. O que ele confirma é que a jovem já utiliza o lado brasileiro da paisagem.
As onças que vivem nessa região não formam populações isoladas em cada país. Elas fazem parte de uma mesma população, distribuída por uma área compartilhada entre Brasil e Argentina. Essa conexão é importante para que os animais encontrem alimento, áreas adequadas e parceiros reprodutivos, além de favorecer o fluxo genético.
Por isso, acompanhar os deslocamentos desses animais é também uma forma de entender como os dois lados da fronteira estão conectados para a espécie.
Filha de Kunumi
Manchita pode ainda ter uma relação especialmente próxima com essa paisagem por causa da mãe. Kunumi já é conhecida por circular entre Brasil e Argentina e, agora, a filha começa a aparecer do outro lado da fronteira.
O comportamento, porém, não significa necessariamente que Kunumi tenha ensinado deliberadamente a filha a atravessar de um país para outro.
Nas onças-pintadas, as fêmeas costumam apresentar filopatria, tendência de estabelecer a própria área de vida próxima à área materna depois de se tornarem independentes. Durante o período em que acompanham a mãe, os filhotes também podem se familiarizar com caminhos, áreas de caça, locais de descanso e pontos seguros de deslocamento.
“Como Manchita é filha de Kunumi, que já circula entre Brasil e Argentina, é possível que ela permaneça nessa mesma região e utilize parte da paisagem conhecida durante o período em que acompanhava a mãe”, explica Yara.
Os machos, por outro lado, costumam se dispersar por distâncias maiores.
O acompanhamento dos próximos registros será importante para descobrir se Manchita vai realmente estabelecer sua área de vida nessa região e até que ponto seus caminhos vão coincidir com os da mãe.
Enquanto isso, a jovem já deixou uma pista interessante para quem acompanha sua história. Entre uma margem e outra do Iguaçu, uma árvore e seu cheiro podem ser suficientes para revelar que outra onça esteve ali. E, agora, as câmeras também mostram que Manchita chegou para fazer parte dessa história.
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