O vínculo que a IA não cria
Quando algo incomoda, a primeira coisa que muita gente faz é pesquisar. Antes era o Google, agora é cada vez mais a IA. A diferença é que a IA não devolve uma lista de links para avaliar, ela conversa, adapta a linguagem, usa um tom acolhedor, responde ao contexto do que foi dito. Isso cria uma experiência que se parece muito mais com um diálogo do que com uma busca.
Isso confunde, principalmente quando o que você mais precisa é só ser ouvido. Não, a máquina não está te ouvindo e por mais que pareça depois que ela te responde validando qualquer coisa que você disse, não é igual falar com alguém.
Parecer compreendido e estar sendo acompanhado clinicamente são experiências completamente distintas.
Carolina Mattos é psicóloga e neuropsicóloga, e trabalha com essa fronteira no dia a dia. Para ela, a sedução da IA nesses contextos tem uma lógica clara: “A inteligência artificial acrescenta algumas características bastante sedutoras: está disponível imediatamente, não demonstra impaciência, não constrange, não se ofende e responde de maneira organizada e, muitas vezes, acolhedora. Para alguém que tem medo de julgamento ou dificuldade de compartilhar determinadas experiências com outras pessoas, esse espaço pode parecer especialmente seguro.”
A credibilidade de uma boa resposta
A IA consegue organizar informações e apresentar uma interpretação de forma bastante convincente, o que pode fazer com que ela pareça mais confiável do que deveria.
Carolina explica o impacto: “Uma resposta coerente, empática e muito bem formulada pode transmitir uma sensação de autoridade que não significa necessariamente que aquela interpretação seja adequada àquela pessoa. Em saúde mental, uma mesma frase pode ter significados completamente diferentes dependendo da história, do contexto familiar, dos vínculos, das experiências anteriores, do funcionamento psíquico e do momento clínico de quem a pronuncia. A IA trabalha com aquilo que lhe é contado. O profissional trabalha também com aquilo que observa, investiga, confronta cuidadosamente e acompanha ao longo do tempo.”
O que a IA recebe é sempre uma versão editada da experiência. A pessoa escolhe o que contar, como enquadrar, quais partes incluir, a ferramenta não acompanha a pessoa fora daquela interação nem tem como observar aspectos da experiência que não foram relatados.
“Quando estamos emocionalmente fragilizados, nem sempre procuramos apenas compreender uma situação. Às vezes procuramos confirmação para aquilo que já acreditamos. Uma pessoa pode apresentar uma história a partir de uma única perspectiva e receber uma resposta aparentemente coerente com aquela narrativa. Isso pode fortalecer interpretações equivocadas sobre si mesma, sobre um relacionamento ou sobre outras pessoas”, observa Carolina.
Na psicoterapia, o papel do profissional não é fazer a pessoa se sentir confortável o tempo todo. “Em determinados momentos, cuidar também significa formular perguntas difíceis, apontar contradições, trabalhar resistências e ajudar a pessoa a enxergar aspectos que ela própria ainda não consegue perceber. Acolher não é concordar com tudo. E terapia não é apenas oferecer respostas.”
Esse é um limite que nenhuma versão mais avançada da tecnologia resolve, porque a IA responde ao que recebe, não ao que contradiz ou se repete sem que a pessoa perceba.
O vínculo cresce com o tempo
Uma das dimensões menos visíveis da psicoterapia é o que acontece ao longo do tempo, não em cada sessão isoladamente, mas no acúmulo delas.
Carolina descreve isso de um jeito que muda a forma de pensar sobre o que o acompanhamento profissional oferece: “O psicólogo percebe mudanças que não aparecem apenas nas palavras: pausas, silêncios, repetições, contradições, mudanças no comportamento, na maneira de narrar determinados acontecimentos e na forma como aquela pessoa estabelece vínculos. Além disso, existe algo muito importante: o terapeuta não conhece somente a crise daquele dia. Ele acompanha processos. Às vezes, uma fala que isoladamente parece pequena adquire enorme importância quando colocada ao lado de meses de acompanhamento.”
Nenhuma IA realmente te conhece. Imagine que semana passada, durante uma sessão de terapia você desabou ao comentar sobre um tópico que você nem sabia que era tão sensível. Na próxima sessão, sua terapeuta vai se lembrar disso, vai se lembrar do seu rosto, do seu soluço, do que ela sentiu perante isso, e esse tipo de experiência que constrói o vínculo entre profissional e paciente.
Com qualquer IA, mesmo que ela revisite suas outras conversas e guarde na “memória” o que você disse, cada interação tende a começar do zero. O que se perde aí é a possibilidade de alguém perceber o que você não consegue ver em si mesmo.
Carol chama atenção para o risco do alívio imediato causar a impressão de que o problema já está sendo tratado. “Se conversar com a IA proporciona alívio imediato, a pessoa pode ter a impressão de que já está cuidando do problema. E pequenos alívios sucessivos podem postergar a procura por tratamento, especialmente quando o sofrimento exige acompanhamento profissional. É semelhante à diferença entre aliviar momentaneamente um sintoma e investigar aquilo que está produzindo esse sintoma. O alívio tem valor. Mas nem sempre significa transformação.“
Conexões reais são insubstituíveis
Carolina não descarta o uso da IA em todos contextos que envolvem saúde mental. Se você gosta de conversar com ela, converse. Às vezes até desabafar ou usar como um auxílio para organizar seus pensamentos. Mas nada disso substitui uma conversa com outra pessoa, e muito menos uma sessão de terapia.
A razão mais profunda para isso está no que ela descreve sobre como a psicoterapia funciona: “Nós nos constituímos nas relações e também podemos nos transformar através delas. Em psicoterapia, não é somente o conteúdo daquilo que o psicólogo diz que produz mudanças. A própria experiência de estabelecer uma relação segura, experimentar confiança, reconhecer padrões relacionais, lidar com frustrações e construir novas formas de se relacionar também faz parte do tratamento. Há momentos em que alguém não precisa de uma resposta perfeita. Precisa ser visto em sua complexidade.”
“Estou utilizando essa ferramenta para ampliar meu cuidado ou para substituir relações e cuidados que eu preciso?”
A tecnologia pode ser uma ponte. O problema começa quando acreditamos que a ponte é o destino.
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