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Belo Horizonte,19/08/2026

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Projeto oferece cursos profissionalizantes e apoio para pessoas em situação de rua no Centro do Rio

g1.globo.com
Projeto oferece cursos profissionalizantes e apoio para pessoas em situação de rua no Centro do Rio

Programa capacita pessoas em situação de rua do Rio para voltarem ao mercado de trabalho
Depois de passar um período vivendo nas ruas e enfrentar dificuldades para conseguir emprego, Célio Aparecido de Souza, de 50 anos, encontrou na Casa Franciscana, no Centro do Rio, apoio para recomeçar. Ele conseguiu um abrigo, regularizou documentos, encontrou trabalho como pedreiro e agora voltou a estudar. Nesta segunda-feira (17), Célio começa um novo curso: o de garçom, oferecido pelo projeto Trilhas da Autonomia – Das Ruas para a Cidadania.
O projeto, realizado pelo Sefras – Ação Social Franciscana em parceria com a Petrobras, por meio do Programa Petrobras Socioambiental, oferece qualificação profissional gratuita para pessoas em situação de rua e busca criar caminhos para a inclusão no mercado de trabalho.
"Melhorar mais, é isso aí. Eu tenho vários cursos também na minha vida. Então isso é bom, pra gente estar sempre fazendo, sabe? Pra manter a autoestima da gente", conta Célio.
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A proposta vai além da formação profissional. Os participantes também recebem acompanhamento psicológico, social e pedagógico antes, durante e depois dos cursos. A ideia é identificar dificuldades individuais e articular outros serviços da rede de atendimento quando necessário.
"Obviamente que assim, a gente uns vai precisar segurar na mão e ir caminhando com os outros, outros eles vão parar no meio do caminho e a gente vai voltar com eles do zero e dá tudo certo. O importante é eles entenderem que eles não estão sozinhos", explica Taysa Nascimento, coordenadora da Casa Franciscana.
Da rua ao mercado de trabalho
A primeira turma do Trilhas da Autonomia terá dez participantes, oito homens e duas mulheres, com idades entre 30 e 45 anos. O curso de garçom terá duração de dez dias. Além das técnicas da profissão, os alunos terão aulas de habilidades socioemocionais, trabalho decente e educação financeira.
Para a pedagoga social e psicopedagoga Daniela Matos, responsável pelo desenvolvimento do conteúdo dos cursos, a formação foi pensada para ir além da capacitação técnica.
"Não é um curso pura e simplesmente pelo conteúdo. A gente está pensando na formação dessas pessoas. Como essa pessoa vai sair desse curso para voltar para o mercado de trabalho", explica Daniela.
Os cursos foram elaborados levando em consideração as características do território onde o projeto funciona e a diversidade de formação dos participantes. A metodologia é inspirada na educação popular de Paulo Freire e prioriza atividades práticas.
"São pessoas que vivem nesse território, onde a gente tem muita a questão da gastronomia e hotelaria. Pensando nisso, vieram os cursos", afirma Daniela.
Segundo ela, os conteúdos também foram adaptados para participantes com diferentes níveis de escolaridade, com materiais acessíveis e aulas que priorizam atividades práticas e vivências do dia a dia para facilitar o aprendizado.
Preconceito e falta de endereço são barreiras
Mesmo com qualificação, conseguir um emprego pode ser um desafio para quem vive ou já viveu em situação de rua. Segundo Taysa, o preconceito, a falta de um endereço fixo e a dificuldade de acesso a ferramentas digitais estão entre os principais obstáculos.
Hoje, por exemplo, grande parte dos processos de contratação é feita pela internet e a Carteira de Trabalho é digital, o que pode dificultar o acesso de quem não tem equipamentos ou conexão.
"O acesso também ao digital é um complicador, porque hoje a carteira de trabalho é digital, tudo é digital, e eles não têm. Isso dificulta", afirma Taysa.
A falta de um endereço considerado "convencional" também pode pesar na contratação. Segundo ela, algumas empresas ainda têm dificuldade em aceitar o endereço de um abrigo ou de um serviço de acolhimento.
"O endereço a pessoa está acolhida, está no pernoite, está em um abrigo. Tem empresa que não vê isso como algo bom, sabe? Como uma residência, não considera", explica.
Para a coordenadora, outro problema é o preconceito contra pessoas em situação de rua. Ela destaca que o público atendido pela Casa Franciscana é diverso e inclui pessoas com diferentes níveis de escolaridade e experiências profissionais, como participantes com mestrado, doutorado e fluência em três, quatro ou até cinco línguas, que muitas vezes enfrentam apenas a falta de oportunidade.
Qualificação e acompanhamento
Ao todo, o Trilhas da Autonomia prevê 14 turmas de cada uma das formações oferecidas: técnicas básicas de cozinha, panificação básica, garçom e técnicas de limpeza e governança, voltada para a atuação como camareira. Cada turma terá dez vagas.
Além da formação profissional, o projeto pretende acompanhar os participantes durante o processo de entrada ou retorno ao mercado de trabalho.
A equipe multidisciplinar reúne profissionais das áreas social e psicológica e poderá fazer articulações com outros serviços públicos. Se um participante, por exemplo, tiver dificuldade para cumprir uma exigência de uma vaga de emprego, como a conclusão do ensino médio, a equipe pode buscar alternativas junto à rede de educação.
"Não é só a parte do mercado de trabalho, tem todo o antes, que é essa parte socioemocional, a participação dos grupos. [...] O depois também, todo esse grupo vai ser acompanhado durante um tempo", explica Taysa.
O caso de Célio
Célio chegou ao Rio há cerca de quatro meses. Nesse período, passou por situações de vulnerabilidade, conseguiu uma vaga em um abrigo e agora, vai voltar ao mercado de trabalho como pedreiro e está matriculado para o curso de garçom.
Segundo ele, o apoio recebido no Sefras foi fundamental para conseguir reorganizar a vida.
"Eu precisei de ajuda, assim, psicológica [...] Eles foram o sustento do meu alicerce. Se não fosse eles, não teria como ter conseguido registrar essa carteira minha. Me deram as condições, a passagem [de ônibus], pra eu poder fazer meu serviço”, afirma.
Para Célio, continuar trabalhando e estudando faz parte do esforço para construir uma nova rotina.
"Eu estando parado, vou acabar usando drogas, parado num lugar sem fazer nada. [...] Eu não sou uma pessoa que gosta de ficar parado no canto", conta.
Projeto prevê alcançar 2 mil pessoas
O Trilhas da Autonomia tem previsão de duração até janeiro de 2029 e espera alcançar cerca de 2 mil pessoas.
A iniciativa começa em um cenário de crescimento da população em situação de rua no Rio. Segundo o censo mais recente da Prefeitura, divulgado em 2025, houve aumento de 4,2% em relação ao levantamento anterior, que já contabilizava mais de 8 mil pessoas nessa situação. O Centro da cidade concentra o maior número de pessoas abordadas pelo levantamento, com 1.330 registros.
Para Daniela, o objetivo da formação é que os participantes levem para além do curso não apenas conhecimento profissional, mas também confiança para seguir a própria trajetória.
"Muitas vezes acontece que eles passam a não acreditar mais neles. E aí o curso vem para trazer exatamente essa possibilidade de esperança na vida deles", afirma.
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