Entre dança e design: André Grippi transforma movimento e precisão em mobiliário

O bailarino aprende cedo a dominar o equilíbrio do corpo. Sabe que um pequeno deslocamento de braços ou pernas é capaz de mudar a cadência da dança. Praticante dessa arte desde os 12 anos, André Grippi levou os aprendizados para o design de móveis. A influência, no entanto, não está em formas que imitam o corpo nem em peças que sugerem passos ou coreografias, mas na maneira de pensar o projeto, na atenção às proporções, na disciplina de repetir um desenho inúmeras vezes e na busca contínua pela melhor solução. “Você desenha, faz protótipo, muda um detalhe e começa tudo de novo”, resume o designer.
No ensaio fotográfico realizado na Galeria Metrópole, em São Paulo, onde mantém seu showroom, André Grippi reproduz movimentos de dança, interagindo com o banco Bis de três lugares
Gui Gomes
A sutil relação com a dança no trabalho de André fica mais evidente quando observamos a coleção Cabana, lançada na SP-Arte de 2024. Composta por mesas e chaise, a série parte de uma pesquisa sobre maleabilidade e rigidez com base na união da palha e da madeira. Em suas criações, o profissional se concentra em artigos de design limpo e superfícies irregulares. A chaise Cabana é um bom exemplo dessa pesquisa: combina desenho sintético e instigante com a madeira mantendo uma linha contínua que sustenta o assento de palhinha. “Não tenho a intenção de traduzir o movimento da dança para os móveis. O que tento é reproduzir a sensação que a dança provoca. Quero que as peças despertem emoção, façam as pessoas permanecerem atentas.”
O designer e bailarino dança com a série Pilar, composta por cadeiras e banqueta disponíveis com ou sem estofamento
Gui Gomes
Nascido em Campinas, interior de São Paulo, André começou a dançar em um projeto oferecido pela escola pública onde estudava. A família logo percebeu a paixão que nascia ali e o apoiou. “Percebo hoje que vivenciei momentos de preconceito, mas nunca deixei isso me afetar”, diz. Vieram aulas de balé, cursos de aperfeiçoamento e, pouco depois, bolsas de estudo no Canadá e nos Estados Unidos. Em Chicago, aprimorou a formação e experimentou um ambiente em que dança, arquitetura e design conviviam harmoniosamente – um repertório que alimentaria a prática do design.
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De volta ao Brasil, ingressou na São Paulo Companhia de Dança, em 2012. Durante sete anos integrou montagens contemporâneas e clássicas – foi o príncipe em O Lago do Cisne e La Sylphide, além de participar de turnês nacionais. A rotina era marcada por ensaios diários e aperfeiçoamento constante. Em 2017, recebeu o Prêmio APCA de melhor interpretação de dança, ao lado da bailarina Ana Paula Camargo, pela obra 14’20’’, do consagrado coreógrafo tcheco Jiří Kylián.
Detalhe da mesa dobrada, assinada por André Grippi
Gui Gomes
Mesmo se dedicando à carreira de bailarino, André não deixou de lado outros interesses. Desde adolescente gostava de desenhar, e chegou a pensar em fazer arquitetura. A carreira de bailarino, porém, tornava inviável acompanhar um curso tradicional. Optou pelo design de interiores na Escola Panamericana de Arte e, mais tarde, aprofundou os estudos em design de produto, áreas que ofereciam maior flexibilidade para conciliar ensaios e viagens.
O primeiro móvel, a cadeira Galega, surgiu ainda na faculdade e venceu um concurso na categoria Estudante, patrocinado pela Tidelli. O reconhecimento trouxe a certeza de que a atividade poderia se transformar em profissão. O passo seguinte foi frequentar a oficina de orientação de projeto, com mentoria de Gerson de Oliveira, cofundador da Ovo. Ali, acompanhou de perto o que acontece entre o desenho e o produto final.
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Essa experiência abriu caminho para a poltrona Ramona. Em sua primeira exibição, na feira MADE, em São Paulo, já despertou o interesse da fábrica mineira América, que a incorporou em seu catálogo. Vieram depois novos itens para a empresa, como a cadeira AG25 e o sofá Horizonte. André também trabalhou na equipe de design da Ovo e na do escritório de arquitetura FGMF, onde participou do desenvolvimento de mobiliário para projetos especiais e peças destinadas à produção seriada. “Tem dois anos que eu comecei a perceber que precisava ter um portfólio mais comercial. Até então, meu desenho vinha do que eu queria expressar por meio dos materiais. Hoje, entendo que um móvel precisa funcionar para quem produz, quem vende e quem vai viver com ele.”
As mesas laterais Três acompanham a coreografia de André
Gui Gomes
Ainda assim, André busca preservar um espaço para experimentação. Algumas ideias permanecem meses sobre a bancada. Outras passam por sucessivas versões antes de encontrar a solução desejada. “Se preciso mudar a peça para resolver um problema estrutural, prefiro esperar. Ela volta quando eu achar o resultado perfeito.” Para Gerson, o mentor, a formação em dança trouxe a ele uma maturidade precoce no desenvolvimento do mobiliário. “Vejo uma trajetória consistente e coerente, com uma estética escultórica sutil, como na coleção Cabana, da qual gosto muito”, declara.
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André Grippi interage com a chaise Cabana
Gui Gomes
Nos últimos anos, o trabalho ganhou ritmo intenso. Além de futuras criações para a América, André desenvolve, neste ano, um projeto para o Design + Indústria, iniciativa da Abimóvel com a ApexBrasil que conecta criadores e fabricantes a fim de produzir itens que serão apresentados no Salão do Móvel, em Milão. Ao mesmo tempo, tenta ampliar a rede de representantes do estúdio para poder dedicar mais horas à pesquisa de materiais e à realização de novos artigos. A chegada do primeiro filho reforçou esse desejo. Sua rotina é dividida entre os ensaios pela manhã no Studio 3 Espaço de Dança, o design e a vida em família. O desafio, agora, não é apenas conciliar duas profissões, mas encontrar o ponto de equilíbrio entre elas e a paternidade – a mesma busca que orienta cada móvel que ele cria.
*Matéria originalmente publicada na Casa Vogue de agosto (CV 486), disponível em versão impressa, na nossa loja virtual e para assinantes no app Globo Mais





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