Apagamento de Tuca, cantora lésbica vítima de gordofobia, é analisado em livro da coleção 'Vidas sequestradas'

Morta aos 33 anos, vítima de inanição e parada cardíaca, Tuca (1944 – 1978) tem obra analisada em livro escrito por Renato Gonçalves
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♫ CRÍTICA DE LIVRO
Título: Tuca – A cantora lésbica exilada da história
Autor: Renato Gonçalves
Cotação: ★ ★ ★ 1/2
♬ Fala-se pouco sobre Tuca, nome artístico da cantora, multi-instrumentista, arranjadora e produtora musical paulistana Valeniza Zagni da Silva (17 de outubro de 1944 – 8 de maio de 1978). Mas conhece-se menos ainda a obra da artista falecida há 48 anos, aos breves 33 anos, vítima de parada cardíaca provocada por inanição. Consta que essa inanição foi consequência da gordofobia sofrida por Tuca, que teria se submetido a um regime severo para se adequar ao padrão estético do mercado.
Desde que foi revelada em 1962, Tuca era comumente mencionada na mídia com referências explícitas às formas fartas do corpo. Tanto que o último capítulo da sucinta e recém-lançada biografia de Tuca se chama “A gordofobia que mata uma obra e uma artista”.
Primeiro título da coleção “Vidas sequestradas”, organizada por César Braga Pinto, “Tuca – A cantora lésbica exilada da história” é um livro de bolso recém-lançado pela editora O Sexo da Palavra. E, nesse bolso, cabe uma narrativa em que o autor, o pesquisador Renato Gonçalves, pode surpreender quem desconhece a trajetória da artista que lançou três álbuns – “Meu eu” (1965), “Tuca” (1968) e “Drácula, I love you” (1974), disco que se tornaria cultuado em nichos e que é tido com a obra-prima de Tuca – entre trabalhos importantes feitos em Paris com as cantoras Nara Leão (1942 – 1980) e Françoise Hardy (1944 – 2024).
Em 1971, autoexilada na capital da França para escapar da repressão do regime militar que asfixiava as liberdades no Brasil, Tuca fez arranjos para o álbum que marcou a adesão fonográfica de Nara ao cancioneiro da bossa nova, “Dez anos depois”, e deu forma como produtora e arranjadora a um dos discos mais conhecidos de Hardy, “La question”, assinando com a parceira francesa músicas como a canção que deu nome ao álbum.
Antes, no Brasil, Tuca ganhara projeção na era dos festivais ao defender em 1966 a canção “Porta estandarte”, de Geraldo Vandré (em parceria com Fernando Lona), contribuindo para dar visibilidade a Vandré, de quem Tuca foi parceria na composição “O cavaleiro”, também apresentada pela artista em festival de 1966.
Mais do que recolher e compilar os dados biográficos de Tuca no livro, o mérito de Renato Gonçalves é analisar, em perspectiva, a contribuição relevante de uma artista que, nos anos de chumbo da ditadura brasileira, construiu e propagou um pioneiro discurso homoerótico em músicas como “Girl” e “Sorvete”, ambas compostas por Tuca em parceria com a artista plástica Jeannette Priolli e apresentadas no já mencionado álbum “Drácula, I love you”.
Poliglota e violonista virtuosa, Tuca atuou em várias frentes da música brasileira e, como Gonçalves mostra no livro, nem sempre recebeu o devido crédito por tantas contribuições relevantes, tendo atuado geralmente à margem do mercado após a volta ao Brasil na década de 1970.
O fato de o álbum “Drácula, I love you” continuar indisponível nas plataformas de streaming – nas quais somente se pode ouvir o segundo dos três álbuns da cantora, o “Tuca” de 1968 – contribui para manter o apagamento da artista, amenizado um pouco pelo simpático e oportuno livro de bolso que inaugura a coleção “Vidas sequestradas”.
Capa do livro 'Tuca – A cantora lésbica exilada da história', de Renato Gonçalves
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