Davì Àlvarêz por João Gabriel Guerreiro/Look: Victor Dzenk para Branca Boutique Nem toda transformação anuncia a própria chegada. Há perguntas que já não parecem precisar de respostas.
Osklen
Durante a conversa, algumas pausas duram mais do que o esperado. Não por falta do que dizer. Pelo contrário. Existe a impressão de que certas palavras perderam a urgência de existir.
Durante muito tempo, o público acreditou conhecer Davì Àlvarêz. Talvez porque a exposição nunca tenha sido um problema. Talvez essa tenha sido a maior ilusão de todas.
“Passei metade da vida interpretando versões minhas. Existem pessoas que passam a vida tentando se encaixar. Eu passei a vida tentando me encontrar. E eu me encontrei.”
Terno Flower Homme; Sapatos e óculos: Balenciaga
Mais de duas décadas de carreira renderam personagens, campanhas, programas de televisão, capas, manchetes e uma exposição constante. Tempo suficiente para perceber que a imagem que as pessoas constroem nem sempre encontra quem existe por trás dela.
“Durante muito tempo me conheceram pelas coisas que eu fazia ou pela agressão que sofri. Hoje me interessa muito mais quem eu sou quando ninguém está olhando.”
Não há ressentimento na voz. Há paz. Ao longo da vida, vieram excessos, intensidade e uma necessidade constante de ocupar todos os espaços.
“A minha energia sempre foi muito intensa. Eu topava tudo. As festas pareciam não acabar nunca. Era uma vida acelerada. Naquele momento fazia sentido.”
Anos depois veio o diagnóstico de transtorno bipolar. E, junto com ele, respostas que demoraram décadas para aparecer. Inclusive sobre a relação com as drogas.
“Hoje vivo a sobriedade há mais de dois anos. Álcool e cocaína nunca mais farão parte da minha vida. Durante muito tempo tentei silenciar dores que nem sabia nomear. Vivi no extremo. A sobriedade não mudou quem eu sou. Ela revelou quem sempre esteve aqui. Também precisei atravessar pessoas, lugares e muitas certezas para entender que a felicidade nunca esteve fora de mim.”
Ao falar do passado, não existe orgulho. Também não existe vergonha.
“A cocaína nunca foi o verdadeiro problema. Era consequência de algo muito mais profundo. Passei por praticamente todas as drogas que você pode imaginar: Cocaína. Álcool. Ecstasy. MDMA. Crystal. E quase um ano usando crack, era tudo muito frenético. Durante muito tempo as pessoas adoravam a minha versão caótica. Pouca gente conhece a tranquilidade que existe hoje. E está tudo bem. Foi uma escolha minha. Perdi pessoas importantes na minha vida que não acreditaram na minha sobriedade.”
E talvez a maior surpresa da sobriedade tenha sido outra.
O silêncio
“Existe uma solitude bonita quando você para de alimentar personagens. Algumas pessoas vão embora. Outras finalmente conseguem chegar perto. Mas o maior encontro acontece quando você aprende a gostar da própria companhia, e hoje, eu me respiro.”

Terno: Flower Homme
Nos últimos meses, outro assunto passou a ocupar espaço nas redes sociais. O corpo. As mudanças físicas despertaram comentários, teorias e julgamentos.
“Meu emagrecimento foi uma escolha consciente. Busquei acompanhamento médico. Mudei completamente minha rotina. Comecei a cuidar do corpo com o mesmo carinho que passei a dedicar à minha saúde mental. Pela primeira vez senti que fazia isso por mim. Ouvi frases como “homem não pode ser magro demais”. Durante muito tempo essas opiniões teriam determinado minhas escolhas. Hoje já não têm esse poder. Eu gosto do meu corpo magro e esguio”
Depois de alguns segundos de silêncio, vem a conclusão.
“As pessoas estranham quando um corpo muda. Eu acho curioso que quase ninguém estranhe quando uma alma muda.”
Saia: Victor Dzenk para Branca Boutique; Regata: Osklen; Body Chain Loungerie; Óculos: Chanel; Tênis: Champion
Se existe algo que permaneceu em todas essas fases, foi a espiritualidade. Mas ela também mudou de forma.
“Nunca perdi Deus. Perdi certezas sobre o que me diziam sobre Ele. E foi justamente ali que a minha fé deixou de ser um discurso para se tornar companhia.”
Hoje não existe necessidade de convencer ninguém. A espiritualidade acontece na simplicidade. Na natureza. No silêncio. Nas conversas que não precisam de plateia.
“Descobri que Deus é infinitamente maior do que qualquer definição humana. Minha relação com Deus deixou de depender de explicações.”
Ao olhar para a própria trajetória, não existe vontade de apagar capítulos. Muito pelo contrário.

Terno Flower Homme; Sapatos e óculos: Balenciaga
Inspirar o visual de Crô, personagem eternizado por Marcelo Serrado em Fina Estampa, participar do primeiro beijo entre dois homens na TV Globo no extinto Amor & Sexo, de Fernanda Lima, e contribuir para discussões importantes sobre diversidade continuam sendo partes legítimas dessa história.
“Tenho carinho por cada versão que existiu até aqui. Nenhuma foi um erro. Todas foram necessárias. Cada fase teve seu propósito. Nenhuma delas merece ser apagada. A série que criei para o Instagram, Do Crô a Cristo, alcançou milhares de pessoas e talvez tenha sido o momento em que mais percebi a força que uma história pessoal pode ter quando encontra a história de alguém do outro lado da tela. Eu falava sobre a minha experiência, sobre o meu batismo e sobre a transformação que estava vivendo. O mais bonito foi perceber que aquilo ultrapassou qualquer religião. Recebi mensagens de pessoas de diferentes crenças, de gente enfrentando outros tipos de vício, de famílias tentando recomeçar, e eu tive o privilégio de ajudar muitas pessoas, isso foi incrível e me salvou muitas vezes. Foi uma fase muito importante da minha vida. Talvez a última antes da que vivo hoje. Mas a minha história nunca foi feita de pontos finais. Ela continua em movimento.”
Existe, porém, um assunto que continua despertando curiosidade.
A identidade

Saia: Dzenk para Branca Boutique; Regata Osklen; Óculos: Bottega Veneta
Talvez porque exista uma necessidade quase automática de transformar qualquer processo em anúncio.
Mas nem toda experiência cabe em uma definição.
“As pessoas gostam de encontrar uma palavra para tudo. Eu já não tenho tanta pressa. Passei boa parte da vida tentando corresponder ao olhar dos outros. Hoje vivo um processo e me interessa muito mais reconhecer quem encontro quando me olho no espelho. Eu não quero mais ter barba. Eu não gosto mais, e é isso. Muita gente perguntou por quê. Ela era bonita? Era. Muita gente gostava? Gostava. Mas parei de tomar decisões para preservar uma versão minha que fazia mais sentido para os outros do que para mim.”
A resposta termina exatamente onde a curiosidade costuma começar. E talvez esse seja o ponto.
Nem tudo precisa ganhar um nome antes de ganhar sentido.
“Durante muito tempo achei que autenticidade era ter todas as respostas. Hoje, acho que autenticidade é ter coragem de viver perguntas que ainda não terminaram de acontecer.”
A rotina agora segue outro ritmo. Longe da velocidade dos grandes centros.
Na Casa Matto
Entre árvores, trilhas, animais resgatados, projetos criativos para @thedavi e outros influencers e dias que parecem acontecer em outro tempo.
“A natureza me ensinou uma coisa muito simples. Nem tudo precisa acontecer imediatamente. Talvez eu também esteja aprendendo isso. Entender os processos foi algo surpreendente. Até a fibromialgia e a bipolaridade me ensinaram isso. Hoje aprendo com tudo que me rodeia, inclusive com as partes que doem”
A arte continua presente. A moda também. Inclusive usando Gucci no meio do mato. As câmeras continuam presentes. A comunicação continua presente. Mas já não ocupam o mesmo lugar.
“O reconhecimento e os números continuam sendo importantes para o meu trabalho. Mas deixaram de definir o meu valor. Durante muito tempo vivi tentando que me compreendessem. Hoje tenho mais interesse em ser de verdade. E muitas vezes isso choca. Descobri que ser de verdade incomoda mais do que representar um papel. E tudo bem. Depois de tudo o que vivi, existe uma coisa da qual não abro mão: caráter."

Bota Dr. Martens com ilustrações de Pisanteria; Terno: Flower Homme; Óculos Prada
A conversa termina sem anúncios. Sem respostas prontas. Sem qualquer tentativa de controlar a interpretação de quem lê. Apenas com a serenidade de quem descobriu que viver pode ser mais importante do que explicar.
Victor Dzenk para Branca Boutique
Terno Flower Homme; Sapatos e óculos: Balenciaga
Talvez exista uma versão de Davì Àlvarêz que pouca gente conheça.
Não porque tenha permanecido escondida. Mas porque continua sendo descoberta. E, curiosamente, nunca houve tanta paz em caminhar sem a necessidade de chegar primeiro.






Terno: Flower Homme; Sapatos e óculos: Balenciaga


Todas as fotos foram feitas pelo fotógrafo João Gabriel Guerreiro.
Todos os ternos são da @flowerhomme
Saia e blusa são @victordzenk feat @brancaboutique.bb






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