Da triagem ao grupo terapêutico: como funciona novo atendimento da Unicamp para dependência em apostas eletrônicas

Ludopatia: entenda o que é a doença de pessoas viciadas em jogos de azar
O Hospital de Clínicas da Unicamp abriu um serviço de acolhimento e cuidado para pessoas com problemas relacionados a jogos de apostas eletrônicas.
A iniciativa faz parte do Ambulatório de Substâncias Psicoativas (Aspa) e foi criada após as equipes identificarem o endividamento de pacientes que já frequentavam a estrutura por uso de álcool, tabaco ou drogas ilícitas.
O atendimento gratuito começou em abril e é realizado todas as quartas-feiras, das 8h às 11h30, no ambulatório de Psiquiatria, localizado no segundo andar do HC da Unicamp.
Para participar, basta comparecer na recepção do ambulatório. Não há necessidade de agendamento, e a unidade recebe tanto adultos quanto adolescentes - entenda como funciona abaixo.
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Como funciona o atendimento
O transtorno de jogo, também chamado de ludopatia, é uma condição médica que se caracteriza por perda de controle sobre início, frequência, intensidade, duração e pela priorização crescente da aposta em detrimento de outros interesses e continuidade do comportamento estimulado pela facilidade do uso do celular.
As pessoas com mais de 18 anos com o transtorno passam por uma triagem, avaliação psiquiátrica e grupo de acolhimento. Na avaliação, o profissional analisa a gravidade do caso, verifica a necessidade de exames, avalia possíveis problemas clínicos associados e define o diagnóstico.
Segundo a psiquiatra Renata Azevedo, coordenadora do ambulatório, essa etapa também ajuda a identificar qual é a melhor estratégia de tratamento para cada paciente.
Depois, o paciente é encaminhado para um grupo voltado a pessoas com transtorno do jogo com atividades conduzidas por um psicólogo.
Já para os adolescentes, o atendimento é individual, em função de particularidades dessa fase do desenvolvimento.
O que é trabalhado nesses grupos?
Um dos principais objetivos é ajudar o paciente a reconhecer padrões de pensamento associados à dependência.
Segundo Azevedo, uma diferença importante entre o transtorno do jogo e outras dependências é a crença de que uma nova aposta será capaz de recuperar todo o dinheiro perdido anteriormente.
A especialista classificou essa lógica como uma "distorção cognitiva" que alimenta a continuidade do comportamento.
"É um grupo que tem base cognitivo-comportamental. Então, a ideia é, primeiro, melhorar a percepção sobre o problema do jogo", explicou.
Negação e vergonha
Segundo o psicólogo do Aspa, Maurício Sant’ana, na maioria das vezes os pacientes que frequentam o ambulatório passam por um processo de negação e vergonha para admitir a dependência dos jogos.
“O hábito de jogar é potente. Ele vem, muitas vezes, associado a quadros de ansiedade, depressão e solidão. O jogo promove uma falsa ideia de companhia e de participação”, explicou.
O psiquiatra Felipe Santaella alerta que o processo de apostar começa de forma ocasional, mas vai se intensificando e gerando prejuízos financeiros. Segundo Felipe, São Paulo é o Estado que tem o maior número de pessoas que apostam e com mais problemas de endividamento.
“Eles apostam para tentar recuperar o que perderam e entram num processo em que o gasto acaba sendo maior. Tem paciente que está devendo para o banco, para o agiota e para a família. Isso é o motivo de muito sofrimento”, disse Felipe.
Fachada do HC da Unicamp, em Campinas
Antoninho Perri/Unicamp
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