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Belo Horizonte,28/07/2026

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Afinal, o que é uma casa com cara de vó? Arquitetos respondem

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Afinal, o que é uma casa com cara de vó? Arquitetos respondem


Os avós ocupam um lugar especial na memória afetiva de muitas famílias — e isso também se reflete na maneira como habitamos nossas casas. Celebrado em 26 de julho, o Dia dos Avós convida a revisitar ensinamentos transmitidos entre gerações, inclusive aqueles relacionados ao morar. Não por acaso, depois de anos de predominância do minimalismo, um novo olhar sobre os interiores ganhou força: o granny chic, ou a chamada "casa de vó", resgata ambientes construídos com tempo, objetos carregados de significado e uma decoração que privilegia o afeto em vez da perfeição.
Mas o que realmente define uma casa com cara de vó? Seria a cristaleira repleta de louças, o filtro de barro, os tapetes de crochê ou o cheiro de bolo saindo do forno? Para arquitetos, designers, especialistas em semiótica e psicanálise ouvidos pela Casa Vogue, esses elementos fazem parte do imaginário coletivo brasileiro, mas representam apenas a superfície de um conceito muito mais profundo.
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Muito além da estética
Ao imaginar a casa de vó, estampas, cores vibrantes e mória são as principais imagens que vem à mente. Projeto do arquiteto Marcelo Salum
Jessica Pellegrini e André Calazans
No Brasil, a "casa de vó" tornou-se quase uma instituição cultural. Cadeiras de balanço, móveis de madeira maciça, toalhas bordadas, panos de prato pendurados no fogão, garrafas de vidro coloridas, plantas espalhadas pelos cômodos e o tradicional filtro de barro são alguns dos elementos que costumam despertar lembranças imediatas. No entanto, limitar essa memória afetiva a um conjunto de objetos seria simplificar um fenômeno construído ao longo de gerações.
Mais do que uma estética, trata-se de uma forma de habitar. É um lugar onde as marcas do tempo permanecem visíveis porque fazem parte da história da família. A poltrona favorita, a manta tricotada à mão, a mesa do almoço de domingo, a cristaleira herdada ou mesmo uma parede marcada pelo crescimento dos netos revelam que aquela casa foi vivida — e continua sendo.
Ao analisar a 'casa de vó', percebe-se que a essência cria-se a partir das histórias. Projeto do arquiteto João Gabriel
Leo Silva
Para o mestre em Semiótica Urbana e arquiteto Alexandre Salles, fundador do Estúdio Tarimba, essa é justamente a essência desse imaginário. "Os objetos fazem parte dessa narrativa, mas não são sua essência. A casa de vó é um lugar onde o tempo deixa marcas, onde as coisas permanecem porque carregam histórias, não porque seguem uma tendência. Sua identidade nasce das relações construídas entre pessoas, objetos, memórias e rituais cotidianos.", afirma.
A arquiteta e designer Michele Wharton concorda. Para ela, o que permanece na memória não são ambientes impecáveis, mas aqueles que despertam emoções. "Uma casa muito perfeita pode até impressionar, mas nem sempre convida a ficar. As casas que mais nos marcam geralmente têm vida acontecendo dentro delas. São casas onde existe uma mistura de tempos, de objetos, de memórias e de pessoas. É isso que cria acolhimento.", acrescenta.
A casa de vó é construída com objetos marcados pela presença de história e memória. Projeto do arquiteto Alexandre Salles, na CASACOR 2024
Bia Nauiack/Divulgação
É justamente por isso que a chamada "casa de vó" não pode ser enquadrada como um estilo decorativo, ao contrário do minimalismo, do maximalismo ou de qualquer outra tendência de interiores. Ela representa uma maneira de construir a casa ao longo da vida.
"É uma casa que foi vivida, construída sem pressa. Onde os objetos têm história, mas, principalmente, onde as pessoas viveram histórias. Quando falamos em casa de vó, na verdade estamos falando de afeto", resume a arquiteta Cecilia Lemos.
O arquiteto Gabriel Rosa vai além e descreve esse tipo de moradia como um organismo em constante transformação. "Não é um projeto que termina quando a obra acaba. É uma casa que acompanha a vida de quem mora nela. Cada acontecimento cria uma nova camada, um novo canto, uma nova memória.", diz.
Ele relembra a própria infância para ilustrar essa ideia. Durante anos, sua avó registrou na parede o crescimento dos netos. Em vez de apagar as marcas com uma nova pintura, decidiu preservá-las. "Aquilo nunca foi visto como um defeito. Hoje entendemos que essas imperfeições contam uma história. Tudo o que é excessivamente padronizado acaba perdendo personalidade. Muitas vezes, são justamente os pequenos erros que tornam uma casa memorável."
Casas que envelhecem junto com os moradores
Na casa de vó, é comum, também, encontrar referências do morar e das experiências brasileiras. Projeto da arquiteta Cecilia Lemos
Walter Dias
Em uma época marcada por tendências cada vez mais rápidas e por interiores que frequentemente parecem saídos do mesmo catálogo, a casa de vó representa quase um contraponto.
Durante anos, o minimalismo incentivou ambientes claros, organizados e com poucos objetos aparentes. Embora elegante, essa estética também contribuiu para a popularização de interiores semelhantes entre si, muitas vezes pouco conectados às histórias de quem os habita.
Uma maneira de replicar a casa de vó é por meio de obras de arte e itens decorativos pessoais. Projetos dos arquitetos Sig Bergamin e Murilo Lomas
Bjorn Wallander
"A casa de vó nunca foi construída para seguir tendências. Ela foi sendo composta ao longo da vida, reunindo lembranças, presentes, viagens e histórias. O resultado é uma casa que tem alma", afirma o arquiteto Murilo Lomas, do escritório Bergamin & Lomas.
Essa percepção ajuda a explicar por que tantas pessoas, mesmo sem terem vivido exatamente a mesma infância, reconhecem imediatamente esse imaginário. Segundo Alexandre Salles, essa identificação nasce da experiência compartilhada de pertencimento. "Mesmo que cada família tenha uma história diferente, existe uma memória afetiva comum associada à ideia de acolhimento, permanência e continuidade. A casa de vó nos lembra que habitar é também construir vínculos.", pondera.
A casa de vó conecta-se diretamente ao imaginário cultural brasileiro. Projeto do arquiteto Marcelo Salum
Jessica Pellegrini e André Calazans
Essa memória coletiva também dialoga com diferentes formas de morar espalhadas pelo país. Para João Gabriel, arquiteto baiano e fundador do Pega Uma Ideia, a essência desse imaginário nem sempre está ligada aos avós, mas a outros parentes que marcaram a infância. "Pode ser uma tia, uma bisavó ou qualquer pessoa da família. A gente cria essas conexões com a nossa própria forma de morar. Basta observar uma gaveta de cozinha: existe uma organização que se repete em muitas casas brasileiras. Não é uma regra, mas faz parte da nossa cultura doméstica.", diz.
É justamente essa construção coletiva que transforma a casa de vó em um símbolo cultural. Para Clotilde Pérez, semioticista e professora da Escola de Comunicações e Artes da Universidade de São Paulo (USP), esse imaginário é formado tanto pelas experiências individuais quanto pela cultura material compartilhada. "A casa de avó é um signo cultural, um conceito que expressa determinados valores e significados conectados aos afetos primordiais, ao pertencimento e à nostalgia do já vivido.", afirma.
As estampas, seja em sofás, seja nas paredes, são clássicas da decoração de casa de vó. Projeto do arquiteto Paulo Azevedo
Fran Parente/Divulgação
Por que a casa de vó voltou aos holofotes?
Se durante a última década o minimalismo dominou revistas, redes sociais e mostras de decoração, hoje o movimento parece caminhar na direção oposta. Ambientes impecáveis, neutros e quase sem objetos deram lugar a casas que revelam personalidade, misturam referências e assumem as marcas do tempo como parte da beleza.
Mais do que uma mudança estética, trata-se de uma transformação na forma de entender o morar. Para o arquiteto Paulo Azevedo, o interesse crescente pela chamada "casa de vó" nasce justamente do desejo por ambientes menos performáticos e mais verdadeiros. "Quando as pessoas falam em 'casa de vó', elas não estão pensando apenas em um sofá floral, numa cortina de renda ou numa cristaleira. Elas estão falando de uma casa menos asséptica, menos preocupada em parecer perfeita e mais preocupada em contar uma história.", justifica.
Com estampas na parede e no tapete e móveis vintage, o ambiente, desenhado pelo arquitet Paulo Azevedo, carrega a essência de história
Fran Parente/Divulgação
Essa mudança de olhar também explica o crescimento do granny chic. Em vez de reproduzir literalmente a estética das casas das décadas passadas, o movimento procura recuperar valores que pareciam ter ficado para trás: permanência, memória, conforto e autenticidade.
Para João Gabriel, esse retorno dialoga diretamente com um momento de valorização da identidade brasileira. "O movimento 'Brasil Core' tem crescido e acho que tudo isso está conectado. O orgulho de ser latino e a saudade de um morar mais emocional ajudam a explicar esse movimento. Tenho para mim que não é algo passageiro.", argumenta o profissional.
No ambiente desenhado pelo arquiteto Marcelo Salum, a cômoda amadeirada com pequenos elementos decorativos tem essência antiga e pessoal
Denilson Machado
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Nesse contexto, elementos antes considerados ultrapassados voltam a ser vistos com outros olhos. Cristaleiras, móveis de madeira maciça, bordados, louças expostas, tapeçarias, papéis de parede, plantas e peças garimpadas deixam de funcionar como objetos de nostalgia para se tornarem camadas de uma narrativa pessoal.
Mais do que reproduzir uma estética vintage, o interesse contemporâneo está em construir casas capazes de revelar quem vive nelas. "Hoje existe um desejo muito maior de morar em lugares que acolham, que tenham personalidade e contem uma história. E isso não significa copiar a casa da avó. Significa resgatar aquilo que ela tinha de mais valioso: o tempo, a memória, as misturas sem regra, os objetos carregados de afeto e a sensação de que a casa foi construída para ser vivida, e não apenas admirada", afirma Cecilia Lemos.
No ambiente projetado pela arquiteta Cecilia Lemos, o mobiliário e o uso de madeira criam o efeito de ser um espaço com história e personalidade
Morgana Nunes/Divulgação
A casa como abrigo emocional
Para além da arquitetura, o retorno desse imaginário também revela mudanças na maneira como as pessoas se relacionam com suas próprias casas. Segundo a psicanalista Raquel Baldo, o crescimento das buscas por ambientes inspirados na casa dos avós está ligado a uma necessidade emocional de pertencimento.
Para ela, vivemos um período marcado pela aceleração constante, pelo excesso de estímulos e pela padronização dos espaços domésticos. Nesse cenário, cresce o desejo por ambientes capazes de despertar sensações de acolhimento e continuidade. "O retorno à 'casa de vó' é uma declaração de desamparo existencial, da necessidade de voltar a sentir quem se é. Essa casa lembra uma época em que as pessoas viviam experiências mais sensoriais. Quando escolhemos uma casa ou pensamos em decorá-la, não estamos falando apenas de estética. Estamos contando uma história sobre nós mesmos."
Na avaliação da especialista, o aumento da mediação tecnológica nas relações também contribuiu para reforçar a busca por espaços mais humanos, onde imperfeições, lembranças e rituais cotidianos tenham lugar.
A semiótica chega a uma conclusão semelhante, ainda que por outro caminho. Para Clotilde Pérez, a casa de vó tornou-se um símbolo compartilhado porque reúne valores universais associados ao afeto. "Ela transmite amor, acolhimento, segurança e conforto psíquico. A figura da avó ocupa, culturalmente, um lugar ligado ao cuidado, ao carinho e à continuidade das relações familiares."
A pesquisadora observa que as identidades contemporâneas são cada vez mais múltiplas e complexas. Por isso, as casas deixam de ser apenas espaços funcionais para se transformar em territórios onde diferentes versões de quem somos podem coexistir. "Percebemos na prática que as identidades contemporâneas são plurais, múltiplas e, por vezes, em trânsito. Por isso, precisamos de muitas referências para nos expressarmos e a casa acaba sendo o espaço privilegiado para a manifestação dos nossos múltiplos eus."
É justamente essa multiplicidade que explica o retorno de interiores mais sobrepostos, coloridos e afetivos. Não porque exista uma vontade coletiva de voltar ao passado, mas porque cresce o desejo de construir casas menos padronizadas e mais representativas.
A casa de vó pode trazer aprendizados diversos sobre a experiência do morar. Projeto do arquiteto João Gabriel
Leo Silva
No fundo, a popularidade da "casa de vó" revela uma mudança de prioridade. Se antes a casa era frequentemente pensada como um espaço para ser fotografado, hoje ela volta a ser compreendida como um lugar para viver. É essa inversão que talvez explique por que tantos interiores contemporâneos passaram a valorizar aquilo que, durante muito tempo, parecia não caber em um projeto de decoração: as lembranças, os objetos herdados, as misturas improváveis e as imperfeições que transformam uma casa em um lar.
Em um mundo de modismos descartáveis, a casa de vó mostra que o design de verdade é feito para durar
Jessica Pellegrini e André Calazans
Já para o arquiteto Marcelo Salum, trata-se de permanência e tempo. "Em um mundo de modismos descartáveis, a casa de vó mostra que o design de verdade é feito para durar e amadurecer com a gente, criando memórias e participando de momentos", coloca.
Enquanto isso, Cecilia reflete que o maior ensinamento é a respeito do imediatismo. "A gente vive uma época em que tudo precisa ficar pronto muito rápido, mas uma casa bonita de verdade é aquela que amadurece junto com quem mora nela", diz.
Na casa de vó, elementos culturais e pessoais fazem parte da decoração. Projeto da arquiteta Michele Wharton
Gabriela Perseguin
O que podemos aprender com a casa de vó?
Se existe um consenso entre os profissionais ouvidos pela Casa Vogue, é que o maior ensinamento da casa de vó está na relação com o tempo. Em vez de buscar um resultado imediato, esse tipo de lar é construído aos poucos, incorporando novas histórias sem apagar as anteriores.
Para Alexandre Salles, habitar é um processo contínuo de construção de identidade. "Ela nos ensina que uma casa não se constrói de uma vez só. Ela se transforma ao longo da vida. É um organismo vivo, que incorpora novas camadas sem apagar as anteriores. Talvez essa seja sua maior lição: habitar é um processo contínuo de construção de identidade."
O verdadeiro luxo está em ambientes que acolhem, que contam histórias e revelam a personalidade. Proketo do arquiteto Marcelo Salum
Fabio Jr Severo/Divulgação
Marcelo Salum enxerga nessa lógica um antídoto para a cultura dos modismos. "Em um mundo de tendências descartáveis, a casa de vó mostra que o design de verdade é feito para durar e amadurecer com a gente, criando memórias e participando de momentos."
Para Cecilia Lemos, a principal lição é desacelerar. "A gente vive uma época em que tudo precisa ficar pronto muito rápido, mas uma casa bonita de verdade é aquela que amadurece junto com quem mora nela."
Murilo Lomas reforça a ideia de que um bom projeto nunca está concluído. "As casas, assim como seus moradores, nunca ficam prontas. Elas amadurecem, ganham novas camadas, incorporam lembranças, viagens, encontros e descobertas. As melhores casas não são montadas de uma só vez nem vivem reféns das tendências. Elas são construídas com tempo, repertório e afeto."
Para Sig Bergamin, o verdadeiro luxo está justamente nessa capacidade de acolher. "Uma casa realmente perfeita é aquela que faz as pessoas quererem ficar. Beleza sem alma pode impressionar por alguns minutos, mas não cria memória. O verdadeiro luxo está em ambientes que acolhem, contam histórias e revelam a personalidade de quem vive ali."
Na mesma linha, Paulo Azevedo acredita que a longevidade de um projeto vale mais do que sua sintonia com as tendências do momento. "As tendências passam muito rápido, mas o desejo de pertencimento permanece. A casa de vó lembra que um bom projeto não é aquele que segue todas as tendências, mas aquele que continua fazendo sentido vinte anos depois."
O interessante não é reproduzir uma estética do passado, mas recuperar a ideia de que os objetos podem carregar biografias
Jessica Pellegrini e André Calazans
Michele Wharton resume essa mudança de perspectiva em uma frase simples. "Uma casa não precisa seguir todas as tendências para ser bonita. Ela precisa ter identidade. As melhores casas são aquelas que vão sendo construídas com o tempo, incorporando novas lembranças sem perder sua essência."
Ao reinterpretar a essência da casa de vó, é necessário se lembrar que, apesar de trazer os ícones visuais desta maneira de morar, ainda é necessário adaptá-los à contemporaneidade. Para isso, Salum recomenda misturar. Use cores fortes e contemporâneas na marcenaria planejada e junte uma peça de design arrojada ao lado de uma cadeira garimpada em um antiquário.
A estamparia e texturas ricas criam camadas visuais aconchegantes. Projeto da arquiteta Michele Wharton
Gabriela Perseguin
Como trazer essa essência para uma casa contemporânea?
Se a casa de vó não é um estilo decorativo, também não existe uma fórmula para reproduzi-la. A maior armadilha, segundo os especialistas, é transformar esse imaginário em uma coleção de referências visuais desconectadas da vida de quem mora ali. "O significado não está na idade dos objetos, mas nas relações que estabelecemos com eles. Uma obra de um artista contemporâneo, uma peça artesanal adquirida em uma viagem ou um móvel desenhado especialmente para uma família podem carregar tanto sentido quanto um objeto herdado", explica Alexandre Salles.
Em vez de reproduzir móveis antigos ou estampas específicas, podemos valorizar a mistura entre tempos. Projeto da arquiteta Cecilia Lemos
Paulo Higor
Em outras palavras, o importante não é que a peça seja antiga, mas que ela conte uma história. Marcelo Salum recomenda criar contrastes entre o antigo e o novo. Uma marcenaria contemporânea pode conviver com uma cadeira garimpada em antiquário; uma luminária de design pode dividir espaço com uma mesa herdada da família.
"A estamparia e as texturas criam camadas visuais acolhedoras. Louças e cristais à mostra valorizam os rituais diários, como o café da manhã ou o almoço de domingo. A mistura livre de objetos traz a sensação de uma vida colecionada, enquanto cores marcantes quebram a monotonia dos interiores excessivamente neutros.", diz.
Os profissionais alertam que, ao adotar a 'casa de vó' como tendência, tem-se o risco de perder seu significado. Projeto do arquiteto Paulo Azevedo
Fran Parente/Divulgação
Também vale incorporar elementos que funcionam como arquivos afetivos: retratos de família, livros, plantas, bordados, peças de artesanato, objetos trazidos de viagens, louças de ocasião, lembranças religiosas ou móveis passados entre gerações. Mais importante do que seguir uma cartilha estética, porém, é permitir que a casa revele quem mora nela.
O risco de transformar afeto em tendência
Paradoxalmente, quanto maior o sucesso da estética da "casa de vó", maior também é o risco de esvaziar seu significado. Para Marcelo Salum, copiar uma imagem pronta produz apenas cenários. "Existe o risco de virar um cenário vazio se você apenas copiar uma receita. A mistura precisa fazer sentido para você. A arquitetura deve tocar; deve ser afetiva.", ressalta.
Alexandre Salles faz um alerta semelhante. Para ele, o desafio está em compreender a essência desse modo de morar, e não simplesmente reproduzir seus símbolos. "Em vez de copiar móveis antigos ou estampas específicas, podemos valorizar a mistura entre tempos, a presença da arte, do artesanato, da cultura material brasileira e de objetos que tenham significado para quem vive ali. O contemporâneo também pode ser profundamente afetivo.", diz.
No fim das contas, talvez o maior legado da casa de vó seja lembrar que um lar nunca nasce pronto. Ele se constrói lentamente, entre viagens, encontros, aniversários, objetos herdados, móveis comprados em momentos importantes e pequenas marcas que o tempo insiste em deixar. É justamente essa sobreposição de memórias que transforma uma casa em uma autobiografia — como escreveu a autora italiana Natalia Ginzburg.
Mais do que resgatar uma estética do passado, o sucesso da "casa de vó" revela um desejo contemporâneo de viver em espaços que tenham significado. Afinal, uma casa bonita pode impressionar à primeira vista. Mas uma casa com alma é aquela que continua contando novas histórias muito tempo depois de pronta.




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