Isso é meu ou do outro?
Pense numa discussão que você teve recentemente. Não aquela em que o erro do outro era indiscutível. Pense em uma que continuou ocupando seus pensamentos por horas depois: você repassou mentalmente tudo o que foi dito, imaginou respostas melhores, sentiu que sua reação talvez tenha sido maior do que a situação parecia pedir.
Provavelmente isso já aconteceu mais de uma vez. E, nesses momentos, quase toda a atenção costuma estar voltada para o outro. Faz sentido: é para lá que a dor aponta. O que costuma passar despercebido é a parte do conflito que também pertence a nós.
O psicólogo Francisco Carlos Gomes explica por que nossa tendência inicial é olhar para fora antes de olhar para dentro.
“Isso se deve a uma combinação de fatores emocionais e cognitivos. Em alguns momentos, pode incluir uma busca por justiça, uma necessidade de preservar a autoestima ou até evitar responsabilidades. A partir daí, nosso cérebro reage rapidamente diante dos conflitos, ativando sistemas de detecção de inconsistências e ameaças. Para ampliar esse campo de visão, é necessário desenvolver uma escuta ativa e reflexiva das próprias reações.”
O que ele descreve não é uma falha moral, mas um mecanismo automático que entra em ação antes mesmo de qualquer decisão consciente.
O que a dor revela sobre nós
Toda relação é o encontro entre duas histórias. É a partir dessa ideia que a psicóloga Leny Louzada explica por que a origem de um conflito raramente está inteiramente onde parece.
“Nem sempre o que nos fere nasce apenas do que foi dito ou feito. Muitas vezes, o outro toca lugares em nós que já estavam sensíveis; feridas antigas se abrem novamente no momento do conflito. Isso não diminui a responsabilidade de quem nos machuca, mas nos convida a um olhar mais profundo: compreender o que pertence ao outro e o que pertence à nossa própria trajetória. Esse é um exercício de coragem e de autoconhecimento. Quando deixamos de buscar apenas culpados e passamos a buscar sentido, o conflito deixa de ser apenas um espaço de ruptura e pode se tornar também uma oportunidade de crescimento, de diálogo e de encontros mais verdadeiros – com o outro e, sobretudo, conosco.”
No calor do momento, separar essas camadas é mais difícil do que parece. Não porque sejamos ingênuos, mas porque a raiva é real, a mágoa é real, e tudo isso foi despertado por algo que o outro fez ou disse. A reação, portanto, não é o problema. O que acontece é que ela raramente conta a história inteira.
Para começar esse exercício de diferenciação, Leny propõe algumas perguntas.
“Antes de buscar respostas no outro, vale a pena voltar o olhar para si e perguntar: ‘O que realmente me feriu? O que essa situação despertou em mim? Do que eu precisava naquele momento e não consegui expressar?’. Essas perguntas não anulam a responsabilidade de quem nos machucou, mas nos ajudam a compreender que algumas feridas são abertas pelo presente, enquanto outras apenas são revisitadas por ele. O autoconhecimento nos ensina que, quando entendemos a origem da nossa dor, deixamos de ser prisioneiros das reações automáticas e nos tornamos protagonistas da nossa própria história.”
Perguntar “o que essa situação despertou em mim?” desloca o foco do que aconteceu para a forma como aquilo repercutiu internamente. E essa mudança altera também a maneira como tentamos resolver um conflito.
Gomes aprofunda essa ideia ao explicar o que muda quando conseguimos identificar o que foi mobilizado antes de agir.
“Agir a partir de uma decisão mais informada e menos emocional ajuda a evitar impulsos que podem agravar a situação. A compreensão e a tomada de consciência favorecem soluções mais eficazes e construtivas, promovendo um diálogo mais produtivo e respeitoso.”
Reagir ao presente ou reviver o passado
Um dos principais sinais de que uma reação ultrapassa o presente é sua intensidade.
Gomes resume essa diferença: “As reações pontuais geralmente surgem diante de um evento específico e isolado, enquanto respostas amplificadas indicam padrões emocionais antigos que ainda não foram elaborados e, por isso, tendem a se repetir em situações semelhantes.”
Quando a resposta parece desproporcional ao que aconteceu, é possível que algo mais antigo tenha sido tocado.
Leny explica como reconhecer essa dinâmica. “Às vezes, não é apenas o que aconteceu hoje que nos faz sofrer, mas tudo aquilo que nos machucou e ainda não conseguimos elaborar. Quando um mesmo sentimento se repete em diferentes relações — a sensação de rejeição, abandono, desvalorização ou de nunca ser suficiente — vale a pena olhar com mais carinho para essa história. O presente, muitas vezes, apenas ilumina capítulos que permaneceram abertos dentro de nós. Reconhecer isso não enfraquece a nossa dor; ao contrário, oferece a oportunidade de cuidar da sua verdadeira origem.”
Perceber essa dinâmica não invalida a dor nem absolve o comportamento do outro. As duas coisas podem ser verdade ao mesmo tempo. O que muda com o autoconhecimento é a capacidade de distinguir o que pertence a cada camada da experiência e responder de forma mais adequada a cada uma delas.
Leny descreve a transformação que acontece quando alguém consegue ir além do simples “fiquei com raiva” e nomear o que realmente foi mobilizado. “Descobrimos que, por trás da raiva, muitas vezes existe um pedido de acolhimento; por trás da irritação, um limite que foi ultrapassado; e, por trás de um silêncio, uma dor que nunca encontrou espaço para ser escutada. O autoconhecimento não impede que sejamos machucados, mas nos ensina que as feridas não precisam ditar a forma como amamos, nos relacionamos e seguimos em frente. É quando acolhemos a nossa própria dor que deixamos de ser guiados por ela.”
Essa mudança começa antes mesmo da conversa acontecer, quando conseguimos separar o impulso emocional imediato da necessidade que está por trás dele. O diálogo que nasce desse lugar é diferente não apenas porque as palavras costumam ser mais cuidadosas, mas porque a intenção que as orienta também muda.
Mudar o outro é mais difícil
Já reparou como esperar que o outro mude pode ser mais desgastante do que voltar o olhar para si?
A armadilha não está em desejar que a relação melhore, mas em colocar exclusivamente nas mãos do outro a condição para que isso aconteça.
Leny explica que “não podemos transformar o comportamento de alguém, apenas a forma como escolhemos nos relacionar com aquilo que vivemos”.
“Quando voltamos o olhar para nós mesmos, deixamos de entregar ao outro a chave da nossa paz. Passamos a reconhecer nossas necessidades, fortalecer nossos limites e fazer escolhas mais conscientes.”
Gomes organiza esse movimento em quatro dimensões complementares: reconhecer as próprias emoções e necessidades, desenvolver uma escuta atenta das próprias reações, expressar com clareza aquilo de que se precisa sem exigir mudanças impossíveis do outro e aprofundar o autoconhecimento sobre os padrões emocionais que influenciam nossas respostas.
Olhar para si não substitui o diálogo. Também não significa resolver tudo sozinho antes de conversar. Alguns conflitos só encontram saída no encontro, na conversa e na construção conjunta de algo que nenhuma das partes conseguiria alcançar isoladamente. O autoconhecimento não elimina esse processo; apenas transforma a maneira como ele acontece.
Leny resume: “Os conflitos fazem parte da experiência humana e, embora muitas vezes comecem no encontro com o outro, também nos convidam a um encontro conosco. Cada desconforto pode revelar não apenas o que precisa ser transformado na relação, mas também aquilo que pede cuidado dentro de nós. Afinal, toda transformação genuína começa quando temos a coragem de olhar para dentro sem deixar de estender a mão para o outro.”
Saber distinguir o que pode ser elaborado individualmente do que precisa ser levado para a conversa também faz parte desse caminho. Às vezes, o incômodo perde força quando percebemos que estamos revivendo uma dor antiga que pouco tem a ver com a pessoa à nossa frente. Em outras situações, é justamente a conversa que permitirá reparar o que foi rompido.
Reconhecer essa diferença não elimina os conflitos. No entanto, torna possível responder a eles com mais clareza, sem confundir o que pertence à nossa história com aquilo que, de fato, aconteceu na relação presente.
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