E se a história do rock fosse contada pelo guarda-roupa feminino?

Foto: Getty Images
A história do rock também pode ser contada pela imagem. Ao longo das décadas, roupas, cabelos, maquiagem e gestos ajudaram a construir movimentos e a comunicar rupturas antes mesmo do primeiro acorde. Nesse processo, mulheres desafiaram o espaço que lhes era reservado na indústria e criaram novas possibilidades de representação dentro e fora dos palcos.

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Na Nova York dos anos 1970, Debbie Harry tornou-se um dos rostos mais reconhecíveis da cena punk e new wave. À frente do Blondie, a cantora aproximou a crueza do underground do glamour e da cultura pop. Camisetas, peças rasgadas, couro e vestidos conviviam em uma imagem que explora a feminilidade sem assumir uma postura passiva. Harry ajudou a provar que sensualidade e atitude não precisavam ocupar lados opostos no rock.

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No Brasil, Rita Lee construiu uma trajetória marcada pela irreverência. Dos Mutantes à carreira solo, sua imagem acompanhou as transformações da música e da cultura brasileira. A psicodelia, o glam e o gosto pelo exagero apareciam em figurinos, acessórios e cabelos que recusavam qualquer ideia de discrição. Mais do que uma escolha estética, a moda fazia parte da maneira como Rita questionava os comportamentos esperados das mulheres de sua geração.

Foto: Reprodução/Instagram/@cassiaelleroficial
Décadas depois, Cássia Eller apresentou outra leitura sobre a presença feminina no rock nacional. Sua imagem era construída a partir da simplicidade: regatas, camisetas, jeans e cabelos curtos. Ao rejeitar códigos tradicionais de feminilidade, a cantora transformou a própria presença em palco em uma afirmação. Sua estética andrógina e direta tornou-se inseparável de sua identidade artística.

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Nos anos 1990, Courtney Love levou o contraste ao centro da estética grunge. Vestidos delicados, slips, rendas e referências infantis apareciam ao lado de meias rasgadas, cabelos desalinhados e maquiagem borrada. Conhecido como kinderwhore, o estilo subvertia símbolos tradicionalmente associados à delicadeza feminina. Em Courtney, o romantismo parecia propositalmente desfeito, criando uma das imagens mais influentes da década.

Foto: Reprodução/Instagram/@pitty
Já nos anos 2000, Pitty ocupou um espaço ainda pouco concedido às mulheres no rock brasileiro mainstream. Sua estética, marcada pelo preto e por referências punk e alternativas, acompanhava letras e posicionamentos que questionavam padrões e expectativas. Em um período dominado por bandas lideradas por homens, sua presença ajudou a ampliar o imaginário em torno de quem poderia ocupar o centro da cena. Assim como, à frente do Gossip, Beth Ditto fez da moda uma extensão de sua presença no palco. Cores intensas, estampas, vestidos ajustados e silhuetas que valorizavam o corpo construíram uma imagem ousada diante da falta de representatividade plus size na moda e no rock. Musa de nomes como Jean Paul Gaultier e Marc Jacobs, a cantora também criou sua própria linha de roupas em tamanhos maiores e fez de seu ativismo LGBTQIAPN+ parte de sua trajetória pública.
Hoje, os códigos do rock atravessam as fronteiras do próprio gênero musical. Charli XCX é um exemplo dessa transformação. Vinda da música pop e eletrônica, a artista incorpora à sua imagem contemporânea elementos historicamente ligados ao arquétipo da rockstar: provocação, imperfeição e recusa ao excesso de polimento. Mais do que uma referência literal ao punk ou ao rock, sua estética mostra como a atitude construída por gerações anteriores continua sendo reinterpretada pela cultura pop.

Foto: Reprodução/Instagram/@bethditto
De Debbie Harry a Charli XCX, essas artistas pertencem a contextos, países e momentos distintos. O que as aproxima é a capacidade de entender a imagem como parte de sua linguagem. Ao desafiar padrões de feminilidade e construir códigos visuais próprios, elas não apenas ocuparam espaço no rock: ajudaram a transformar a maneira como o enxergamos.
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