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Belo Horizonte,13/07/2026

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Como o esporte ajuda a criar e fortalecer vínculos

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Como o esporte ajuda a criar e fortalecer vínculos
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Alguns anos atrás, eu sentia que começar a praticar um esporte novo era muito difícil. Na minha cabeça era algo sempre alinhado à ideia de competição, desempenho ou estética. E nenhum desses três me despertava nenhuma vontade de criar esse novo hábito.


Passado o tempo, com o boom de academias, grupos de corrida e de pedal, quadras de futevôlei e beach tennis; começaram os convites que pareciam algum tipo de loucura, desde correr sábado de manhã à um passeio de bike noturno na quarta feira.


Aos poucos o esporte foi ganhando espaço na minha vida para além do que eu imaginava. Quando estamos acompanhados, às vezes simplesmente suando em silêncio, as atividades físicas podem ser um novo lugar para se reconectar com as pessoas. Não é uma coincidência que essa procura tenha crescido justamente num período onde o mundo está passando por uma crise de saúde mental. Dividir experiências como essas com alguém pode ser o que mais aproxima.


Silvia Kelly Bosi, neuropsicopedagoga, descreve esse processo. “Praticar um esporte em grupo vai muito além da atividade física. Nós somos seres sociais, e o sentimento de pertencimento exerce um papel importante na manutenção de novos hábitos. Quando fazemos parte de um grupo, deixamos de depender apenas da motivação individual. Saber que existem pessoas esperando por nós, compartilhando objetivos semelhantes e incentivando nossa evolução aumenta o comprometimento e torna a prática mais prazerosa e consistente ao longo do tempo.”


A pessoa que corre sozinha precisa encontrar dentro de si mesma, toda manhã, a força de levantar antes do alarme, enquanto a que pertence a um grupo sabe que tem um compromisso com alguém que não é ela mesma. 


O ambiente que molda o hábito


A tendência de associar hábito a força de vontade individual ignora algo que a neurociência e a psicologia confirmam com consistência: o ambiente em que uma pessoa vive determina, em grande parte, os comportamentos que ela consegue sustentar. Não são apenas os valores pessoais que importam, mas o padrão daquilo que as pessoas ao redor fazem, valorizam e esperam.


Thaís Barbisan, psicóloga e neuropsicóloga, coloca isso em termos diretos ao falar sobre quem tem dificuldade de criar ou manter hábitos saudáveis.


“O grupo pode ser um importante facilitador para quem tem dificuldade em criar ou manter hábitos saudáveis. Isso porque a convivência favorece a responsabilidade, a consistência e a permanência na rotina, fatores fundamentais para que um novo comportamento se transforme em hábito. Além disso, a prática esportiva em grupo estimula habilidades sociais, como cooperação, empatia e trabalho em equipe, e fortalece o compromisso com a atividade.”


Com o tempo, os comportamentos que antes exigiam esforço consciente passam a operar de forma mais automática, porque o ambiente os reforça continuamente, e quem convive com pessoas que acordam cedo para treinar começa a encarar isso como normal, não como um feito excepcional.


A atividade física em grupo também promove a liberação de neurotransmissores associados ao bem-estar e à motivação, e o efeito disso não se encerra quando o treino termina.


A disposição, o foco e o equilíbrio emocional que resultam dessa prática tendem a se espalhar por outras áreas da vida, criando uma base sobre a qual outras escolhas mais saudáveis se sustentam com mais facilidade. Barbisan aponta que esses benefícios costumam repercutir no trabalho, nos estudos e nos relacionamentos, não como consequência indireta, mas como parte do mesmo processo.


O que o esporte ensina fora da prática


Existe uma diferença entre aprender que disciplina é importante e aprender o que o que essa disciplina custa, e a segunda aprendizagem não vem de livros nem de podcasts de autoajuda. Tem coisas que aprendemos só na pele, e fazer algo quando não estamos afim é uma delas. Levantar para ir treinar numa dessas manhãs frias e chuvosas, ou correr em um domingo depois de sair em um sábado, não parece agradável, mas faz parte do processo.


“A prática em grupo desenvolve habilidades importantes, como compromisso, disciplina, responsabilidade e cooperação. A pessoa aprende que manter a constância é importante mesmo nos dias em que a motivação está menor e percebe o valor de apoiar e ser apoiada. Essas competências costumam se refletir no ambiente de trabalho, nos estudos, nos relacionamentos e na forma como enfrentamos desafios cotidianos”, resume Silvia.


A pessoa que aprende a se comprometer com um grupo de corrida às seis da manhã não se torna disciplinada do dia pra noite, mas passa a conhecer de dentro o que significa sustentar algo difícil, e esse conhecimento muda a forma como ela se relaciona com qualquer outra coisa que exija persistência.


Barbisan expande essa ideia ao tratar das habilidades sociais que o esporte coletivo desenvolve.


“A convivência em grupos esportivos vai muito além da motivação para treinar. Ela favorece o desenvolvimento de habilidades sociais importantes, como cooperação, empatia, comunicação, respeito às diferenças e senso de pertencimento. O esporte em equipe ensina que, muitas vezes, o resultado depende da contribuição de todos, e isso fortalece o compromisso coletivo e a capacidade de lidar com desafios em conjunto.”


Para quem tem dificuldade de socialização, esse ambiente funciona também como um treino de presença, de exposição gradual ao outro dentro de um contexto que tem regras, objetivos e uma lógica compartilhada.


A consequência disso, depois de criar e sustentar esse novo hábito, é uma pessoa que se comunica com mais clareza, que suporta melhor a frustração e que sabe trabalhar sem precisar controlar tudo. Essas habilidades emergem do processo de conviver com outros sob pressão e de descobrir, na prática, que ninguém chega mais longe completamente sozinho.


Por que as amizades do esporte ficam


Muita gente entra num grupo de corrida ou numa aula de yoga com um objetivo bastante delimitado, perder peso, melhorar o cardio, sair um pouco da frente do computador, e descobre alguns meses depois que o que ficou não foi apenas a evolução individual, mas as pessoas. E isso é uma consequência estrutural da forma como esses vínculos se constroem.


Barbisan descreve esse processo a partir de uma imagem sobre como o ser humano funciona em relações.


“Nós funcionamos como um organismo vivo: assim como as diferentes partes do nosso corpo dependem umas das outras para funcionar em equilíbrio, também nos desenvolvemos por meio das relações. Quando um grupo compartilha um objetivo em comum, cria-se um movimento de cooperação e pertencimento. É como uma espiral: aquilo que recebemos do grupo influencia a forma como pensamos, sentimos e agimos, e aquilo que levamos para o grupo também transforma as pessoas ao nosso redor.”


O que torna essas amizades mais duradouras do que muitas construídas em contextos sociais convencionais é o fato de que elas nascem dentro de uma experiência compartilhada, não de uma afinidade abstrata.


“Quando as pessoas compartilham objetivos, valores e experiências, as conexões tendem a ser mais genuínas. Enfrentar desafios juntos, celebrar conquistas e acompanhar a evolução uns dos outros fortalece o vínculo de confiança e pertencimento. Por isso, muitas amizades construídas em grupos esportivos ultrapassam o ambiente dos treinos e se tornam relações duradouras e significativas”, observa Silvia.


Um aspecto que costuma aparecer em segundo plano nas discussões sobre saúde e atividade física é o efeito do esporte sobre a saúde mental, não apenas como consequência indireta do exercício, mas como resultado direto dessa dinâmica. Barbisan aponta para algo que acontece durante a prática coletiva e que vai além dos efeitos fisiológicos.


“Esportes coletivos ajudam a direcionar a atenção para o momento presente. Durante a atividade, a pessoa precisa focar na dinâmica do jogo, nos colegas e nos objetivos da equipe, o que reduz a preocupação com as demandas do dia a dia e funciona como uma pausa mental da rotina. Esse envolvimento torna a atividade mais prazerosa e aumenta as chances de que ela se transforme em um hábito duradouro.”


O cérebro que passa uma hora sem processar pendências, conflitos e antecipações de problemas futuros não está apenas descansando, mas interrompendo um ciclo de ativação que, quando contínuo, produz exaustão e reduz a capacidade de regular emoções. O esporte, nesse sentido, não é apenas uma forma de gastar energia, mas de reorganizá-la.


Os grupos esportivos respondem a uma necessidade que as cidades contemporâneas tornaram mais difícil de suprir de outras formas, a necessidade de pertencer a algo, de se mover com outras pessoas, de ter um compromisso que é ao mesmo tempo pessoal e coletivo. O esporte não resolve a solidão, mas oferece um terreno onde algo diferente pode começar a crescer.


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