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Belo Horizonte,10/07/2026

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O CEO de si

tecmundo.com.br
O CEO de si
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Em algum momento das últimas décadas, deixamos de apenas trabalhar em empresas e passamos a administrar a nós mesmos como se fôssemos uma delas. Temos que bater a meta de proteína diária, superar o pace na corrida, aumentar o peso na academia. Temos que nos conhecer mais, nos desenvolver pessoalmente, trabalhar num crescimento contínuo. A gente acompanha as metas num app e até o sono passou a ser monitorado. Não somos humanos vivendo. Somos gestores da própria vida. CEOs de si.

Fica cada vez mais claro como a lógica neoliberal deixou de organizar apenas as empresas e passou a organizar também a forma como pensamos a nós mesmos. Por isso falamos tanto em desempenho e evolução. A vida passou a ser narrada como uma trajetória de crescimento contínuo.

A própria linguagem denuncia isso. Quando alguém volta a enfrentar uma dificuldade antiga, costuma dizer que “regrediu”. Quando consegue lidar melhor com uma situação, diz que “evoluiu”. Quando atravessa uma crise, sente que está “andando para trás”. Na terapia, “trabalha-se” questões.

Existe aí uma espécie de imaginário contemporâneo que associa felicidade à ideia de avanço constante, de performance. Se antes éramos cobrados a crescer dentro das empresas, hoje somos convocados a “ser a melhor versão de si” o tempo todo e em todos os âmbitos. Como profissionais, parceiros, pais, mães, líderes e indivíduos. A lógica da performance deixou de ser apenas uma exigência corporativa e se transformou em uma forma de enxergar a própria vida. O problema é que a psique humana não parece funcionar da mesma forma que uma empresa.

Lacan oferece uma perspectiva interessante sobre isso. Diferentemente da ideia contemporânea de desenvolvimento contínuo, ele não pensa o sujeito como alguém que avança em linha reta rumo a versões cada vez melhores de si mesmo. A experiência psíquica é muito menos previsível e mais dinâmica, que se repete e se reposiciona. O sujeito não evolui necessariamente, mas pode ocupar lugares diferentes diante dos mesmos conflitos.

Isso significa que a mudança não acontece da forma organizada, cumulativa e progressiva que costumamos imaginar. O sujeito pode produzir novas respostas para velhas questões e construir outras formas de lidar com aquilo que o atravessa. A gente precisa de tempo para elaborar, simbolizar, ressignificar.

E é justamente aí que mora um dos grandes descompassos da atualidade. De um lado, uma cultura que nos convida a medir a vida em termos de crescimento, desempenho, evolução e resultados. Do outro, seres humanos atravessados por contradições, repetições, desejos e conflitos que raramente obedecem a essa lógica.

O problema não está apenas na cobrança externa. Em grande medida, nós a internalizamos. Passamos a avaliar nossas relações, emoções, escolhas e trajetórias a partir dos mesmos critérios que utilizamos para avaliar produtividade.

Muitos pensadores já nomearam esse sujeito contemporâneo: o sujeito da dor, do espetáculo, do cansaço. E todos encostam no mesmo lugar: parte do sofrimento contemporâneo encontra terreno fértil na expectativa de que a experiência humana possa funcionar segundo a mesma lógica que utilizamos para gerir economias e empresas.

Se nos tornamos CEOs de nós mesmos, talvez valha a pena perguntar quem definiu nossas metas. E, principalmente, o que estamos perdendo quando passamos a enxergar a vida apenas através da performance.




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