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Belo Horizonte,04/07/2026

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Inglês, desenhos e padrões: por que algumas crianças autistas podem se identificar tanto com um segundo idioma?

Fonoaudióloga explica

Assessoria de Imprensa
Inglês, desenhos e padrões: por que algumas crianças autistas podem se identificar tanto com um segundo idioma? Paula Anderle - Fonoaudióloga/ Foto: Gabriela Jardim
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Fonoaudióloga explica como o cérebro autista pode encontrar no inglês uma forma de comunicação mais previsível e organizada, favorecendo o interesse e a aprendizagem da língua.

Muitos pais se surpreendem ao perceber que seus filhos autistas começam a falar palavras em inglês antes mesmo de dominar completamente o português.

Expressões aprendidas em desenhos animados, vídeos do YouTube, jogos eletrônicos e músicas passam a fazer parte da rotina da criança, que em alguns casos demonstra até preferência pelo idioma estrangeiro.

Embora o fenômeno ainda esteja sendo investigado pela ciência, pesquisadores têm observado que algumas crianças autistas desenvolvem uma relação particularmente forte com uma segunda língua, especialmente o inglês, mesmo sem exposição formal ao idioma.

O tema tem despertado o interesse de especialistas em linguagem e neurodesenvolvimento em diferentes países. 

Segundo a fonoaudióloga Paula Anderle, esse interesse pode estar relacionado a características próprias do funcionamento cognitivo de muitas pessoas autistas.

“Algumas crianças autistas apresentam grande habilidade para identificar padrões, regularidades e estruturas. Como o inglês está muito presente em músicas, jogos, vídeos e aplicativos consumidos diariamente, ele pode se tornar uma fonte de interesse intenso e prazeroso para essas crianças”, explica.

O inglês pode parecer mais previsível

Diferentemente da comunicação social, que envolve múltiplas pistas emocionais,  contextuais e de entonação, a linguagem presente em vídeos, desenhos e jogos costuma ser repetitiva e previsível.

“Quando uma criança assiste repetidamente ao mesmo conteúdo, ela passa a reconhecer sequências de palavras, entonações e estruturas linguísticas. Essa previsibilidade favorece a aprendizagem, especialmente para crianças que gostam de rotinas e padrões bem definidos”, afirma Paula.

Além disso, muitos conteúdos infantis utilizam frases curtas, comandos objetivos e vocabulário altamente repetido, características que facilitam a memorização. O que dizem as pesquisas?

Um estudo publicado em 2026 na revista Language, Speech and Hearing Services in Schools demonstrou que crianças autistas bilíngues podem aprender novas palavras em uma segunda língua com desempenho semelhante ao de crianças sem autismo, contrariando antigas crenças de que a exposição a mais de um idioma poderia prejudicar o desenvolvimento da linguagem. 

Outras pesquisas recentes também indicam que o bilinguismo não traz prejuízos ao desenvolvimento linguístico de crianças autistas e pode, inclusive, favorecer habilidades metalinguísticas, ou seja, a capacidade de refletir sobre a própria linguagem. 

Quando a criança prefere falar em inglês

Em alguns casos, a família percebe que a criança utiliza palavras ou frases em inglês com mais frequência do que no idioma falado em casa. Isso não significa necessariamente que ela domine melhor o inglês do que o português.

“Muitas vezes a criança está reproduzindo expressões que escuta frequentemente nos conteúdos de que gosta. Não é apenas uma questão de idioma, mas também de vínculo afetivo com aquele universo de interesse”, explica Paula. A especialista ressalta que essa preferência não deve ser encarada como um problema.
“Quando a criança demonstra interesse espontâneo por uma língua estrangeira, isso pode ser utilizado como uma ferramenta de desenvolvimento da comunicação. O importante é valorizar essa motivação e transformá-la em oportunidades de interação.”

Aprender dois idiomas não atrapalha o desenvolvimento

Durante muitos anos, algumas famílias receberam a orientação de limitar a exposição da criança autista a apenas um idioma. Hoje, a maior parte das pesquisas aponta que essa recomendação não tem respaldo científico.

Uma revisão internacional da Springer Nature Link publicada em 2025 concluiu que restringir o contato com mais de uma língua pode inclusive limitar experiências familiares, sociais e culturais importantes para a criança.

“Se a criança vive em um ambiente bilíngue ou demonstra interesse por outro idioma, não existe motivo para impedir esse contato. O mais importante é garantir experiências comunicativas significativas, respeitando o ritmo e os interesses de cada criança”, destaca Paula Anderle.

O papel dos pais Para a fonoaudióloga 

A curiosidade pelo inglês pode ser uma excelente porta de entrada para estimular a linguagem, interação social e aprendizagem.

“Se a criança gosta de músicas em inglês, desenhos ou jogos, os pais podem participar dessa experiência, cantar junto, comentar personagens e ampliar as oportunidades de comunicação. O interesse especial não precisa ser combatido; ele pode ser transformado em uma poderosa ferramenta de desenvolvimento”, aconselha Paula. 

Foto: Gabriela Jardim


Paula Anderle é fonoaudióloga, analista do comportamento, especialista em Transtorno do Espectro Autista (TEA). Atua com avaliação e intervenção precoce, com foco na comunicação funcional, incluindo fala, linguagem e recursos de Comunicação Aumentativa e Alternativa (CAA). Seu trabalho é voltado à promoção da autonomia e da interação social de crianças autistas, com abordagem individualizada e baseada em evidências.





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