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Belo Horizonte,03/04/2026

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Como as paisagens influenciam nossos vínculos e emoções

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Como as paisagens influenciam nossos vínculos e emoções
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Pare por um instante e olhe pela janela: haverá uma paisagem. Ela pode ser formada por lugares cheios de beleza, como as montanhas de Minas Gerais, as falésias do Rio Grande do Norte ou os lindos mares dos mais diversos litorais brasileiros. Mas também haverá um quintal cheio de plantas, uma rua cheia de carros ou um emaranhado de prédios cinzas. Independentemente do que toca seus olhos neste momento, não deixa de ser uma paisagem. E essas imagens influenciam nosso bem-estar, relações, emoções e até a percepção do tempo, mesmo quando esse impacto passa despercebido.


Afinal, habitar um lugar nunca é um gesto neutro. A arquiteta, urbanista e pesquisadora de Geografia Humanista Cultural, Gabriela Gazola, partiu dessa premissa para escrever o livro “Ser-Terra: paisagens do café” (Cancioneiro), em que ela propõe uma reflexão sobre a intimidade entre o ser humano e o planeta, por meio de uma obra que nasce do encontro entre o saber acadêmico e a experiência vivida.


O livro parte da pergunta sobre como os espaços atravessam nossa existência e constroem quem somos. Para investigar essa relação, a autora escolheu como campo de estudo os campos de café da Mantiqueira de Minas Gerais – território que constitui sua origem e memória afetiva.


O que é paisagem?


“O conceito de paisagem vai muito além daquelas que transmitem beleza. Uma visão dos prédios de uma metrópole também certamente é uma paisagem. Todo conjunto de elementos diversos capaz de ser percebido por nós como unidade é uma paisagem, cada qual com suas características próprias”, destaca Gabriela, em entrevista à Vida Simples.


“Paisagem é uma experiência que, como qualquer outra, nos afeta de algum modo. E pode afetar transmitindo beleza ou não – até mesmo repulsa, como sugere o conceito de topofobia, explorado pelo geógrafo sino-americano Yi-Fu Tuan, discutindo sobre a aversão e o medo que sentimos em determinados lugares”, acrescenta.



“O conceito de Corpo-Terra nos recorda de que percebemos o mundo via corpo, os sentidos nos trazem informações que elaboramos cognitivamente para transformar em percepções, as quais participam de processos como construção da visão de mundo, pertencimento, identidade, dentre muitos outros.”



(Foto: Gabriela Gazola/Divulgação) Paisagem e trabalho: um dos focos da obra


O que nos chega pelo sentir


Gabriela cita como exemplo justamente o contexto de uma grande cidade:


“Os elementos que constituem suas paisagens, os tipos de estímulos que ambientes urbanos complexos oferecem, os tipos de contatos estabelecidos por nosso corpo ao longo de um dia… A partir do que nos chega pelo sentir (pelo corpo e todos os seus sentidos) e, posteriormente, pela percepção, conseguimos compreender um pouco sobre algumas das questões que nos atravessam e compõem nossa visão de mundo.”


As grandes metrópoles são marcadas por um ritmo acelerado e pela lógica da produtividade. Gabriela explica que no seu campo de estudo, os campos de café da Mantiqueira de Minas Gerais, também há esse espectro. No entanto, pontua que a paisagem faz outros convites e outras exigências, sobretudo para as pessoas que trabalham diretamente com o cultivo do café: sujeitar-se ao tempo da Terra.



“Tentar acelerar não gera bons resultados. Há que se respeitar os ciclos, os tempos da planta. Este aprendizado palpável do mundo-vivido impacta ritmos de trabalho e, consequentemente, de vida.”



Capa do livro ‘Ser-Terra’


A influência dos ambientes


Mas, afinal, de que maneira o ambiente atravessa comportamentos e relações sem que percebamos, e quais são os riscos de ignorar essa influência no viver contemporâneo? A pesquisadora nos dá um norte sobre esse aspecto, novamente com um exemplo que esclarece bem o impacto das paisagens em nossas vidas e relações.


“Gosto de ilustrar essa questão da influência do ambiente sobre relações e comportamentos com exemplos extremos, como os povos do Círculo Polar Ártico. As características daquele ambiente favorecem determinados tipos de relações sociais que são bem distintos daqueles favorecidos por ambientes litorâneos do estado da Bahia. Os comportamentos acontecem em resposta ao ambiente”, explica.


“Ignorar as influências do ambiente é reduzir a consciência a respeito de nós mesmos e reduzir as possibilidades de conhecer nossos próprios processos de funcionamento, tanto fisiológicos como emocionais e cognitivos. Além disso, é desperdiçar informações que podem nos apoiar a melhorar os ambientes em que vivemos”, complementa.



“Perceber nossas respostas físicas e emocionais às paisagens é uma maneira de enxergarmos e conhecermos a nós mesmos. Perceber que as paisagens que habitamos nos constroem é, em última análise, dar-nos conta de que há uma unidade nessa relação. Essa percepção facilita a compreensão de que somos parte de um todo – o afetamos e somos afetados por ele.”



(Foto: Rovena Rosa/Agência Brasil) Jardim projetado por Burle Marx no prédio do Centro Cultural Fiesp: uma bela paisagem mesmo com o cinza de São Paulo


Um mundo-vivido


Para finalizar, Gabriela conta, com muito carinho, uma cena que a marcou durante o processo de pesquisa e construção do livro:


“Muitas foram as experiências que me afetaram ao longo dos trabalhos de campo. Destaco uma delas, que foi participar da colheita do café, ou ‘panha’, como costumam dizer as pessoas locais. A saída coletiva rumo à plantação de café na madrugada gelada, o nascer do sol no alto da lavoura, o trabalho do corpo retirando grãos diante dos pés de café, as conversas, o almoço no chão de terra entre arbustos, a sequência do labor até o sol alto e o retorno coletivo à cidade”, relata.



“Experienciar, ainda que minimamente, alguns dos elementos que compõem o mundo-vivido daquelas pessoas foi desvelador, apoiando minha compreensão sobre o que é habitar aqueles lugares.”



 


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