O cérebro que não aceitou o não
Doze médicos, umas trinta clínicas de fisioterapia, e cinco anos incapaz de colocar um lençol sobre o próprio pé. Esse é o meu CV que não aparece na bio. Desde que me conheço, amo esportes. Hipismo, corrida de aventura, paraquedismo, mergulho, corrida, natação, ciclismo e triathlon. Treinava duas vezes por dia, tinha 6,5% de gordura corporal. O esporte era meu laboratório de mente e corpo, foi onde aprendi desde cedo aliar resistência mental e física.
Mas, antes de mais nada, é importante frisar que este não é um depoimento fatalista, triste. Muito pelo contrário, ele é de superação. Ele é a comprovação do poder do nosso cérebro. Voltando aos treinos de Triathlon, veio uma dor crescente que eu insisti em ignorar, até o dia que não aguentei mais. O diagnóstico: uma calosidade no ossinho chamado os trigonum. “Cirurgia simples”, disseram. E era, só que não!
Seis meses depois, comecei a perder estabilidade e a cair. Dor crônica. Doze especialistas. E o laudo: “erro médico”. E esse erro mudou tudo. O cirurgião seccionou parcialmente meu nervo plantar, responsável pelo equilíbrio. Perdi dois terços do movimento no pé direito. Prognóstico: esqueça o esporte, você sequer vai andar normalmente. Choque! Sem equilíbrio, sem estabilidade. Minha rotina era contada em número de passos, e o número era bem baixo.
Cinco anos assim. Uma segunda cirurgia. Vinte quilos a mais. Depressão. Remédios para tudo. Quem convive com dor crônica sabe que o emocional acaba, você perde estima, força de vontade e amigos. Quando um atleta precisa parar de treinar de uma hora para outra, ocorrem algumas mudanças rápidas em vários sistemas, do cardiorrespiratório, muscular, hormonal e até metabólico e cerebral. Isso é chamado de detraining. O humor é afetado, pode acontecer um aumento de ansiedade, uma sensação de abstinência que impacta diretamente na energia, sono, motivação e qualidade de vida. Acontece a perda de massa muscular e aumento de peso corporal. Fora a sensação de vazio. Meu cérebro bugou e levou junto meu corpo e quase a minha vida.
‘Coloca o pé aqui’
Estava em uma bifurcação, era aceitar ou não aceitar o veredicto, sem meio termo. E eu disse para mim mesmo: “Eu não aceito o não antes de tentar”. Recusei a bengala. Parei parte dos remédios que me tiravam da realidade. Comecei a treinar meu cérebro. Dez passos viraram quinze que viraram vinte. Desconforto puro, mas o único caminho. Eu já estudava neurociência, mas ela foi pivotada da teoria para a prática. Bem como a neuroplasticidade. A Neurociência é o campo científico que estuda o sistema nervoso como um todo, estrutura, função, bioquímica, desenvolvimento e alterações, engloba desde o funcionamento dos neurônios até a consciência humana. Já a neuroplasticidade é um fenômeno dentro da neurociência, é a capacidade do cérebro de se modificar, criar novas conexões e reorganizar seus circuitos ao longo da vida. Se a neurociência é o mapa, a neuroplasticidade é o caminho.
Pois bem, aquele “eu não aceito o não antes de tentar” era a chave. Descobri que havia perdido não só o movimento, mas a memória motora de andar, aquele padrão automático e inconsciente. Eu racionalizava cada passo, pensando “agora coloca o pé aqui”. Foi o Guilherme, fisio que me acompanha até hoje, que me fez voltar a andar. Primeiro fez meu cérebro reaprender a andar, depois o corpo executar de forma inconsciente. Anos de fisioterapia. Aprendia na clínica, fazia em casa, no trabalho, em tudo o que era lugar. Fui obstinado. Não tinha dia, não tinha horário. A cada repetição, uma memória nova sendo escrita, porque a memória não se apaga, ela se subscreve.
Dessa maneira, construí um novo padrão mental, com método. Oito anos depois, voltei a pensar em qual esporte eu retomaria, visto que não dava mais para praticar corridas muito longas ou esportes com extremo impacto. E a resposta veio naturalmente: alta montanha. Escalar uma montanha não é apenas físico, é um jogo mental de altíssima demanda cerebral. Em altitude, a hipóxia afeta negativamente a memória, a atenção e o julgamento. Estresse físico intenso e prolongado, a amígdala grita para parar. Exige a necessidade de decisões rápidas, sob risco real de vida, que sobrecarregam o córtex pré-frontal. Você precisa lidar com gestão de medo real e antecipatório, com fadiga física intensa e privações sensoriais. E você precisa responder com método, com respiração, foco, microdecisões, com presença total. Diferenciar dor de alerta de dor de lesão. A montanha mostra quem manda. E isso tem tudo a ver comigo, tem tudo a ver com a Neura, com o Andre como um todo.

Andre encontrou na escalada de montanhas o esporte perfeito para sua nova jornada
Montanhas e vulcões
Foram anos de preparo e treinamento. Em outubro de 2024, doze dias escalando várias montanhas em Ushuaia. Em outubro de 2025, quatro vulcões no Equador em dez dias de expedição, chegando a 6.310m e sensação térmica de -20º. Escalar muda mais do que o corpo. Muda o cérebro. Tenho dor diariamente e faço fisioterapia até hoje. Mas a dor não me comanda mais. A maioria dos médicos não acredita no que faço, e não tem ideia do que ainda farei. Eu me provoquei, porque provocar é causar impacto, mas transformar é sustentar esse impacto com consistência. É biologia aplicada. E começa dentro do cérebro. É a neuroplasticidade saindo do papel e impactando a vida real. Minha dor virou método e a curiosidade virou ciência.
Meu maior ativo não é a dor que superei. É o que decidi fazer com ela. Aprendi a usar o caos, ruído, tensão, conflito como diagnóstico do sistema. A partir daí, construí uma nova ordem que faz sentido no cérebro (atenção e memória), na cultura (significado) e na operação (execução). O que aprendi no corpo aplico nas organizações. A transformação acontece quando você intervém onde o cérebro decide, na percepção, hábito e memória. Muitas vezes, o automático vira achismo travestido de dado, decisão reativa, estratégia que vira slide. Meu problema é real, físico e permanente. Entendi o que tenho. Apliquei a neuroplasticidade e ressignifiquei minha lesão.
Não se engane, a potência não é dom, é construção cerebral. O cérebro é plástico e está em permanente transformação. O diferencial que temos como ser humano está na capacidade de reorganizá-lo com intenção. Você não nasce potente. Você se torna. E isso é ciência. Potência não é o que temos hoje. É o que podemos construir com o cérebro que nós temos.
Muita gente atravessa a dor. Pouca gente converte essa travessia em ciência, linguagem e ferramenta. Minha história não é um capítulo pessoal, é uma plataforma de estudo. Você também pode reescrever sua trajetória. Mesmo quando te disserem que não. Nunca aceite o não antes de tentar.
Andre Cruz é estrategista de marca e negócio, fundador da Neura.cx, mentor UnLock 6D, atleta amador e adepto da alta montanha.
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