O campo de batalha estético da Copa 2026
A Copa do Mundo de 2026, a primeira com 48 seleções, transformou-se em uma vitrine sem precedentes para a moda. Se dentro das quatro linhas a disputa é pelo troféu, nos bastidores, o embate ocorre entre o luxo das superpotências e o despertar criativo de nações emergentes. Enquanto França, Inglaterra e Alemanha utilizam a alfaiataria como símbolo de tradição secular, países como Uzbequistão, Costa do Marfim, República Democrática do Congo e México vêm delegando aos trajes sociais conceitos de afirmação cultural, utilizando artesanato, têxteis regionais e citações históricas para apresentar suas identidades a uma audiência global.

Foto: Divulgação
Brasil
A única seleção pentacampeã foi fiel à sua vocação mais descontraída (sem perder de vista o viés chique) e desembarcou na América do Norte a bordo da alfaiataria de corte slim e de cor “turmalina”, assinada pelo estilista Ricardo Almeida.

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França
A capital mais fashion do mapa, segue tratando a moda como parte de sua diplomacia. Em uma parceria inédita com a Nike, o estilista Simon Porte Jacquemus levou sua linguagem minimalista para peças desenvolvidas o Mundial. Conhecido por reinterpretar símbolos da cultura francesa com uma estética cosmopolita, Jacquemus incorporou ao projeto elementos que remetem à elegância descontraída do Sul da França, equilibrando alfaiataria, sportswear e referências autorais.

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Espanha
A federação hispânica escolheu a Loewe, marcando a aproximação definitiva entre uma das mais importantes casas de luxo do mundo e o futebol. O dress code incorporou as manualidades da Loewe em uma proposta que une alta-costura moderna e autenticidade.

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Inglaterra
O elenco inglês apostou no famoso “British tailoring”, caracterizado por construção estruturada, sobriedade e atenção aos detalhes. A estratégia consolida uma imagem institucional de tradição e disciplina, com a expertise da varejista Marks & Spencer – que tem lucrado alto com a venda dos modelitos em suas lojas.

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Estados Unidos
A escolha foi pela alemã BOSS, reforçando a tendência de associar a seleção ianque a grandes grupos globais de moda – provavelmente sem o aval do nacionalista Donald Trump. A peça-chave é uma overshirt de modelagem ampla, coordenada com blazer desestruturado e calças bags.

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Portugal
O time de Cristiano Ronaldo seguiu com a Sacoor Brothers, label que acompanha a equipe desde 2018. O uniforme foi tingido de petróleo suave e manteve a silhueta ajustada ao corpo, podendo ser usado com camiseta de tom mais escuro ou camisa social branca.

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Alemanha
O rei das goleadas optou pela tag sueca-germânica Marc O’Polo, que criou um vestuário cheio de funcionalidade e linhas limpas. As roupas priorizaram modelagens industriais (com jeitão de chão de fábrica) e cores neutras, refletindo o gosto pelas construções eficientes e que não travam os jogadores. Talvez essa dobradinha seja o segredo de tantos gols.

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Uruguai
A bicampeã Celeste escalou a estilista Gabriela Hearst para confeccionar os ternos com lã merino uruguaia. Hearst aproveitou a indumentária para incluir símbolos nacionais discretos, demonstrando como a moda pode comunicar pertencimento sem recorrer aos excessos.

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Canadá
Ainda desconhecido no universo fashion, um dos países-sede se permitiu ousar. Sim, os canadenses exibiram sua diversidade cultural, valorizando criadores locais e uma estética que revela heranças europeias, influências indígenas e visão multifacetada do design. O resultado, assinado pela marca Samuelsohn – em collab com a Harry Rosen – é uma alfaiataria feita à mão, menos formal e extremamente coerente com o posicionamento de inclusão e de pluralidade.

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México
Também país-sede (único a abrigar três Copas no currículo), o México ficou no centro de uma baita discussão sobre os limites da apropriação cultural e da exploração do trabalho. A coleção desenhada pela Adidas em parceria com a Someone Somewhere ganhou elementos artesanais astecas feitos pelas artesãs de Puebla. Em cada peça foi anexado um cartão com QR-Code apresentando a artista por trás da elaboração dos bordados. Até aí, tudo lindo; o problema é que a gigante esportiva está repassando pouco mesmo de dois dólares por cada item vendido pela bagatela de 80 doletas! “Pode isso, Arnaldo?”

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República Democrática do Congo
Em seu retorno ao Mundial depois de 52 anos – o antigo Zaire conquistou a audiência global graças aos trajes com ar de manifesto. Idealizados pelo congolês Alvin Junior Mak, dono da marca JMakXParis, os ternos ostentaram detalhes diagonais em uma das lapelas, feitos em animal print (referência ao apelido “Les Léopards, que a seleção carrega), além de um broche brilhante do animal. Com estética La Sape, as vestes rementem a um ato anticolonial de uma subcultura centrada nas cidades de Kinshasa e Brazzaville, na República Democrática do Congo e na República do Congo, respectivamente, e fazem alusão a “Société des Ambianceurs et des Personnes Élégantes” (literalmente “Sociedade dos Criadores de Ambiente e Pessoas Elegantes”).

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Costa do Marfim
Também do continente africano, a equipe costa-marfinense reafirmou sua identidade com a roupa batizada de “Elefante”. Elaborada pelo designer Ibrahim Fernandez, o blazer em nuances sobrepostos de laranja foi ricamente decorado com a figura do elefante (símbolo local) nas costas, e coordenado com camisa e calças brancas. Com a fusão das peças, o estilista condensou a moda cotidiana de Abidjan com elementos totêmicos da fauna local, incorporando grafismos que remetem à rica tapeçaria têxtil da região.
Uzbequistão
Outro estreante desta Copa, o país que faz fronteira com Afeganistão e Cazaquistão, utilizou seu manto para projetar uma nova imagem geopolítica. Os agasalhos complementados pela túnica uzbeque (chapan), desenvolvidos pela grife Saber, mesclam padrões da Rota da Seda com referências à arquitetura islâmica da Ásia Central, mosaicos históricos de Samarcanda e aos tradicionais tecidos ikat, simbolizando a abertura do Uzbequistão ao Ocidente. Vale dizer que os jogadores foram revistados ainda na pista do aeroporto JFK, em Nova York, com cães farejadores especializados em encontrar artefatos explosivos.

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Haiti
Todos esperavam mais um modelito saído da caixola da ítalo-haitiana Stella Jean, nome que revirou a cena da moda desde que surgiu aos olhos do mundo, durante os Jogos Olímpicos de 2024. Mas, desta vez, quem deu forma aos uniformes da seleção haitiana foi a marca colombiana Saeta – que tratou de trazer à tona elementos da batalha de Vertières, primeira luta anticolonial da história, que libertou os escravizados do poderio francês. Infelizmente, a FIFA (sabe-se lá o porquê) vetou a utilização dos uniformes, e fez a Saeta rebolar para colocar o elenco em campo contra a Escócia.
Mas é fora do eixo tradicional que surgem algumas das histórias mais interessantes. O Uzbequistão, estreante em Copas do Mundo, decidiu apresentar-se ao planeta através da SABER, marca local responsável não apenas pelos uniformes esportivos, mas também pelas roupas de viagem e cerimônia.
A África também utiliza o Mundial como vitrine de identidade. Senegal desembarcou com peças inspiradas em sua herança cultural, desenvolvidas pela marca Xakeb, que reinterpretou elementos tradicionais em linguagem contemporânea. Marrocos, por sua vez, apostou na elegância da italiana Pignatelli, enquanto diversas federações africanas vêm ampliando a presença de criativos locais na construção de suas imagens institucionais.
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