Sofrimento não é doença
Uma pílula para acordar, outra para dormir. Se a vida fica cinza demais, comprimidos reviram quimicamente o cérebro para regular o humor. Ansiedade? Medicamentos agem no sistema nervoso num piscar de olhos. Claro, há casos em que intervenções farmacológicas são legítimas e necessárias. No entanto, estamos diante de um fenômeno que extrapola o tratamento de doenças: a medicalização do sofrimento – angústias, sentimentos e emoções constitutivas da vida encontrando espaço somente no silêncio químico. O resultado? Uma anestesia geral na dor natural de existir.
A palavra sofrer vem do latim sufferre, composta pelo prefixo sub (por baixo, embaixo) e o verbo ferre (carregar, transportar). Em essência, sofrer é estar sob o peso de uma carga. Imagine uma relação – amorosa ou não – que está num momento de descompasso: a balança emocional pesa mais para um lado. Quem fica na parte mais baixa, ou no ponto mais frágil da corda, é quem sofre.
Psiquiatra e autor do livro Sofrimento Não é Doença (Sextante), Daniel Martins de Barros explica que esse movimento causa um desgaste que exige energia extra e coloca a pessoa num patamar inferior ao da existência que ela poderia ter. “No entanto, esse sofrimento é inerente ao ser humano. Somos seres imperfeitos, num mundo imperfeito, composto por coisas perecíveis que se desgastam.”
Mas também somos seres imaginativos. “Temos uma capacidade mental que nos permite projetar uma realidade alternativa em que aquele sofrimento não existe. Portanto, além de sofrermos pelo que acontece, ainda somos capazes de imaginar uma situação sem essa dor. Isso cria uma camada extra de sofrimento: ao sofrer, sabemos como seria não sofrer”, aponta.
Emaranhado de emoções
Tristeza, frustração, angústia, idealização… Uma série de sentimentos se embaralham entre coração e mente a cada passo que damos no caminhar da vida. A dor da decepção, por exemplo, tem aquele sabor amargo inconfundível. No entanto, não necessita do amargo de um comprimido. O ponto principal talvez seja como lidar com o emaranhado de emoções que surge durante os inevitáveis percalços da existência.
E não é de hoje. Podemos ver traços dessa discussão em 1930, quando o médico neurologista e pai da psicanálise Sigmund Freud abordou a fuga do sofrimento em um dos seus principais textos sociais: O Mal-estar na Civilização (Penguin-Companhia). Ele questiona esse conflito que parece insolúvel entre as exigências da sociedade e a busca incessante por felicidade. Além disso, afirma que tentamos preencher a consciência com algo externo para não lidar com o desconforto de dentro.
Ao listar as “medidas paliativas” que desenvolvemos para “suportar a vida”, o “método químico” é descrito como o mais perigoso por Freud. Ele destaca que substâncias proporcionam “um desejado grau de independência do mundo externo”, permitindo que o indivíduo se “afaste da pressão da realidade e encontre refúgio num mundo próprio”. Quase um século depois, o texto parece não ter envelhecido – apesar de ter sido escrito em outro contexto histórico e abordar diversos temas, não apenas o sofrimento. De lá para cá, a diferença talvez seja a escala e o poder viciante dos estímulos e substâncias da vida moderna.
Quando a tela do celular apaga, evitamos olhar para nosso próprio vazio, nossa incompletude. Quase uma “epidemia de solidão” num mundo hiperconectado. Irônico, não? Pouco a pouco, perdemos a capacidade de sentir, principalmente quando dói. Todo ser humano é único e tem sua trajetória marcada por sorrisos e feridas. Como escreveu Caetano Veloso em Dom de Iludir, “cada um sabe a dor e a delícia de ser o que é”. Mas, para realmente sabermos, precisamos atravessar as angústias – e não fugir delas.
Na visão da psicanalista Ana Lisboa, “a dor humana não é uma falha do organismo, é um movimento da alma”. Segundo ela, quando diagnosticamos cada emoção que nos atravessa, rompemos um pacto com a nossa própria história. Soma-se a isso o fato de que a medicação que chega sem contexto reprime a emoção. E, quando o efeito passa, a dor volta ainda maior.
“Acostumar-se com a medicação é deixar de viver. É impedir o aprendizado. É reprimir tanto os sentimentos que o sujeito se desintegra de si e perde a ânima da vida. A dependência emocional e psíquica que nasce desse movimento afasta a pessoa da própria história e das transformações que poderiam emergir do contato honesto com a dor”, ela observa.
A eterna busca pela felicidade
Vencedora do Prêmio Jabuti 2025 na categoria Saúde e Bem-estar com o livro Felicidade Ordinária (Zahar), a psicanalista Vera Iaconelli ressalta que um dos principais motivos da medicalização do sofrimento está na lógica social que impõe a obrigação de sermos felizes o tempo todo – uma exigência irreal que adoece.
“Só droga pesada e contínua pode oferecer algo parecido – e mesmo assim, de forma alucinada. É o que o celular quase nos dá: prazer imediato, repetido, sem nuance. Mas esse excesso de dopamina não abre espaço para o desejo, e sim para a depressão. Não à toa, já há dados alarmantes sobre uma dimensão epidêmica dessa condição”, alerta. “Nossa visão equivocada de felicidade supõe uma existência sem sofrimento. Mas não existe vida sem sofrimento. Adoecimento não é obrigatório, embora aconteça em algum momento da vida, mas o sofrimento é constitutivo da existência humana”, complementa.
Autora do livro O Lugar do Sofrimento na Cultura Contemporânea (Summus), Mariama Furtado, psicóloga clínica e diretora do Instituto Epokhé, reforça que precisamos produzir sentido para a vida, para a finitude, e pensar sobre a própria existência. “Somos colocados irremediavelmente em contato com essa dimensão profunda do sofrer, que é não ter plenamente as nossas necessidades atendidas e ter que elaborar de alguma forma. Lidar com a dimensão da falta.”
No entender de Mariama, a medicalização está “a serviço do culto da performance”. “Precisamos performar e mostrar ao outro. E qual o efeito? A perda da estética da existência, de produzir criativamente compreensões sobre a própria história. É como retirar o tempo de elaboração do sujeito e produzir um apagamento da própria narrativa de si”.
Sofrimento social
A psicóloga clínica faz questão de trazer o campo psicossocial para o debate. “Há um sofrimento histórico causado por violências e exclusões, como racismo, machismo, LGBTfobia. Uma mulher periférica não poder enterrar o corpo do seu filho é uma dimensão de sofrimento que não é inerente à existência”, ressalta.
Independentemente de onde nasce o sofrimento, ele encontra corpo, alma e se manifesta em sintomas e dores. Diante deste cenário, como sustentar o viver? “Respeitar e cuidar”, propõe Mariama, trilhando um caminho.
“A dimensão do respeito está ligada a uma escuta ampliada e cuidadosa das condições que levaram aquele corpo ao sofrimento. Já o cuidado exige de nós, profissionais da saúde mental, um olhar atento, capaz de sustentar uma dimensão de acolhimento e intervenção que ofereça suporte. No fim das contas, o que precisamos é justamente disso: suporte para sofrer e dar sentido às nossas dores.”
Daniel Martins de Barros acredita que o sofrimento, quando compartilhado, é reduzido. Para ele, tudo começa no cuidado. “Cuidar é prestar atenção. Vem de cogitar, de refletir. Cuidar de alguém é pensar sobre aquela pessoa, é levar em consideração verdadeiramente a situação que ela está vivendo. Quando a gente cuida, alivia o sofrimento”, afirma.
No caminho do bem-viver
Se ainda não encontramos a saída desse labirinto em que a medicalização da existência nos colocou, vimos que há uma fresta por onde seguir: identificar sintomas, respeitar e acolher. Um bem-viver coletivo que nos relembre que somos mamíferos de sangue quente.
“Garantir socialmente que todas as pessoas possam usufruir de direitos e acessar o bem comum permite que elas entrem em contato com aquilo que nos constitui como humanos: a relação com os outros, com a natureza, com as próprias escolhas. Com nossa dimensão simbólica e espiritual. Isso é bem-viver”, destaca Mariama.
Durante um evento sobre espiritualidade, diagnósticos e tratamentos, questionei o neurocientista Sergio Felipe de Oliveira se realmente há essa medicalização da existência na sociedade. Ele parou por um instante, me olhou no fundo dos olhos, deu um pequeno sorriso e respondeu: “Depende da referência. Nos povos originários, não. E temos quase 400 no Brasil.” A breve resposta me pegou de surpresa e, talvez, sintetize a discussão.
Pílulas se acumulam, silêncios se alongam, diagnósticos se multiplicam e as urgências sociais apertam. O desafio contemporâneo definitivamente não está em apagar a dor a qualquer custo, mas em distinguir o que requer intervenção farmacológica daquilo que pede por escuta, vínculo e pertencimento – talvez um retorno aos saberes ancestrais, lembrando que viver é, antes de tudo, um percurso compartilhado da existência.
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