Seja bem-vindo
Belo Horizonte,07/06/2026

  • A +
  • A -

A era da publi acabou? Como influenciadores estão construindo negócios milionários

revistapegn.globo.com
A era da publi acabou? Como influenciadores estão construindo negócios milionários


Um smartphone na mão, uma ideia na cabeça e um post nas redes sociais. Até pouco tempo, essa fórmula era suficiente para alcançar o status de criador de conteúdo e, quem sabe, viralizar, escalar seu poder de influência e ganhar dinheiro com a atividade. Mas esse modelo de monetização está com os dias contados.
A própria expansão da economia criativa, que abrange esses profissionais, é um dos motivos da transformação. Avaliado em US$ 212,3 bilhões em 2024, o segmento deverá atingir US$ 900 bilhões em 2032, segundo projeção da DataM Intelligence, empresa global de pesquisa de mercado e inteligência de negócios. No Brasil, são 14 milhões de pessoas atuando como influenciadores no país, conforme o Censo dos Criadores de Conteúdo, realizado pela Wake Creators.
“[Esses players] deixaram de ser apenas comunicadores e passaram a ser agentes econômicos e culturais, influenciando tanto decisões de consumo quanto narrativas sociais e comportamentais”, explica Renata Alcalde, doutora em comunicação e coordenadora da pós-graduação em creator economy da Escola Superior de Propaganda e Marketing (ESPM).
Os números superlativos, tanto em termos de tamanho de mercado quanto de volume de indivíduos, levantam uma pergunta fundamental: “Tem trabalho para todo mundo?”. Como em qualquer segmento, é vital ter diferenciais para se destacar diante da concorrência. E há algumas tendências que podem significar a continuidade do negócio.
A profissionalização e a diversificação serão, cada vez mais, demandas básicas. “A era de depender apenas de ‘publis’ [publicidade paga pelas marcas] está terminando. A creator economy exige que o criador se veja como um negócio legítimo, com a necessidade de diversificar suas fontes de receita”, aponta Rafa Lotto, cofundadora e CEO da consultoria Youpix, focada nesse segmento. Isso inclui dominar estratégias de marketing de influência, com planejamento editorial, posicionamento de marca e construção consistente de audiência.
Múltiplas demandas
Outros pontos de atenção são os movimentos do mercado: novos formatos, tecnologias e regulamentações, incluindo a lei nº 15.325/2026. Sancionada em janeiro deste ano (saiba mais no texto ao lado), a medida gerou apreensão na comunidade.
Muitos acreditaram se tratar de uma norma que poderia dificultar a atividade com exigências como obrigatoriedade de formações específicas. “Mas é voltada para pessoas com contrato CLT e vem para organizar funções como roteirizar, gravar, editar e postar, que já existiam dentro das empresas”, explica Fátima Pissarra, CEO da agência de marketing de influência Mynd.
“Ao criar formalmente essa categoria, a lei permite que tais profissionais tenham uma identidade clara na carteira de trabalho, possibilitando segurança jurídica para quem atua na área digital”, afirma a advogada Marina Garrote, coordenadora de pesquisa do Reglab, instituto especializado em pesquisa e consultoria voltadas para os setores de mídia, tecnologia e regulação.
Superado o clima de incerteza, os produtores de conteúdo retomam o foco na vida do negócio. A especialização surge como caminho primordial para consolidar autoridade, que, por sua vez, gera confiança.
Na nova era da influência, não basta viralizar e engajar: é necessário criar conexão profunda. Ao estabelecer essa relação com a audiência, lançando mão de planejamento e ferramentas adequadas, eles abrem um capítulo diferente na história da economia criativa.
Leia também
A seguir, entenda de que forma isso deve acontecer.
Impactos da legislação

A lei nº 15.325/2026 criou a categoria de profissional multimídia. Ele passa a ser reconhecido como um trabalhador multifuncional com formação superior ou técnica, apto a atuar em criação, produção, captação, edição, gestão e distribuição de conteúdos digitais em diversas plataformas. Poderá atender empresas e instituições públicas ou privadas com desenvolvimento de sites, interfaces digitais, animações, jogos eletrônicos, publicações digitais, gestão de redes sociais e conteúdo audiovisual.
A medida, no entanto, não foi pensada para contemplar criadores de conteúdo, tendo pouco impacto prático no dia a dia deles, segundo Marina Garrote, do Reglab. Poderia haver benefícios reais com a adoção de outras iniciativas, como a criação de um Código Nacional de Atividade Econômica (CNAE) específico para a categoria.
“A ausência [do código] impede que os criadores de conteúdo sejam identificados por meio das notas fiscais. Essa informação permitiria, por exemplo, a criação de políticas públicas de incentivos fiscais para creators, inclusão em programas de fomento direcionados a eles e o dimensionamento econômico do mercado”, explica.
Estratrégia

Empresas contam cada vez mais com criadores de conteúdo em ações
Fonte: relatório Vem Aí na Creator Economy 2026, da Youpix
PEGN
Conteúdo é produto
Foi-se o tempo em que o creator era considerado praticamente uma “mídia”, ou seja, o veículo para a marca transmitir sua mensagem. Nessa nova era, ele também é produto – empresta sua imagem, afinidade e credibilidade ao que divulga. As marcas passaram a encará-lo como uma empresa. E ele deve estar preparado para desempenhar esse papel.
Contar com suporte técnico de ferramentas e de pessoas especializadas torna-se premissa a quem leva o trabalho a sério. Soluções que auxiliam a automatizar, analisar, gerir, monetizar e produzir são estratégicas, segundo Renata Alcalde, da ESPM. “[Elas] não substituem a criatividade, mas transformam o esforço operacional em eficiência estratégica.”
“A educação é outra via para buscar a profissionalização”, avalia Priscila Jaffé, CEO da Jaffé Agência e fundadora da Orbby, ecossistema digital voltado ao marketing de influência. Como cursos de formação dedicados a essa área ainda são raridade, valem diferentes maneiras de se informar e se capacitar: desde o estudo de temas específicos, como marketing de conteúdo, até a compreensão do ecossistema pelas diversas ferramentas disponíveis que otimizam o fluxo de trabalho.
É imprescindível estudar e contar com ajuda para ser capaz de gerar não apenas publis, mas outros braços de receita. “O dinheiro do marketing é grande, mas finito. O creator não pode depender só de publicidade, mas ter estratégia de empreendedor”, pondera Lotto.
Tecnologia para o dia a dia

Conheça ferramentas que facilitam a rotina
- BrandLovers: Une influenciadores a marcas, facilitando o fechamento de campanhas
- Circle: Colabora na gestão de comunidades, com membros, conteúdos e interações centralizados
- Dottie: Transforma prints de resultados em relatórios automáticos para análise de investimento
- Inbazz: Otimiza a gestão de links e cupons para criadores focados em vendas e conversão direta
- Notion: Gere projetos, tarefas, notas e fluxos de produção a partir de um espaço integrado
- Orbby: Conecta dados de performance, relacionamento com marcas e gestão de campanhas
- RD Station: Automatiza e-mails e landing pages para converter seguidores e gerenciar o relacionamento
- Tami: Auxilia em gestão financeira multiplataforma e organização da agenda de conteúdos
- Winnin: Mapeia tendências para criar produções com maior relevância e audiência
Curadoria de valor
Maria Ferreira
Aracruz (ES)
Instagram: @impressoesdemaria - 76 mil seguidores
TikTok: @impressoesdemaria - 13,7 mil seguidores
Maria Ferreira
Divulgação
No ensino médio, Maria Ferreira, hoje com 29 anos, decidiu exercitar a escrita criativa em um blog para possivelmente estudar e seguir carreira na área. Foi o que aconteceu: cursou letras e continua a viver no universo dos livros.
Como criadora de conteúdo desde 2015, ela tem no Instagram sua vitrine, o Impressões de Maria. Se no início as postagens eram resenhas convencionais, ao longo dos anos ganharam novo significado. “À medida que fui me entendendo como mulher negra, passei a reparar como os livros em destaque nas livrarias e nas mídias são de pessoas brancas.”
Diante disso, voltou seu conteúdo para um nicho e assumiu a curadoria para apresentar livros de autorias negras, principalmente femininas, que abordam pertencimento, ancestralidade e representatividade. Utiliza a plataforma para ajudar outras mulheres na formação de sua identidade, mas o material não exclui ninguém – pode gerar empatia e compreensão em outros grupos étnicos e de gênero.
Para monetizar a atividade, começou fazendo publicidade em resenhas patrocinadas por autores e editoras. Buscando diversificar o negócio, expandiu a atuação para dois clubes de leitura por assinatura voltados à sua audiência – um só dela e outro em parceria com outras três curadoras.
A especialização consolidou sua autoridade. Hoje suas seguidoras pedem dicas de leitura, sugestões para presentear e orientações de obras para usar em sala de aula e em outros contextos. Ela faz recomendações e, frequentemente, disponibiliza seus links de afiliada: trabalha com a Amazon e o Mercado Livre. “Como sou eu que estou indicando, as pessoas compram”, diz.
Atuar como criadora não é seu único trabalho. Ela fatura por volta de R$ 50 mil por ano com isso e atua como assistente editorial em uma editora em regime celetista. “Penso em viver só do Impressões de Maria, mas ainda é cedo.” Enquanto isso não acontece, ela segue equilibrando o mundo corporativo com a missão de influenciar e emocionar sua comunidade digital.
IA como aliada

A inteligência artificial (IA) faz parte do DNA de diversas ferramentas, que são verdadeiras catalisadoras de produtividade para criadores de conteúdo. No entanto, o potencial dessa tecnologia ainda é subexplorado, avalia Issaaf Karhawi, professora da Escola de Comunicação e Artes (ECA), da Universidade de São Paulo (USP), pesquisadora na área de comunicação digital.
No ano passado, a docente fez parte da pesquisa Influenciadores na América Latina - Criação de Conteúdo, Dilemas Éticos e Desafios Sociais, realizada pela Organização das Nações Unidas para a Educação, a Ciência e a Cultura (Unesco), em seis países da região. “Um dos primeiros achados foi que a IA ainda é muito mais usada para tarefas técnicas, como edição de vídeo, geração de legendas e design gráfico. Os creators afirmaram que ela é um recurso de apoio, mas não é central no processo criativo.”
Uma das hipóteses é que a resistência tenha a ver com o receio de a tecnologia substituir a criatividade – algo tido como o bem maior desses profissionais. Mas a IA pode e deve ser analisada sob três perspectivas estratégicas:
1. Recurso na produção e distribuição
A inteligência artificial se tornou um recurso estratégico para quem precisa conciliar volume, qualidade e personalização de conteúdo. Acelera processos de ideação, edição, legendagem, personalização de mensagens, roteiro e testes de formatos. “Não substitui o criador, mas reduz gargalos operacionais, liberando energia criativa para o que realmente agrega valor: estratégia, relacionamento com a audiência e construção de autoridade”, afirma Alcalde, da ESPM.
2. Avatares não substituem repertório
Parte dos criadores acredita que avatares digitais e creators virtuais possam fazer concorrência direta. “Porém, eles carecem de repertório vivo, experiência e percepção de contexto”, aponta a coordenadora na ESPM. Para ela, a verdadeira autoridade vem de vivência, interpretação, escolha e construção de reputação – e nada disso pode ser replicado por algoritmos.
3. Fator humano traz competitividade
“Autoridade, credibilidade e influência ainda são ativos exclusivamente humanos”, reforça Alcalde. Para Pissarra, da Mynd, o papel desses profissionais é cada vez mais estratégico: criatividade, visão crítica, responsabilidade ética e construção de comunicação seguem como diferenciais intransferíveis: “A IA executa, mas é o criador que define a direção, a narrativa e o valor”, diz.
Da clínica ao feed
Laíris Trindade
Salvador (BA)
Instagram: @lairistrindade - 111 mil seguidores
TikTok: @lairistrindade - 11,4 mil seguidores
Laíris Trindade
Milena Palladino
A fisioterapeuta Laíris Trindade, 30 anos, ficou surpresa com o cachê que recebeu por uma campanha para uma grande marca de vestuário no Instagram, em 2021. O pacote incluía um carrossel de fotos, um Reels e seis telas de Stories pelo valor que recebia em um mês em sua atividade de formação. “Não imaginava que poderia ter esse retorno financeiro por tão pouco tempo de trabalho.”
Até então, conciliava o emprego formal com a presença nas redes sociais – onde compartilhava conteúdo de sua atuação como modelo para grifes locais, bem como de seu estilo de vida e sua rotina de atividade física. “Fui ganhando seguidores à medida que mostrava meu dia a dia”, diz ela, que apostou no crescimento orgânico.
Ao ser dispensada da clínica e depois de experimentar o gosto de um contrato de publi robusto, ela se reposicionou e passou a se dedicar integralmente à produção de conteúdo, inserindo-se de vez na economia criativa desde 2022.
Disciplina e organização fazem parte do processo. Aos domingos, desenha o planejamento da semana; nos demais dias, executa o que projetou. “Ainda que [as peças] sejam de conteúdo orgânico, são sempre intencionais.” Os posts, reforça, buscam gerar conexão não apenas com suas seguidoras, mas também com as marcas.
A influenciadora construiu autoridade nos segmentos de beleza, principalmente relacionada a temas como cabelos crespos, autoestima, moda e estilo de vida. “Foco em conquistar credibilidade nesse nicho. A ideia é atingir um ponto em que seja possível trabalhar projetos que migrem do online para o offline, como eventos”, diz.
No dia a dia, ela monetiza com publicidade e parcerias pagas, com empresas de diferentes segmentos. Em 2025, teve um faturamento (que ela não revela) de seis dígitos. Para este ano, a aposta de crescimento está no suporte de uma agência de criadores – possibilitando contar com orientação estratégica mais estruturada. Seu objetivo é se especializar cada vez mais e manter a reputação conquistada com conteúdo alinhado à sua identidade e valores.
A preciosidade dos dados

Dados – sejam de alcance e engajamento, sejam de relacionamento e comportamento – são ativos valiosos. No entanto, eles perdem o sentido se não houver um aprofundamento que decifre seu real impacto. Afinal, qual é o resultado de um post que viraliza, mas não há compreensão do motivo do sucesso ou de como ele atingiu seus seguidores?
Nesse cenário, é preciso olhar para além de métricas simples como likes e visualizações – o objetivo está em entender o poder junto ao público, a construção de reputação e a capacidade de gerar ação. Esses indicadores permitem que o creator se aprofunde naquilo que mobiliza seu público, e que o cliente direcione seu planejamento com segurança. Não à toa, segundo a pesquisa Influência no Consumo 2025, da Youpix/Nielsen, existe uma relação direta entre influência e consideração de compra.
Com a integração e a análise desses dados, pode-se mensurar o Retorno sobre o Investimento (ROI), o que define a eficácia de um plano de ação. Como resume Lotto, da Youpix: “Creators sem dados representam risco. Com eles, tornam-se ativos estratégicos”.
São essas informações que formam os pilares de um conteúdo pensado estrategicamente para ter vida longa. Mas não para por aí: a fidelização – uma das principais questões para negócios de todos os portes – também importa para esses profissionais. Assim, será preciso um trabalho contínuo de estabelecimento de vínculo.
Segundo Karhawi, da USP, é necessário equilibrar o tripé autenticidade, proximidade e pessoalidade. Em estágios de superprofissionalização, em que a naturalidade pode ser ameaçada, muitos recorrem ao “amadorismo calibrado”. “Ainda que não tenham nada de amadores, adequam a linguagem para gerar a sensação de proximidade”, explica.
Essa busca pela identificação é o que mantém o público fiel. Segundo a pesquisa #Publi 2025, do IAB Brasil, confiança, diversão e criatividade são os atributos que mais contribuem para que um criador se torne referência. Quando o assunto é publicidade, a audiência espera que haja uma curadoria alinhada à essência de quem comunica e constrói essa relação com o público.
Foco na comunidade
Bruna Vilaverde
Taquara (RS)
TikTok: @brunavilaverde - 948,4 mil seguidores
Instagram: @brunavilaverde - 646 mil seguidores
Bruna Vilaverde
Divulgação
Para Bruna Vilaverde, 24 anos, criar conteúdo é como conversar com a melhor amiga. Capaz de falar horas a fio sem perder o ritmo nem o entusiasmo, se diz movida pelo prazer de ensinar e de compartilhar dicas.
A jovem estava na faculdade de nutrição, em 2022, quando começou a trabalhar temas de seu curso nas redes sociais. Na época, a intenção não era se tornar influenciadora, mas “captar a atenção de futuros pacientes” usando linguagem descontraída e embasamento científico. O objetivo mudou no ano seguinte, ao receber a sugestão de um amigo para postar um vídeo por dia.
“Fiz isso, e a audiência foi crescendo. Quando passei a monetizar no TikTok, me empolguei”, conta. O ponto decisivo para deixar o emprego como recepcionista foi um ebook sobre emagrecimento desenvolvido em suas férias. “Divulguei na sexta e vendi mais de R$ 3 mil no fim de semana. Pedi demissão na segunda-feira, dia em que voltaria a trabalhar.”
A empreendedora especializou-se no mercado de infoprodutos – livros em formato digital e videoaulas – e criou estratégias de engajamento para estreitar o vínculo com as seguidoras, como desafio de dietas para fazerem juntas. Também formou a comunidade Vegelovers, para a qual vende assinaturas de conteúdos por R$ 89,90 ao mês.
Ela se orgulha de contar com a fidelidade de empresas parceiras e de sua audiência. “As marcas sabem que meu trabalho funciona, e as seguidoras acreditam em mim, porque compartilho informações práticas e com comprovação científica.” Ela acrescenta que “viralizar não é garantia de sucesso” – o importante é consolidar uma base engajada.
Com o irmão, Gabriel, 18, a creator traça estratégias para as publicações com base em diversos fatores: análise de métricas, comportamento do público e tendências do mercado. “Buscamos replicar aqueles que dão mais certo”, destaca ela.
No ano passado, Vilaverde faturou R$ 3 milhões com infoprodutos e publicidade. “Em 2026, quero lançar o app da Vegelovers, chegar a 1 milhão de seguidores no TikTok e fidelizar também no YouTube. Desejo faturar mais com a comunidade”, afirma.
Vender, vender, vender

O que creators e marcas querem é fazer dinheiro – os primeiros, ao mobilizar seu poder de influência para convencer a audiência a comprar produtos e serviços; as empresas, ao associar seus produtos a pessoas que reúnam autenticidade e poder de comunicação.
Essa dinâmica impulsionada pelas redes tem nome: social commerce. O mercado foi estimado em US$ 1,16 trilhão em 2024 e, de acordo com o relatório O Mercado Global de Social Commerce, publicado pela consultoria Grand View Research, deve crescer a uma taxa anual de 36% até 2033.
Plataformas com integração de compra – em que se faz checkout na própria rede – aliadas a interface de vídeos, lives e recomendações, transformam conteúdo em vitrine e seguidores em compradores, explica Lotto, da Youpix. O poder do marketing de influência funciona e pode ser medido: “No ano passado, 20% das vendas online do Amazon Prime Day nos Estados Unidos vieram dos creators”.
As oportunidades de monetização são amplas, segundo Alcalde, da ESPM. “Criadores mais sustentáveis constroem receitas próprias e recorrentes, como produtos digitais, comunidades, assinaturas e parcerias de longo prazo”, diz.
Entre os exemplos, merecem destaque os programas de afiliados, parceria na qual os profissionais promovem produtos ou serviços de marcas e disponibilizam links ou cupons personalizados. Eles recebem comissões baseadas em resultados.
O UGC (da sigla em inglês, conteúdo gerado pelo usuário) surge como outra possibilidade: empresas contratam influenciadores para produzir e postar material em suas redes. A ideia é integrar a marca à narrativa de forma natural, diluindo a percepção de publicidade.
Conteúdo por assinatura, em que os seguidores pagam uma mensalidade por material exclusivo ou acesso antecipado, também traz receita, assim como o desenvolvimento de produtos próprios – físicos ou digitais –, como livros, apostilas, ebooks, videoaulas e podcasts. Uma conexão sólida com a audiência ainda permite ao criador expandir sua atuação para serviços como mentorias, palestras, workshops e presença em cursos e eventos.
ORIGEM DO DINHEIRO
Como creators monetizam suas ações
- 41,43%
Criador de conteúdo patrocinado: Publicidade com marcas e pagamento de plataforma de UGC
- 18,38%
Criador de conteúdo independente: Remuneração prioritariamente do apadrinhamento da comunidade
- 14,4%
Criador empreendedor: Produtos físicos ou virtuais para o público final
- 13,03%
Criador especialista: Consultorias, palestras, treinamentos e afins
- 12,76%
Criador de marketing de afiliados: Comissionamento de vendas
Fonte: pesquisa Creators & Negócios 2025, Youpix/Nielsen
Receita de milhões
Bruna Hermogenes
Piracicaba (SP)
Instagram: @cozinheja - 1,9 milhão de seguidores
TikTok: @cozinheja - 257,3 mil seguidores
Bruna Hermogenes
Keiny Andrade
A paixão de Bruna Hermogenes, 35 anos, pela cozinha vem de longa data, assim como o uso da airfryer. Em 2013, quando pouca gente se aventurava a fazer receitas na fritadeira elétrica, ela já era usuária assídua: chegava do trabalho e preparava o jantar no eletrodoméstico.
A culinária e o aparelho ganharam dimensão profissional em 2020. Após pedir demissão de uma empresa de varejo e se ver diante dos desafios da pandemia, decidiu empreender com o que sempre gostou de fazer: ensinar a cozinhar.
O que era hobby – apresentar no Instagram receitas que preparava para si mesma – tornou-se negócio. “Estudei gastronomia e cozinha profissional, participei de workshops, inclusive como professora, me especializei. Era o que eu queria para mim.” Nessa época, já era conhecida como “rainha da airfryer”, título que, literalmente, virou sua marca registrada.
O perfil Cozinhe Já decolou rápido, ganhando uma média mensal de 20 mil seguidores durante vários meses. Consolidou-se como autoridade no assunto, principalmente usando a fritadeira, reunindo mais de 75 mil alunos em seus cursos e conteúdo.
Nas redes sociais, os posts são um aperitivo para a audiência consumir seus infoprodutos: cursos (mais de 250 videoaulas gravadas), livros digitais (cinco publicações) e mais de 20 apostilas. “O livro Airfryer É Vida já vendeu mais 70 mil exemplares”, comemora.
O profundo conhecimento do tema – adquirido na prática e em cursos – rendeu, além de alunos, muitas parcerias publicitárias. Atualmente, ela é parte do programa de afiliados Amazon Expert e “CAO” (Chief Airfryer Office, uma espécie de embaixadora oficial) da Philips Walita.
No ano passado, sua marca faturou R$ 6 milhões (excluindo o valor do trabalho como “CAO”). O pico de crescimento, segundo Hermogenes, veio em 2024, quando o marido, Daniel Chan, 40, deixou um cargo executivo para gerir o negócio familiar. Ele ficou à frente da área administrativa e ela pôde se dedicar aos projetos e às aulas – 80% do faturamento vem da área educacional, e 20% da publicidade.
Conhecimento gera autoridade

Por mais que as redes sociais sejam um espaço democrático e, em teoria, todo mundo possa viralizar um post, para criadores de conteúdo vale um alerta: quanto mais específico for o posicionamento, maiores as chances de se conectar e manter uma audiência cativa. “O futuro da monetização não está em falar com todos, mas em ser indispensável para poucos. A fidelidade e a profundidade rendem valor econômico real”, analisa Alcalde, da ESPM.
O mercado está saturado de discursos genéricos. A tendência é que a atenção se concentre em quem mostra conhecimento consistente. Entretenimento, claro, tem seu papel – ajuda a desestressar e interessa aos seguidores. Mas creators especialistas em seus segmentos saem na frente na construção de relevância duradoura.
O perfil ideal, segundo Alcalde, combina domínio técnico, credibilidade na área e habilidade de comunicação – características fundamentais para passar de “fazedor de conteúdo” para “empreendedor de conhecimento”. Formação, especialização e experiência real constroem autoridade e, com ela, vêm a reputação, a confiança e a atribuição de valor. Embasados nisso, é possível atrair e reter a audiência, transformando seus seguidores em uma comunidade.
Tornando-se fonte confiável, que informa e inspira, chega-se aos seguidores e a marcas interessadas em fazer alianças – com uma oportunidade a mais de negócio: a cocriação com marcas para usar a expertise do criador e a “calibragem” da empresa.
"Criadores que transformam conhecimento em soluções estruturadas, como cursos, ferramentas e metodologias, estão capitalizando melhor sua audiência. Esses produtos têm valor utilitário e oferecem resultados mensuráveis”
Renata Alcalde, coordenadora da pós-graduação em creator economy da ESPM
Estratégia e visibilidade
Shenia Karlsson
Lisboa (Portugal)
Instagram: @shenia_karlsson - 69,9 mil seguidores
LinkedIn: Shenia Karlsson - 1,8 mil seguidores
Shenia Karlsson
Divulgação
A curiosidade e a vontade de aprender levaram Shenia Karlsson, 51 anos, a se tornar criadora de conteúdo. Psicóloga clínica, sempre investiu em atendimentos presenciais. Até que, há nove anos, se mudou para Lisboa, em Portugal, onde começou a frequentar espaços de saúde pública e universidades. Despertou a atenção das pessoas: quem era aquela imigrante, mulher negra, de meia-idade, que tinha uma abordagem tão singular?
Envolvida com temas como diversidade e inclusão e pautas raciais, de gênero e LGBT, além de liderança feminina e autoestima, ela se destacou: “Senti uma abertura interessante, passei a ser convidada para eventos e para dar entrevistas”.
Concluiu que precisava das redes sociais para ampliar o alcance de seu trabalho, o que encarou como compromisso profissional. Começou com o branding: “Criei minha marca, um site elaborado e aumentei a participação no Instagram”.
Desde o início, conta com profissionais para marketing digital e pessoal, gestão de internet, gravação e edição dos vídeos e assessoria de imprensa. Tudo, diz ela, foi planejado e “sem pressa”. “Preciso entender como a audiência recebe [o conteúdo]. Minha preocupação sempre foi me conectar profundamente com as pessoas.”
A execução do plano com consistência e coerência resultou em cursos online, eventos pelo mundo, mentorias e palestras, além de campanhas e participação remunerada em podcasts. A visibilidade também ampliou a procura por atendimentos clínicos. Segundo ela, a atuação digital “abriu portas, como o convite para ser mediadora do Ilhados com a Sogra, reality show da Netflix, que está na quarta temporada e é exibido em 190 países”.
No ano passado, o faturamento girou em torno de R$ 450 mil, e a expectativa para 2026 é atingir R$ 600 mil. A psicóloga se prepara para aumentar a presença no TikTok e no YouTube e monetizar nessas plataformas, diversificando fontes de receita e ampliando o alcance internacional da marca pessoal.
RAIO X DAS PLATAFORMAS
Veja quais são as tendências para 2026, segundo os especialistas
Instagram
Vitrine de marca pessoal: Conteúdos focados em curadoria detalhada, consistentes esteticamente e sustentados por storytelling tendem a gerar resultados sólidos. “Vale menos espontaneidade estruturada e mais narrativa estratégica”, diz Pissarra, da Mynd.
Segmentação e profissionalização: Antes dominado por estética e lifestyle, agora é ocupado por criadores técnicos e nichados. Materiais rápidos e densos tendem a funcionar.
Criatividade e conexão: Ferramentas da plataforma devem estar na rotina – as de social commerce, como product tagging (etiquetagem de produtos) no feed, facilitam a descoberta de itens sem sair do app; o Edits auxiliam em vídeos. Contas Business ou Creator oferecem dados de engajamento, bem como soluções de promoção e anúncios.
TikTok
Processo ágil: Espaço de descoberta e experimentação, caracterizado pela velocidade. O TikTok recomenda deixar claro nos três primeiros segundos o tema do vídeo, com efeitos e recursos visuais e, em seguida, contar uma história.
Foco nas trends: Posts de outros criadores permitem observar experimentações, músicas e efeitos utilizados. Após se inspirar nas trends, o passo seguinte é fazer com a própria narrativa para ter autenticidade, o que amplia o alcance.
Informalidade com qualidade: Apesar de ser mais informal, o ambiente requer capricho. A plataforma recomenda ter um roteiro estruturado e uma edição dinâmica. Não é preciso uma superprodução, mas vale usar e abusar dos recursos do app (legendas, músicas).
LinkedIn
Palavra de especialista: A tendência é o fortalecimento dos criadores B2B como agentes de influência, de acordo com a plataforma. Conteúdos produzidos por especialistas, líderes e executivos passaram a ter peso decisivo na formação de opinião.
Construção de comunidades: 59% dos compradores B2B afirmam que um creator confiável influencia mais suas decisões do que um post da marca, segundo o LinkedIn. Experiências, análises e reflexões sobre desafios reais constroem comunidades engajadas.
Autoridade vitaminada: Essa rede não cria o profissional, mas revela e amplifica uma autoridade já existente, diz Alcalde, da ESPM. Pessoas produzem conteúdo como extensão do seu capital intelectual, gerando oportunidades como consultorias.
YouTube
Explicação detalhada: Plataforma para aprofundamento, construção de confiança e autoridade de longo prazo. Há espaço para desenvolver argumentos e formar opinião. “[O creator] deixa de ser ‘apenas’ influente e passa a ser referência”, diz Alcalde.
Embalagens variadas: Formatos educacionais, documentais, entrevistas completas e Shorts (vídeos curtos), que alimentam descoberta e viralização, são valorizados pelo YouTube, observa Jaffé.
Criatividade e tecnologia: Para a plataforma, o espaço deve funcionar como a “nova TV”, com criadores operando como verdadeiros estúdios de produção. A IA estará no centro de criação – com Shorts gerados a partir da imagem digital e jogos produzidos por comandos de voz.
Comédia multiplataforma
Luana Zucoloto
Rio de Janeiro (RJ)
Instagram: @luanazucoloto - 3,1 milhões de seguidores
TikTok: @luzucoloto - 1,6 milhão
YouTube: @luanazucoloto - 39,5 mil seguidores
Luana Zucoloto
Luciana Sposito
Naturalmente engraçada e espontânea, a publicitária Luana Zucoloto, 29 anos, reúne seu humor e sua experiência no mundo corporativo para criar conteúdo que, segundo ela, tem alta probabilidade de viralizar – e de maneira orgânica.
Com uma equipe de cinco pessoas, ela imprime velocidade às redes: são vários Stories ao dia. Ao lado de feed e Reels, eles intercalam postagens pessoais e publis. “É para não cansar a audiência.”
O tamanho do time importa para o planejamento e a execução. Assim, a influenciadora abre espaço na agenda para avaliar e fechar novos projetos todo mês.
Ela prefere não divulgar valores, mas diz que, desde 2023, quando ganhou projeção nas redes sociais, emplacou mais de 150 parcerias publicitárias em diferentes segmentos. Heineken, Mercado Pago, Santander e Unilever foram alguns de seus clientes.
Em 2024, dobrou o volume de campanhas e quase triplicou a receita em relação ao ano anterior. No período seguinte, refinou a estratégia, reduzindo a quantidade de entregas, mas elevando o tíquete médio, resultando em faturamento maior. Hoje fecha de quatro a cinco contratos por mês, podendo chegar a dez, se somados às outras frentes de negócio: mestre de cerimônias, palestras, shows corporativos e stand-ups.
Embora conte com o suporte do time, a creator faz questão de centralizar criação, roteiro e gravação dos conteúdos, inclusive peças publicitárias: “Preciso ter certeza de que o texto tem a ver com quem eu sou”. Também tem a palavra final no aceite de campanhas, avaliando fit cultural, tom do humor, disponibilidade de tempo e viabilidade financeira.
A dedicação se reflete na curadoria específica para cada plataforma. No TikTok, primeira rede em que viralizou, deixa a imaginação e a espontaneidade fluírem. No Instagram, preocupa-se um pouco mais com a estética e o roteiro. No YouTube, sua equipe posta trechos de shows para atrair contratantes. Em todas elas, o ponto em comum é mostrar a vida real. “Sou bem honesta, minha comunidade me considera melhor amiga. Somos próximas, de verdade.”




COMENTÁRIOS

Buscar

Alterar Local

Anuncie Aqui

Escolha abaixo onde deseja anunciar.

Efetue o Login

Baixe o Nosso Aplicativo!

Tenha todas as novidades na palma da sua mão.