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Belo Horizonte,31/05/2026

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Artesã viraliza ao explicar motivo de não vender peças de crochê e atrai grandes marcas; veja o vídeo

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Artesã viraliza ao explicar motivo de não vender peças de crochê e atrai grandes marcas; veja o vídeo


A artesã Gabriela Madureira, de 25 anos, de Tupã (SP), publicou um vídeo explicando o motivo de não vender peças de crochê feitas por ela. O vídeo tomou grandes proporções e alcançou, até o momento, 7,9 milhões de visualizações e mais de 15 mil comentários.
Com 39 mil seguidores no Instagram, ela explicou que mesmo tendo muitos pedidos para abrir para venda, o preço cobrado por essas peças seriam muito altos e fora da realidade da maioria das pessoas, e o valor parece mais absurso pelo hábito de consumo criado por redes fast fashion, que induzem o consumidor a comprar maior quantidade de peças com um valor e qualidade menor. Veja o vídeo a seguir:
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No vídeo em questão, ela faz o cálculo de quanto custaria para o cliente um cardigan que havia postado anteriormente. O resultado? R$ 962,50. Nos comentários, milhares de pessoas concordaram com o posicionamento e se identificaram com a situação. Algumas pessoas, inclusive, comentaram que o valor sugerido por ela ainda seria barato diante do tempo de produção.
Cardigan utilizado como referência no vídeo dela
Reprodução/Instagram
Mestranda e jornalista, Madureira conta que aprendeu a crochetar na infância com a avó paterna. A arte ressurgiu em sua vida como uma alternativa pessoal de consumo consciente. Incomodada com os impactos socioambientais da indústria têxtil, ela começou a buscar formas de substituir as compras excessivas: passou a frequentar brechós e decidiu confeccionar as próprias roupas. "Nunca fui de costurar, mas lembrei que sabia fazer um pouco de crochê", conta a PEGN.
Ao compartilhar suas criações despretensiosamente para a sua comunidade da época, de menos de 5 mil seguidores, a enxurrada de pedidos de encomendas começou. Foi aí que a lógica matemática do artesanato colidiu com a realidade do mercado atual.
"Percebi que se eu fosse valorizar realmente o meu trabalho e precificar do jeito correto, o valor da peça seria muito mais elevado do que o que as pessoas estavam esperando. Se você compra um casaco na Shein, você vai gastar R$ 200 no máximo. O trabalho artesanal não se resume a isso", pontua.
A publicação no feed aconteceu de forma impulsiva. "Gravei e fiquei na dúvida se postava nos stories ou no feed. Pensei: 'Ah, vou postar no feed mesmo, se ninguém vir, não tem problema'. Mas ele estourou de um jeito que mudou completamente a minha relação com a produção de conteúdo e a minha perspectiva de lucro na internet", relembra, destacando que no ecossistema digital o sucesso depende de estratégia, mas também de timing e sorte.
Ao expor essa frustração em um vídeo no feed, Madureira tocou na ferida de milhares de artesãos exaustos. "Quando expliquei o porquê não vendia, as pessoas sentiram suas dores expostas. Elas se sentiram representadas e começaram a engajar", comenta.
Além do fator financeiro, a decisão de não aceitar encomendas passou pela saúde. Portadora de uma doença autoimune crônica, a jornalista percebeu logo na primeira e única peça que vendeu que o esforço manual esgotava seu corpo. Foi a deixa para transformar o "não vendo" em um modelo de negócio focado na Economia da Paixão (passion economy): a venda de infoprodutos (cursos e receitas de crochê) e publicidade.
Ela então estruturou um negócio focado em educação, sem deixar de lado seu propósito. "Foi uma oportunidade de conseguir uma renda extra, mas também de difundir aquilo que eu acredito sobre a sustentabilidade e sobre o artesanal nas redes sociais. E eu consegui construir uma comunidade de pessoas muito interessadas", comemora.
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Por enquanto, o valor arrecadado com o curso foi simbólico, voltado para custear o investimento inicial de R$ 1,2 mil. No entanto, os planos da artesã são maiores: ela pretende expandir o catálogo de cursos, transformar o digital em sua renda primária e, em paralelo, seguir a carreira acadêmica. Madureira também está organizando um projeto para doar metade do lucro de suas receitas para uma instituição de mulheres artesãs, com o objetivo de espalhar a ideia do reaproveitamento e da consciência sustentável no mundo da moda.
O "não vendo" que atrai grandes marcas
Ao invés de passar horas tecendo uma única bolsa, ela trabalha uma vez gravando o conteúdo, e o produto digital escala sozinho. "Fazer e vender as peças me renderia muito menos do que ensinar a fazer", explica.
A estratégia deu tão certo que atrai os olhares de gigantes do mercado tradicional. Hoje, o lema "não vendo crochê, mas posso te ensinar" gera faturamento para Madureira por meio de parcerias publicitárias com marcas que vão desde fios (Linhas Pingouin) até multinacionais de beleza, como a Vichy, do Grupo L'Oréal.
O movimento feito por Madureira acende um alerta importante para o mercado de economia criativa e pequenos negócios: nem sempre vender o produto físico é o caminho mais lucrativo ou saudável para o artesão.
Renato Mazo, analista de negócios do Sebrae-SP, aponta que, na economia criativa, o valor nem sempre está apenas no produto final, mas também no conhecimento, na metodologia, inspiração e na capacidade de ensinar. Por isso, transformar o "não vendo" em estratégia pode, sim, ser um posicionamento de marca eficiente. No entanto, essa escolha não significa que vender o produto artesanal seja inviável, desde que haja um direcionamento estratégico para nichos bem definidos e para públicos que realmente reconheçam o valor desse trabalho.
"Muitas vezes, a dificuldade não está na venda do produto, mas no público pesquisado ou alcançado. Um produto artesanal pode ser considerado caro por um consumidor e extremamente valioso por outro", comenta Mazo.
Como avaliar se o conteúdo educativo é mais lucrativo do que a venda do produto em si?
A produção manual se torna insustentável quando o aumento das vendas exige proporcionalmente mais horas de trabalho sem gerar aumento equivalente de resultado financeiro.
Conforme apontado por Mazo e vivenciado por Madureira, o conteúdo educativo apresenta maior potencial de escala, uma vez que pode ser comercializado repetidamente sem exigir uma nova produção física a cada venda. Porém, para que esse modelo funcione, o negócio passa a depender diretamente da construção de autoridade e da confiança que a marca transmite aos clientes.
"O público compra conhecimento quando acredita que aquele profissional possui experiência prática e resultados para compartilhar", explica Mazo.
Um dos caminhos mais sólidos a se fazer, segundo o analista é combinar os dois modelos: primeiro construir credibilidade por meio da venda do produto e depois transformar esse conhecimento em conteúdo educaional. "O produto fortalece a autoridade de quem ensina. O ensino amplia a geração de receita e reduz a dependência da produção manual. Quando bem posicionados, os dois modelos se complementam em vez de competir entre si".
Principais erros na formação de preço de produtos artesanais:
Confundir custo de material com preço do produto: Cobrar apenas a matéria-prima e uma margem estimada, esquecendo o valor do próprio tempo e ignorar os "custos invisíveis" como internet, energia e a taxa do MEI (se for o caso).
Copiar a concorrência: Definir o preço com base no mercado externo, sem conhecer a realidade financeira do próprio negócio.
Como calcular corretamente:
Para alcançar a sustentabilidade financeira, o preço final deve ser a soma de três pilares:
Custos Diretos: Valor exato da matéria-prima e das embalagens utilizadas na peça.
Mão de Obra: Um salário por hora estipulado para remunerar o tempo de produção do artesão.
Custos Fixos e Lucro: A distribuição das despesas mensais invisíveis somado a uma margem de lucro real, que permita o negócio crescer.
"A precificação deve cruzar os custos reais do negócio com o perfil do público que realmente valoriza o feito à mão. Quando o artesão entende que seu produto carrega uma conexão emocional e uma história que a máquina não consegue replicar, ele para de pedir desculpas pelo preço e passa a atrair clientes que pagam pelo diferencial, e não pelo desconto ", destaca Mazo.
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