Eduardo Toldi celebra 15 anos Egrey com nova boutique em São Paulo

Eduardo Toldi na nova loja da Egrey, em São Paulo – Foto: Vitor Jardim, com direção criativa de Kleber Matheus, direção de arte Yasmin Klein, retoque Gabriella Prata, produção executiva Zuca Hub e produtora responsável Claudia Nunes
De camiseta branca e mocassins meio apertados, Eduardo Toldi vem descendo a rua Padre João Manuel. Alguns quarteirões dali, na Alameda Lorena, 2055, ele acabou de inaugurar a mais nova loja da Egrey (que fundou há 15 anos), com 500 metros quadrados. O espaço é moderno, a marca é moderna… Edu é moderno – e algumas outras coisinhas mais. É, por exemplo, muito pontual: às 19h32, já estava à porta no Piselli, restô italiano queridinho do bairro, com um desejo na ponta da língua. Queria, urgentemente, um Bloody Mary. Foi Vinícius, o garçom, quem anotou o pedido, e eu, na outra ponta da mesa, quem ficou preocupadíssimo com o suco de tomate na tal da camiseta branca. Um acidente seria escandaloso.
“Dudu” é o príncipe da neutralidade (fala baixinho, quase tímido, meio nervoso) e sua marca é reflexo disso: Egrey é uma junção de “Eduardo” e “cinza”, cor cheia de nuances entre o preto e branco, mas sem nenhuma mancha vermelha no meio. Delicado como só ele, vai tomando goles pequenos, cuidadosos, e refletindo sobre as próprias complexidades com a naturalidade de quem faz psicanálise desde os nove anos.


“Eu tenho muito senso estético”, diz olhando o menu, “e um sofrimento muito grande por sempre querer, precisar ser melhor”. É consequência de ter nascido em São Paulo nos idos da década de 1980, entre os yuppies cosmopolitas. Até conseguiu “fugir” na infância, quando passou alguns anos na fazenda do pai, no interior de São Paulo, mas voltou para a cidade já arremessado no beau monde brasileiro. Sua avó, Elena Kalil Mahfuz, é um desses nomes que as colunas sociais adoravam incluir (com razão) nas listas das mais elegantes. O padrinho, José Kalil, foi sócio da italiana Fiorucci no Brasil.
Em casa, Eduardo era o menino mais novo, mimado nos assuntos sobre “beleza”, mas sem nenhuma autoridade para exercê-la. Queria, por exemplo, “ditar o que as minhas irmãs precisavam vestir… sem sucesso”. Com essas e outras tentativas frustradas, decidiu engavetar o lado esteta e foi ser economista. Formou-se e trabalhou bastante, mas acabou “economizando” demais. “Eu neguei a moda por muito tempo”, recorda, e só decidiu encará-la em 2008, quando veio a crise – global e pessoal. Foi trabalhar com a mãe em confecção de tricô e, depois de conversar muito com amigos (incluindo o trio Gloria Coelho, Reinaldo e Pedro Lourenço), achou que era a hora de se lançar de vez: inaugurou a Egrey em 2011.
“Eu tinha uma vontade enorme de comprar roupas que eu não encontrava… que não existiam aqui.” O mundo era “muito colorido” e ele queria ser “muito neutro”. Com bastante ironia, começou pela linha feminina, “primeiro com tricôs e depois com a alfaiataria”. Masculino mesmo (para ele próprio e para “eles outros”) só em 2016. Hoje, enquanto Shawn Mendes aparece pelas praias nordestinas com looks da marca e Dimitri Mussard, herdeiro da francesa Hermès, faz coleção das roupas brasileiras, é difícil imaginar o mundo dos homens antes de Eduardo Toldi.
Ele sabe disso, mas, antes de continuar no assunto moda, pede uma pausa para fumar, e a conversa, sem gravador, continua na calçada. Acho que falamos de primeiros amores e de noitadas agitadas… acho que ele contou que seu livro favorito é “Madame Bovary”… acho que Vinícius, o garçom, pensou que fugimos antes de pagar a conta e sequer pedir os pratos.
De volta à mesa, sou eu a pedir uma pausa. O casal ao lado, com dois yorkshires pequeníssimos ao pé da mesa (Fuad e Nabila, libaneses como Dudu), estava conversando com muito entusiasmo sobre a inteligência paranormal dos jabutis. A senhora, loira, tinha ficado impressionada com esses répteis enclausurados por natureza, em uma viagem recente às ilhas caribenhas. O senhor, careca, concordou com tudo. É um interesse pelo assunto alheio que Edu entende e, ainda que com um pouco menos de sensacionalismo, compartilha. “Muito da minha criatividade surge da minha troca com o mundo, com a rua. Os ecossistemas ao meu redor me inspiram e acho que a nossa percepção sobre as coisas é o que nos forma. Não sei bem se o mundo que eu vejo, desde pequeno, é bonito de verdade ou se é apenas como eu o enxergo.”
Esse tal mundo, urbano e moderno, é a cena em que ele cultiva a personalidade e o sucesso da marca que acompanha o momento em que a moda brasileira encontra novas dimensões, clientes e criadores. Fiel ao próprio estilo, ele presta pouca atenção à “concorrência” e diz que se preocupar com os clientes (“muito exigentes”) é um fator decisivo. “O mercado é muito diverso, então toda a minha atenção é voltada para como eu faço o meu negócio. Acredito em moda de nicho.” O que isso quer dizer? “Quer dizer que eu sou curioso, saio da minha bolha, mas reconheço e atendo a necessidade de quem quer comprar Egrey.” Em outras palavras, suas referências sobre brasilidade não passam por “filtros de barro” e outros clichês, mas acompanham o movimento do País. “O Brasil tem clima, natureza e sensualidade, mas também tem muita vida na rua e na urbanidade.”
Em 2017, até inaugurou uma loja no Leblon, porque gosta de praia e sabe que seus clientes também, mas confessa, sem alfinetadas à “concorrência”, que “o que vibra para alguns não vibra para outros”. Em seu momento mais ácido na conversa, apenas garante, sem citar nomes, que não faz “pseudoluxo superfaturado, que existe apenas para pagar publicidade e champagne”. Já com uma hora e meia de papo, é momento de pedir os pratos e Vinícius anota: “um ravioli de brie e pera al tartufo… sem tartufo. E outro Bloody Mary”. Edu diz isso em voz baixa, mas com tanto charme e confiança que nem parece que sofre, em outros lugares da vida, com a ideia de críticas. “Eu odeio. Não lido bem. Detesto.” Por isso, explica, dá poucas entrevistas e se expõe pouco. Prefere estar ocupado no trabalho, na psicanálise, na piscina (faz natação três vezes por semana) ou na cama, de olhos bem fechados, mergulhado nas fantasias que quer realizar. Hoje, quer muito ser pai. Amanhã, quer ser paisagista e fazer jardins complexos. Ontem, a fantasia era inaugurar a nova loja que consumiu meses de preparo. É um projeto desenvolvido com a Metro Arquitetos Associados, escritório de Martin Corullon e Gustavo Cedroni.
Com inspiração no brutalismo e no modernismo, que fazem parte da história arquitetônica de São Paulo, a boutique inédita na Alameda Lorena substitui o endereço da rua da Consolação, o mesmo da Egrey desde a fundação. “É um reflexo da maturidade da Egrey… e minha também. Mais ainda, representa um novo conforto. Na loja anterior, tínhamos dificuldade em expor os produtos como eles precisavam ser expostos. E como mereciam.” Essa lógica é um sintoma de um olhar inquieto (“sou movido pela vontade de fazer melhor, mais bonito, mais interessante, mais comercial”) e, por vezes, até um pouco solitário. Há alguns anos, Edu é o único dono do negócio e, apesar de já ter tido um sócio, “acho que consigo lidar com tudo isso e ainda me vejo crescendo sozinho”. Sozinho… mais ou menos…
No ateliê ou no escritório, a equipe da Egrey vive uma rotina quase familiar. Ivania é a chefe dos tricôs há 13 anos e lidera a produção como um furacão. Kiki é a it-vendedora na loja do Shopping Iguatemi (há muito tempo, trabalhou com a tia de Eduardo) e Giselli, gerente das lojas paulistanas faz uma década, marca o ritmo diário com precisão e humor ingleses. Dudu fala de todas e só é interrompido por um último desejo: sobremesa. Vinícius vem e anota: panna cotta.
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