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Belo Horizonte,15/05/2026

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O fogo, a pedra e o ritual: como o Lavva transformou arquitetura e gastronomia em cerimônia

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O fogo, a pedra e o ritual: como o Lavva transformou arquitetura e gastronomia em cerimônia


Existe um momento, ao descer os degraus do Lavva pela primeira vez, em que o mundo lá fora simplesmente para. Não por causa de barulho, nem de espetáculo. É mais sutil do que isso: uma mudança de temperatura, de cor, de ritmo. Paulo Jacobsen, do Jacobsen Arquitetura, o arquiteto por trás do projeto, só conseguiu nomear o que sentiu após jantar ali pela primeira vez depois da obra: “Ao sair, achei que tudo parecia um sonho”.
O Lavva fica no Mata São Paulo, complexo cultural e gastronômico instalado nos arredores da Avenida Paulista que reuniu, ao longo dos últimos anos, operações como a Soho House e o Mata Città. O restaurante é uma steakhouse contemporânea que funde a tradição do Korean Barbecue com a relação visceral do brasileiro com o churrasco – com excelentes opções vegetarianas e veganas, diga-se de passagem. À frente da cozinha está o chef Paulo Shin, conhecido por ampliar o repertório da culinária coreana no Brasil com o premiado Komah. Mas, antes de qualquer prato chegar à mesa, o espaço é que dá o tom.
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Cortinas metálicas da Metalette cumprem o papel de luminárias
Fran Parente
O projeto da Jacobsen Arquitetura parte de referências (bem) antigas. “A proposta nasceu com a intenção de ser algo extraído de um tempo remoto. Começamos observando pinturas rupestres com caçadores”, conta Jacobsen. É a partir dessa ideia do homem que caça, do fogo como elemento de sobrevivência e comunhão que toda a estrutura se organiza.
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Todas as pedras naturais têm origem brasileira. Ao centro, embutem-se as grelhas que recebem as carnes e os cogumelos
Fran Parente
O fogo como fio condutor
No Lavva, o fogo não está nos bastidores: as chamas ocupam o centro de cada mesa, embutidas em grelhas por onde os cortes passam durante o jantar, conduzidos por uma equipe exclusiva designada para cada grupo. É um ritual – o “ritual do fogo”, como a casa o batizou – no qual as carnes são acompanhadas por 12 preparações tradicionais coreanas, os banchan: de kimchi de acelga e salada de batata a suflê de ovo e seleção de cogumelos. A show kitchen, onde o chef trabalha à vista dos clientes, reforça esse caráter de cozinha como cenário.
Para Jacobsen, essa dimensão gastronômica foi determinante para as escolhas projetuais: “O paralelo entre a arquitetura e a culinária é o elemento fogo. É o fogo no meio da mesa que confere uma impressão arquitetônica dramática, uma cor muito especial”.
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A iluminação, que Jacobsen descreve como “uma luz que abraça”, reforça a privacidade. “Você tem umas ondas que te dão essa intimidade em uma mesa que é só sua. É como se você estivesse no restaurante sozinho, apenas na companhia dos seus amigos”
Fran Parente
As paredes possuem uma presença quase escultórica, tanto pelo brilho quanto pela textura, pela massa e pela maneira como capturam a iluminação quente. “São materiais que não refletem a luz”, explica o arquiteto. “É preciso ter um certo volume para absorvê-la. O aspecto tátil, essa conexão com o material que você sente ao passar a mão, é decorrência disso.”
A pedra do balcão e da show kitchen chama-se Magma. Marina Budib, gerente de projetos da Jacobsen Arquitetura, recorda o momento do achado: “Desde o início, quando nos deparamos com essa pedra, soubemos que teria de ser ela. Tem tudo a ver com o conceito do Lavva”. Já as mesas utilizam granitos e quartzitos brasileiros em tons terrosos, vermelhos e amarelados. “A lava é essa mistura que muda de cor”, diz Jacobsen. “Tentamos replicar isso nas superfícies. A parede não tem um tom único. É feita de nuances do vermelho.” O forro, por sua vez, é de madeira carbonizada. “Quando a luz incide nele, é possível ver o craquelado”, nota Marina.
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Mesa de quartzito Moulin Rouge, da Brasigran, cadeiras Angela, design Aristeu Pires, paredes de taipa da Taipail, e forro de madeira da Tetrus
Fran Parente
O elemento de maior impacto visual é também o que melhor encarna essa filosofia: a escadaria curva que conecta os dois pavimentos. “O bar precisava ser central e a escada, uma escultura”, diz Jacobsen. “Então fundimos ambas. O bar se torna o acesso, e tudo no mesmo material. A pedra remete ao fumo, à lava, ao cobre.”
Acima da estrutura, um teto espelhado amplifica o conjunto – o reflexo dos degraus, as paredes que remetem à taipa e o pé-direito duplo que confere grandiosidade. “O Paulo sempre teve a intenção de que esses elementos fossem o ponto de impacto. Para potencializar isso, usamos o reflexo no teto”, complementa Marina.
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Uma escadaria curva conecta os dois pavimentos e dialoga com a sinuosidade de outros elementos, como o bar
Fran Parente
O desafio técnico
Instalado em um edifício tombado, o Lavva impôs restrições rigorosas. Não era permitido furar lajes livremente nem utilizar a cobertura para infraestrutura técnica. “Com toda a liberdade criativa, houve também a adequação às limitações do próprio prédio”, conta Marina. Isso exigiu soluções específicas para a exaustão das grelhas nas mesas – uma das partes mais complexas do projeto. “Tudo partiu do particular para o amplo. Como seria a mesa? As cadeiras? Como esses espaços se relacionariam?”, lembra a arquiteta.
Vale destacar que este foi o primeiro restaurante assinado pelo Jacobsen, que ainda não havia enfrentado a logística de uma operação gastronômica de alta complexidade. “Para nós, não é apenas um desafio formal. Um restaurante exige um raciocínio operacional distinto”, reconhece Marina.
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Forro e piso de madeira da Tetrus, cortinas metálicas da Metalette, mesa de quartzito Oak Bamboo, da Brasigran, cadeiras Prima, design Bernardo Figueiredo para a Dpot, e cadeiras Angela, de Aristeu Pires
Fran Parente
“Tudo aqui se refere ao fogo. Até o forro é de madeira queimada. São elementos que compõem o todo. Você não precisa olhar para o teto e identificar que ele é queimado; você apenas sente a harmonia entre as coisas”. É no fogo que tudo começa, afinal.
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