Coleção de arte poderosa inspira decoração de casa-galeria

Arte é fonte de inquietude, inspiração… Arte é fonte”, sentencia Marina Linhares. Apresentada a uma coleção poderosa nesta residência em São Paulo – daquelas que interrompem o curso comum das coisas –, a designer de interiores sentiu um misto de privilégio e humildade. “Pensei: ‘Nossa! Que maravilha. Deixa eu aprender um pouco’”, lembra. A força desse cenário tem reflexo imediato em sua linguagem, enriquecendo as camadas que ela propõe – característica que eleva seu trabalho há mais de 30 anos.
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No jardim, escultura Na Medida do Impossível (2014), de Flávio Cerqueira
Ruy Teixeira
Diante de uma coleção de arte, a decoração pode voar mais baixo
Assim como nenhum imóvel se repete para Marina, o ineditismo desta história é precioso. Curiosamente, começa com elementos familiares a ela. “O casal se mudou para uma residência bastante contemporânea que eu já conhecia”, conta. “Eles queriam um lar mais acolhedor, onde sentissem um vínculo maior, inclusive com o filho pequeno correndo por perto. Sonhavam com um diálogo interno verdadeiro.”
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Na passagem do living para o escritório, instalação O Silêncio Que Precede (2014), de Jorge Fonseca, ao lado de escultura Pêndulo (2012), de Artur Lescher
Ruy Teixeira
A sala de jantar tem bufê Marinho, de Ricardo van Steen, na Jequitibá, mesa Bizzet, de Jader Almeida, e cadeiras Carrie, design Patricia Anastassiadis para a Artefacto, sobre tapete da Botteh – nas paredes (da esq. para a dir.) obras Vibrações em Vermelho (1995), de Arcangelo Ianelli, na Aloisio Cravo, objeto cinético K-66 (1966), de Abraham Palatnik, e Aberración I (2025), de Marco A. Castillo, ambos na galeria Nara Roesler
Ruy Teixeira
No living, bufê de Jorge Zalszupin para a L’Atelier, na Galeria Teo, e telas de José Pancetti, na Tableau, e de acervo pessoal
Ruy Teixeira
A partir disso, a designer colocou o cuidado com a escala e com o pé-direito amplo como prioridade. Imaginar as conversas de quem viveria ali deu um norte para o desenho, resolvido com um layout intimista, e sofás dispostos nesses círculos em que o tom da fala soa mais baixo e natural. Uma leitura fina do dia a dia. “Meu objetivo é sempre pensar de outro jeito. O uso da casa é algo inusitado e me desprendo do que é certo e errado ao focar na vida do morador”, observa. Isso explica dois livings diferentes e o escritório perto do estar, que inclui espaço para o menino brincar. “O surpreendente está na maneira como a casa foi disposta”, completa.
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O espaço anexo ao living reúne mesa Guarujá e cadeiras Del Rey, tudo de Jorge Zalszupin, estante desenhada pelo escritório Marina Linhares Interiores e executada pela Marcenaria Lisboa, na companhia do objeto de metal e náilon Anello (1971), de Jesús Rafael Soto, da escultura Salvação (2016), de Flávio Rossi, na Galeria Luis Maluf, ambos em estruturas de acrílico, e da tela Sem Título (s.d.), de Amilcar de Castro – no jardim, escultura Dorso de Mulher (1970), de Bruno Giorgi
Ruy Teixeira
No hall de entrada, as caixas de acrílico guardam a obra Vitórias Régias para Rio Cocó IV (2013), de Ana Maria Tavares, na Galeria Vermelho, ao passo que as esculturas Gota de Vidro Plano Lâmina 1 (2012) e Pagão 3 – Violino (2009), ambas de Nuno Ramos, figuram no piso
Ruy Teixeira
No detalhe da sala de jantar, mesa Triangular, de Joaquim Tenreiro, e obra Dubai Clock (2014), de Daniel Arsham
Ruy Teixeira
Me desprendo do que é certo e errado ao focar na vida do morador
Para atender ao pedido de acolhimento, a designer optou por esquentar as cores. “Sempre tenho ajuda dela, a cor” – aqui usada num viés mais feminino. Na escolha do mobiliário, por sua vez, o modernismo brasileiro encontrou sintonia com o acervo e com peças contemporâneas de personalidade própria – vide o bufê Marinho, de Ricardo van Steen, na sala de jantar. O segredo é o tamanho da dose. “Diante de uma coleção de arte, a decoração pode voar mais baixo, com equilíbrio.”
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Em outra sala, a escultura Sem Título (1959), de Dolly Moreno, na casa de leilão James Lisboa, é ladeada (em sentido horário, a partir da tela azul, à esq.) pelas obras Esmeralda IV (2013), de Sandra Cinto, na Galeria Triângulo, Boiadeiros (1938), de Di Cavalcanti, na Tableau, Trama (2007), de Arthur Luiz Piza, na Galeria Raquel Arnaud, e Sem Título (2013), de Daniel Senise, na galeria Silvia Cintra + Box 4 – no ambiente ao lado, escultura Sem Título (1979), de Frans Krajcberg
Ruy Teixeira
No home theater, tela Sem Título (s.d.) e escultura Mesa Posta (2010), ambas de Marina Weffort, na Galeria Marilia Razuk
Ruy Teixeira
O quarto leva cama Dora, da Casapronta, mesa de cabeceira Camel, da Quartos Etc., com abajur da Cris Bertolucci, penteadeira do acervo dos moradores e banco na Ana Luiza Wawelberg, tudo sobre tapete da Botteh
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No living, o mobiliário inclui (da esq. para a dir.) mesa lateral na Ana Luiza Wawelberg, com abajur Paola, de Isabelle de Mari, da Olho, poltrona PL1, de Percival Lafer, reeditada pela Etel, sofás Bass, de Jader Almeida, com almofadas da Entreposto, mesa lateral Pétala, de Jorge Zalszupin, par de poltronas Navona, de Sergio Rodrigues, e mesa de centro de Zanine Caldas, tudo sobre tapete da Botteh – entre as obras, objeto metalizado Porca (2023), de Iran do Espírito Santo, tela Mamanguá (2011), de Luiz Zerbini (no centro), e díptico Sem Título (2014), de Philippe Decrauzat, na Parra & Romero
Ruy Teixeira
Marina ama design, mas quando quer se cutucar – palavra dela para falar de evolução criativa –, corre para as exposições e galerias de arte. “Há peças muito impressionantes neste projeto: uma delas é o violino em uma pedra, coisas que dificilmente se veem juntas, uma coleção realmente incrível.” Esse olhar especial para as obras foi lapidado desde o início de sua carreira. “Quando comecei a trabalhar, aos 20 anos, visitava casas de quem já tinha arte – peças mais decorativas, gravuras. Não eram muitas as pessoas que prestavam atenção na arte. Comecei a ir a galerias e isso fez muito bem ao meu trabalho. Lembro de quadros importantes que via nessas residências e sentia a diferença de atmosfera”, afirma. Dessa fonte, Marina nunca parou nem pretende parar de beber.
*Matéria originalmente publicada na edição de abril/2026 da Casa Vogue (CV 482), disponível em versão impressa, na nossa loja virtual, e para assinantes no app Globo Mais.
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