Ele começou com um secador encontrado no lixo e hoje fatura R$ 5 milhões com salão de beleza premium

Amaury Alves, 38 anos, abre no fim de maio o novo Salão Amaury Alves, em Uberlândia (MG): 301 metros quadrados, investimento de R$ 3,2 milhões e expectativa de ampliar em até 40% o faturamento da operação, que encerrou 2025 em torno de R$ 5 milhões.
A história, no entanto, começa 26 anos antes, quando Alves tinha 12 anos e encontrou um soprador serigráfico descartado na empresa de coleta de lixo onde seu pai trabalhava como mecânico. O equipamento industrial virou ferramenta de trabalho.
Com ele, o adolescente começou a fazer escovações em casa e na residência da avó — onde as clientes lavavam o cabelo no tanque — e a atender outras clientes de bicicleta, de porta em porta. "Eu ia no salão acompanhar a minha tia, via o que acontecia e repercutia nas pessoas", conta Alves. "Mas eu não tinha material."
Com 15 anos, montou o primeiro salão: uma cadeira e um espelho retirado do banheiro da avó. O espaço passou pela primeira reforma em 2008 — ano em que ele considera ter tido, de fato, um salão estruturado. Autodidata na técnica, Alves foi buscar fora da tesoura o que faltava no negócio: fez cursos de gestão, comunicação e, nos últimos cinco anos, mergulhou no mercado digital. "A somatória disso é o que a gente fatura hoje", diz.
O novo espaço
O Salão Amaury Alves que abre em maio fica dentro de um mall na região Sul de Uberlândia. A localização é uma mudança deliberada: o salão atual fica em uma casa com terreno de 1.000 m², mas sem visibilidade de rua. "O nosso alvo hoje é o público classe A", afirma Alves. "A gente teve que ir para uma região mais nobre para que as clientes se sintam confortáveis — com estacionamento e segurança na porta."
O investimento total chegou a R$ 3,2 milhões, entre construção, mobiliário e equipamentos. A maior parte saiu do bolso do próprio empresário — que vendeu casa e carro para viabilizar o projeto. Um empréstimo de R$ 400 mil completou o montante. "Eu acredito muito nesse projeto", diz Alves. "Não medi esforços."
Para 2026, a projeção é crescer 40% sobre o faturamento de 2025. O raciocínio é direto: mais profissionais, espaço maior, visibilidade que o salão atual nunca teve. "Toda a nossa clientela até agora veio 100% da rede social e de indicação. Agora a gente está em um lugar de visibilidade grande e constante."
Novo salão de Amaury Alves tem 301 m², estrutura para até 55 profissionais e investimento de R$ 3,2 milhões
Divulgação
Os carros-chefe da casa são mega hair e transformação de cor — mechas, coloração e correção de cabelo. No mega hair, o tiquéte médio de produto gira em torno de R$ 12 mil. No serviço de transformação de cor, entre R$ 6 mil e R$ 6,5 mil. O tíquete médio geral de serviços fica em cerca de R$ 2.600.
O novo espaço traz um diferencial ainda raro na região: lavatórios italianos com tecnologia de shiatsu, que permitem lavar o cabelo deitada, com massagem corporal simultânea. "Tem alguns lugares em São Paulo que têm, mas na nossa região não tem", afirma Alves.
Outra novidade é o atendimento sem agendamento prévio, com fila virtual. A cliente entra no sistema de onde estiver, acompanha o tempo de espera e recebe um aviso pelo WhatsApp quando o atendimento estiver próximo. A ideia veio de uma observação do próprio empresário: serviços express costumam gerar fila presencial de até uma hora. "A mulher hoje trabalha, faz um monte de coisa. Ela não tem mais aquela logística de antigamente de conseguir se programar."
A equipe atual tem 36 profissionais — cabeleireiros, manicures, designer de sobrancelhas, terapeuta capilar, recepção e gerência. Para o novo salão, a meta é chegar a 50 ou 55 pessoas.
O desafio da imagem gerada por IA
Um dos maiores desafios recentes do negócio não é técnico nem financeiro. É comportamental. Alves observa que um número crescente de clientes chega ao salão com referências de imagem geradas por inteligência artificial — e quer aquele resultado na vida real.
"A mulher hoje não vem aqui mais só em busca de um cabelo", diz Alves. "Então a gente tem uma dificuldade bem grande de estabelecer isso."
Para lidar com o problema, o salão trouxe uma especialista em psicanálise para uma formação da equipe — focada tanto em conflitos internos quanto no manejo desse novo perfil de cliente. O diagnóstico passou a ter mais peso no atendimento: antes de executar qualquer serviço, a equipe dedica mais tempo a alinhar expectativas e trazer a cliente para a realidade do que é tecnicamente possível. "A gente quase que destina mais tempo ao diagnóstico da cliente para trazer ela a uma consciência da realidade", explica.
Alves passou quatro anos como educador da L'Oréal antes de retomar os cursos por conta própria. O novo salão foi projetado para ser também um polo de formação: a estrutura interna é desmontável e pode ser reconfigurada para receber até 30 ou 40 profissionais em cursos teóricos e práticos. "Os cursos acontecem geralmente em hotel, e hotel não tem lavatório, não tem cadeira boa para cabeleireiro", diz Alves. "A gente está trazendo essa inovação dentro da área de formação."
Toda semana há reunião e treinamento dentro do salão. Alves abriu mão de um dia de atendimento para dedicar ao processo de educação da equipe. O resultado, segundo ele, aparece no perfil dos profissionais: há cabeleireiros na casa que entraram sem experiência e hoje faturam entre R$ 20 mil e R$ 25 mil por mês. "Chegou aqui sem saber fazer absolutamente nada. Toda a formação foi feita aqui dentro."
Dentro do novo salão, haverá um memorial: a mochila encontrada pelo pai, o soprador serigráfico e a escova original, exibidos em uma redoma de vidro com um texto contando a história. "Alguns clientes às vezes se emocionam, choram", conta Alves.
Memorial no novo salão reúne o secador encontrado no lixo, a mochila e os primeiros utensílios usados por Amaury Alves no início da carreira
Divulgação
A narrativa pessoal também é o principal motor de marketing do negócio. Hoje, 98% das clientes chegam pelo Instagram — e é o perfil pessoal de Alves, não o do salão, que mais converte. "Eu faço meio aquela telenovela. As pessoas querem saber da sua vida e no meio da história você coloca os cabelos."
O tráfego pago é recente e ainda pontual. Por muito tempo, Alves evitou ampliar o marketing porque a capacidade de atendimento não acompanharia a demanda. A lógica foi primeiro treinar a equipe, depois crescer. Agora, com o novo espaço e mais profissionais, a escala muda. "Vem gente de fora do país para Uberlândia, que não é uma capital, para fazer cabelo", diz Alves. "Não era a minha intenção, né? Minha intenção sempre foi trabalhar, ganhar dinheiro, fazer diferente, sair da pobreza extrema."
Leia também
Quer ter acesso a conteúdos exclusivos de PEGN? É só clicar aqui e assinar!




COMENTÁRIOS