O tempo que ninguém te ensinou a gerir
Quinze minutos. É mais ou menos o tempo que este artigo irá te tomar. Mas como serão esses quinze minutos? Cheios de notificações, interrupções, com sua atenção indo e vindo? Ou focados, atentos, calmos, aqui e agora? Eu tenho algumas coisas bem importantes para te dizer sobre o tempo, sobre as quais você talvez nunca tenha refletido. Então, a minha sugestão é que você dedique estes próximos quinze minutos a descansar de tantos estímulos e seguir aqui comigo. No mínimo, vai ser um bom momento de regeneração da sua atenção.
Bem, não sou exatamente um modelo para falar sobre esse assunto. Na verdade, eu sou o tipo de pessoa que vivia atrasada. Por mais cedo que acordasse, sempre engolia o restinho do Nescau e saía correndo quando chegava o ônibus escolar para me buscar. Cheguei atrasada no primeiro dia de trabalho do meu emprego. Em uma reunião com patrocinadores do meu primeiro empreendimento. Em sessões de cinema. Até em uma festa de aniversário que organizei para mim mesma. Dia de entrega de trabalho era sempre uma adrenalina!
Muitas coisas me faziam organizar o tempo daquela maneira. Eu nasci em uma família de atrasildos, então aprendi a replicar aquela adrenalina como um estilo de vida. Trabalhei muitos anos como jornalista, em que os fechamentos seguiam aquela mesma correria de última hora. Um dia tomei uma decisão que achei que resolveria tudo: me mudei para o litoral. Uma casa no sertão de Camburi, perto da praia e da cachoeira. Acordar com tucanos. Tomar banho de mar de manhã. Tudo isso estava ali pertinho de mim, mas a verdade é que eu continuei a viver a mesma rotina de São Paulo. Ao ponto de chegar a ficar três semanas “sem tempo de ir à praia”. Foi um choque, porque eu mudei de cidade, mas levei meu estilo de vida junto!
A grande virada na minha relação com o tempo não veio de um método de produtividade. Veio de um lugar que eu jamais esperaria: o Butão.
O país que mede o tempo de forma diferente
O Butão é um pequeno reino himalaia que ficou conhecido por criar o Índice da Felicidade Interna Bruta (FIB), uma alternativa ao PIB que mede o desenvolvimento de um país não apenas pelo crescimento econômico, mas por nove dimensões que incluem saúde, vitalidade comunitária e bem-estar psicológico. Uma das dimensões centrais desse índice é justamente o uso do tempo.
Quando fui ao Butão estudar o FIB, tive a oportunidade de conversar com Dasho Karma Ura, o ministro da Felicidade e criador do índice. Sentada na sua sala de estar, onde ele nos servia pessoalmente uma bebida destilada de arroz com um sorriso acolhedor, ouvi algo que reorganizou completamente a forma como eu entendia o tempo.
Ele me explicou que nossa visão sobre gestão do tempo está quase inteiramente focada na sua dimensão cronológica — quantas horas temos, como as distribuímos, quão eficientes somos dentro delas. Mas o tempo, segundo ele, tem pelo menos mais duas dimensões que a maioria de nós ignora.
E foi ali que eu entendi por que, mesmo trabalhando muito, me sentia sempre vazia no final do dia.
As três dimensões do tempo
O tempo cronológico é o que todos conhecemos. São as 24 horas do dia, os compromissos no calendário, os prazos, as entregas. É o tempo que as empresas compram quando contratam alguém por oito horas diárias. É o tempo que gerenciamos com agendas, alarmes e listas de tarefas.
Ele é importante. Mas sozinho, é insuficiente.
O tempo subjetivo é a qualidade de presença que você tem enquanto vive essas horas. É a diferença entre estar em uma conversa e realmente estar nela, ou ter a mente já no próximo compromisso. É o que a neurociência chama de estado de flow: quando estamos tão imersos em uma atividade que perdemos a noção do tempo cronológico, porque a experiência nos absorveu por inteiro.
Dasho Karma Ura me explicou que as empresas compram oito horas cronológicas dos seus funcionários. Mas explicou que duas horas em estado de flow valem muito mais do que oito horas de dispersão. O problema é que no ocidente não levamos em conta esse tempo subjetivo e, com isso, não buscamos por ferramentas para cultivá-lo.
O tempo do propósito é a terceira dimensão e talvez a mais esquecida de todas. É o tempo dedicado a lembrar quem você é. A reconectar com o que te move de verdade, com os dons que você trouxe para essa vida, com as motivações mais profundas que te habitam. Não é o tempo de fazer, mas de ser.
Pode ser uma meditação de manhã. Uma caminhada sem fone. Um momento de silêncio antes de uma reunião importante. Um ritual semanal de revisão do que importa. São muitas as formas possíveis.
Sem propósito e qualidade de presença subjetiva, ficamos presos no piloto automático: fazendo, produzindo, atrasando e entregando com o gosto amargo de que poderia ser melhor.
O que acontece quando ignoramos essas dimensões
Eu vivia quase inteiramente no tempo cronológico. Contava horas, otimizava tarefas e quanto mais eu tentava “acelerar”, mais me enredava na má administração do tempo. Então, resolvi me dedicar a compreender mesmo o que estava acontecendo.
Fui estudar a neuoplasticidade, o fato de que o cérebro se molda ao que você repete. Aprendi que padrões de pressa e urgência reforçam circuitos de estresse – e, com o tempo, a adrenalina deixa de ser exceção e passa a ser o modo padrão de operação. Isso não significa que você seja assim, mas que o seu sistema foi treinado para funcionar dessa forma.
E aqui está o paradoxo: quanto mais apressados ficamos, menos conseguimos entrar em flow. E sem flow, tudo exige mais esforço. E mais esforço gera mais pressa. É um ciclo que se retroalimenta e que, sem perceber, vai sugando a alegria do que fazemos.
Eu só saí desse ciclo quando parei de tentar gerenciar melhor o tempo cronológico e comecei a cultivar as outras duas dimensões.
Como começar
Foi dessa afinação que vivi na pele, ao longo de anos, que nasceu o método Plasticidade, o trabalho que desenvolvo hoje. Uma das suas bases é justamente a gestão integral do tempo: aprender a cultivar as três dimensões, não apenas a cronológica. Já acompanhei centenas de pessoas nesse processo, e o que mais me surpreende é a simplicidade do que muda quando alguém começa a dar atenção ao tempo subjetivo e ao tempo do propósito. Não é uma revolução. É uma afinação. Pequena, gradual e profunda.
Quero compartilhar um pouco disso com você que está me lendo aqui. Não vou te dar uma lista de “hacks de produtividade”, pois honestamente acredito que não é disso que você precisa! Mas posso oferecer são três perguntas simples para você carregar consigo nos próximos dias:
Quanto do meu tempo é vivido com presença real? Não apenas executando tarefas, mas genuinamente presente em uma conversa, refeição, tarefa, interação?
Existe espaço na minha semana para o tempo subjetivo? Para atividades que me absorvem de tal forma que eu me esqueço do relógio, como cozinhar, dançar, escrever, jardinar, tocar, criar?
Dedico algum tempo ao propósito? A lembrar quem eu sou além dos papéis que ocupo? A reconectar com o que me move de verdade?
Se a resposta para qualquer uma dessas perguntas for “raramente” ou “nunca”, esse é um ponto de atenção. Não para se cobrar mais, mas para se perguntar gentilmente: o que precisaria mudar para que esse tempo existisse?
Uma última coisa
Lembra que eu mencionei que vivia atrasada?
Pois bem, a verdade é que depois de toda essa afinação eu algumas vezes ainda me atraso! A vida é assim: imprevisível, cheia de gatos que derrubam o café e urgências de última hora. Mas o que mudou foi o que se passa dentro de mim quando isso acontece. Em vez da adrenalina antiga, existe agora uma calma que me permite entrar em flow mesmo no meio do imprevisto. Reorganizo. Aviso quem precisa ser avisado. E muitas vezes — não sempre, mas muitas vezes — termino o que precisa ser feito com tempo suficiente para ver o pôr do sol.
Isso não é produtividade. É outra coisa. É viver o tempo em vez de ser vivida por ele.
O tempo não é apenas aquilo que medimos no relógio. É também a qualidade do que sentimos dentro dele e o sentido que carregamos enquanto vivemos.
E esses quinze minutos que você acabou de passar aqui comigo? Espero que tenham sido integralmente seus.
➥Leia mais
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– O tempo das coisas: nem tudo deveria ser para ontem
– O tempo está acelerado?
Santosha é criadora do Método Plasticidade de reprogramação dos hábitos e gestão integral do tempo. Saiba mais em metodoplasticidade.com. Instagram: @santosha.plasticidade
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