Autossabotagem: o que explica o ‘medo’ da própria felicidade
Adiar tarefas importantes, revisar o mesmo trabalho várias vezes sem conseguir concluir ou até provocar conflitos em momentos de felicidade. A autossabotagem costuma agir de forma silenciosa e, quando menos se percebe, mantém um padrão de repetição que compromete justamente aquilo que é importante.
De acordo com a psicóloga Camila Ribeiro, esse comportamento surge na tensão entre o desejo de avançar e, na prática, atitudes que se afastam desse caminho. Trata-se de uma dualidade entre a vontade de crescer e a tentativa inconsciente de evitar a dor. “Sem perceber, a pessoa acaba se limitando antes mesmo de tentar”, observa.
A especialista explica que é comum ver pessoas fazendo muito, mas sem se mover na direção certa. Há também uma autocrítica constante combinada com procrastinação e a sobrecarga de tarefas.
“É comum ver pessoas fazendo muito, mas sem se mover na direção certa.”
Apesar de semelhante a procrastinação comum, que surge do cansaço ou de uma tarefa que não é uma prioridade naquele momento, a autossabotagem surge como um padrão. “Ela quer, mas trava sempre no mesmo ponto. E, geralmente, isso vem acompanhado de justificativa e autocrítica intensa. Não é só falta de ação. É um conflito interno não resolvido.”
Raiz da insegurança
Muitas vezes, esse comportamento aparece em adultos que cresceram em contextos familiares ou profissionais marcados por críticas excessivas, o que impacta diretamente a forma como se percebem. “Quando alguém cresce acreditando que precisa ser perfeito para ser aceito, ou que nunca é suficiente, isso pode gerar insegurança e medo de se expor.”
Assim, passam a repetir comportamentos que confirmam essa crença, mesmo que isso as mantenha presas em ciclos desgastantes. “É uma forma de proteção aprendida.”
Respostas ao desconforto emocional
No livro A coragem de ser imperfeito (Editora Sextante), Brené Brown descreve que, quando alguém está prestes a viver algo relevante, como um projeto, um novo relacionamento ou uma entrevista de emprego, surge a sensação de vulnerabilidade. Como mecanismo de defesa, o cérebro tende a rejeitar esse estado e, ao tentar retomar o controle, a autossabotagem aparece como uma tentativa de prejudicar algo para não ser pego de surpresa depois. Brené mostra como isso acontece na prática:
- Perfeccionismo: a crença de que “se tudo for feito de forma impecável, é possível evitar julgamento e vergonha”, e então, algo não é entregue por não estar perfeito;
- Entorpecimento: quando as emoções ficam intensas demais, elas acabam sendo silenciadas com excesso de trabalho, redes sociais, comida ou álcool. E essa fuga afeta diretamente a produtividade e a presença;
- Isolamento: surge na forma de uma postura excessivamente crítica ou cínica, usada para manter os outros à distância e evitar se envolver.
O medo da felicidade
A autora também afirma que a alegria pode ser uma das emoções mais vulneráveis que existem. Isso porque, quando ela é plena, pode vir acompanhada de uma sensação de perda de controle e de exposição.
Sabe aquele momento em que tudo está indo bem, você olha para quem você ama e sente um amor profundo, ou percebe uma cena simples do dia a dia e se sente plenamente feliz e, de repente, surge um pensamento ruim, como uma traição, um acidente ou algo dando errado?
A obra descreve isso como joy foreboding, ou seja, o medo do pior quando tudo está bem. Nesse processo, o cérebro passa a antecipar o sofrimento para se preparar, como se imaginar o pior agora pudesse evitar ser pego de surpresa depois. O erro dessa lógica é que ensaiar a tragédia não diminui a dor se ela realmente acontecer, apenas prejudica a alegria do presente.
Tanto no trabalho quanto na vida pessoal, esse comportamento pode aparecer ao criar conflitos, procrastinar ou se afastar, como forma de sair desse estado “perigoso” de alegria. Em muitos casos, parece mais fácil “chutar o balde” por conta própria do que lidar com a possibilidade de que algo dê errado depois.
Quebrar o ciclo
A psicóloga explica que, para interromper a autossabotagem, é necessário se tratar com mais gentileza e reduzir a autocrítica. Nesse processo, o primeiro passo é tomar consciência dos próprios padrões e identificar o que está por trás de determinados comportamentos, substituindo a punição por uma responsabilização mais madura. Camila sugere algumas perguntas que podem ajudar nesse processo:
- Em que áreas da minha vida eu sempre travo, mesmo querendo ir?
- O que eu venho adiando e por quê?
- O que eu estou pensando sobre mim nesse momento?
- Eu acredito que não sou capaz, ou que preciso estar perfeita para começar?
- O que eu estou esperando sentir para começar? E se eu nunca me sentir pronto?
- Qual é o menor passo que eu consigo dar hoje?
- O que eu posso fazer, mesmo sem estar no meu melhor momento?
- Eu estou me tratando como alguém que precisa melhorar, ou como alguém que precisa ser punido?
- Eu estou sendo justa comigo ou apenas exigente?
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