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Belo Horizonte,03/05/2026

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Abalo sísmico dias antes da tragédia das chuvas não deixou encostas mais vulneráveis em Juiz de Fora, explicam especialistas

g1.globo.com
Abalo sísmico dias antes da tragédia das chuvas não deixou encostas mais vulneráveis em Juiz de Fora, explicam especialistas


Câmera de monitoramento de casa registrou momento de tremor em Juiz de Fora
Dois dias antes da tragédia das chuvas, que deixaram 66 mortos em Juiz de Fora no fim de fevereiro, um abalo sísmico de magnitude 2,1 assustou moradores. Agora, em meio à reconstrução da cidade e ao receio de novos deslizamentos, uma dúvida ainda existe entre a população, especialmente nas áreas mais atingidas: o tremor pode ter deixado as encostas mais vulneráveis à chuva?
Para esclarecer à duvida, o g1 ouviu especialistas do Centro de Sismologia da Universidade de São Paulo (USP) e do Departamento de Geociências da Universidade Federal de Juiz de Fora (UFJF).
A resposta é direta: o tremor não deixou as encostas mais vulneráveis à chuva. Entenda abaixo.
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Chuva extrema e ocupação em áreas de risco explicam a tragédia
Chuvas de fevereiro deixaram 66 mortos em Juiz de Fora
Corpo de Bombeiros de MG/via AFP
O professor do Departamento de Geociências da Universidade Federal de Juiz de Fora (UFJF), pós-doutor em geociências e atuante nas áreas de geomorfologia e dinâmica da paisagem, Roberto Marques Neto, explicou que o tremor registrado na cidade ocorreu devido a um alinhamento geológico associado a falhas tectônicas, que podem voltar a se movimentar ao longo do tempo.
Os deslizamentos, no entanto, foram provocados principalmente pela combinação entre o volume extremo de chuva e a ocupação de áreas de risco.
Entre 22 e 28 de fevereiro, na semana da tragédia, Juiz de Fora registrou 316,6 mm de chuva. No mês, o acumulado chegou a 763,8 mm, mais de quatro vezes a média histórica de 173 mm, o que fez de fevereiro o mais chuvoso da história da cidade.
“Quando há chuva intensa, os danos se concentram nas áreas mais vulneráveis da cidade, onde vivem populações mais expostas ao risco”, afirmou.
Roberto Marques Neto, professor de geografia da UFJF
Caique Cahon/UFJF
Segundo ele, tremores capazes de provocar danos costumam ter magnitude muito superior à registrada em Juiz de Fora.
“Para provocar deslizamentos, normalmente seriam necessários tremores em torno de magnitude 5. O registrado na cidade ficou perto de 2", explicou.
Não existe 'causa e efeito' tardio, diz especialista da USP
Sismólogo Bruno Collaço
Centro de Sismologia da Universidade de São Paulo/Divulgação
O sismólogo Bruno Collaço, do Centro de Sismologia da Universidade de São Paulo (USP) e da Rede Sismográfica Brasileira (RSBR), que trabalha com monitoramento sismológico e análise de dados de atividade sísmica, afirmou que tremores como o que ocorreu em Juiz de Fora são considerados baixos e relativamente comuns no Brasil.
“Tremores desse porte não têm força para afetar construções, muito menos para provocar deslizamentos como os registrados na cidade. Mesmo em eventos mais fortes, os impactos costumam ser imediatos. Não existe esse tipo de causa e efeito tardio”, afirmou.
Minas Gerais está entre os estados com mais registros sísmicos do país, em geral de baixa intensidade e sem risco significativo. Na Zona da Mata, essa atividade é ainda mais pequena e dispersa em comparação a outras regiões do estado.
De acordo com o Catálogo Brasileiro de Sismos, há 21 eventos registrados na região. Juiz de Fora concentra o maior número, com sete ocorrências desde 1986. O maior tremor foi registrado em Barbacena, em 1992, com magnitude 3,7. Veja no mapa abaixo.
“Se alguém sentiu o tremor, isso acontece porque os sismos no Brasil costumam ser rasos, o que facilita a percepção pelas pessoas, mas não significa risco elevado”, completou.
Mapa sísmicos com eventos que aconteceram ao longo dos anos na Zona da Mata e Campo das Vertentes
Centro de Sismologia da Universidade de São Paulo (USP)/Reprodução
O que realmente representa risco neste momento?
Apesar do tremor dias antes da tragédia, especialistas reforçam que a principal recomendação é manter o monitoramento das encostas em áreas de risco, especialmente enquanto o solo estiver saturado. A população deve seguir os alertas da Defesa Civil.
Eles destacam ainda que, mais do que os tremores, a chuva continua sendo o principal fator de risco.
Perguntas e respostas
Imagens de drone mostram deslizamento de terra em Juiz de Fora em fevereiro
TV Globo/Reprodução
Confira abaixo outras perguntas e respostas sobre o assunto:
Juiz de Fora pode registrar novos tremores?
Segundo Roberto Marques Neto, novos tremores podem ocorrer, mas não há indicativo, no momento, de eventos capazes de causar grandes danos.
Quais áreas têm mais chances?
Conforme o professor, a resposta exige análise técnica do relevo e da estrutura geológica da cidade. De acordo com ele, uma das áreas que merecem atenção fica no entorno do Morro do Cristo e na transição entre a chamada cidade baixa e a cidade alta.
Nesses pontos, há um alinhamento geológico associado a falhas tectônicas antigas, que podem voltar a se movimentar ao longo do tempo. O especialista define a região como um “eixo preferencial de movimentação”.
É possível prever esses eventos?
Ainda segundo o especialista, “prever tremores com precisão é difícil e dependeria de monitoramento contínuo por meio de sismógrafos instalados na cidade”, explicou Roberto.
"Com esses equipamentos, seria possível acompanhar variações na atividade subterrânea e identificar sinais de aumento da movimentação geológica", completou.
Existe registro de deslizamentos causados por tremores na região?
Conforme Bruno Collaço, NÃO há registros documentados desse tipo no Brasil. Em Minas Gerais, os deslizamentos históricos estão ligados principalmente a períodos de chuva intensa.
Um novo tremor pode aumentar o risco após as chuvas?
"Um tremor dessa magnitude dificilmente teria força para provocar danos. Entretanto, em áreas já saturadas pela água das chuvas, qualquer fator adicional de instabilidade merece atenção. Nesses casos, eventuais deslizamentos associados ao tremor tenderiam a ocorrer de forma quase imediata", explicou Bruno.
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